quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Capítulo 5 – Simplesmente Demi

O filho da rainha

PAM!
Pulei da cama com o coração disparado. Estava no meio de meu sonho recorrente quando ouvi o barulho. Por um instante, pensei que estivesse em meu velho quarto em Belo Horizonte e a faxineira, com toda a sua delicadeza, estivesse dando uma geral no apartamento.
Mas não era nada disso. Foi só abrir os olhos para dar de cara com uma realidade muito mais assustadora. De pé, diante de mim, Joseph exibia toda a sua gostosura.
Puxei o lençol até o pescoço, desejando cobrir também o rosto. Afinal, experiências anteriores comprovavam que eu não era nada atraente ao acordar.
Quis perguntar o que ele estava fazendo ali, mas Joe foi mais rápido.
— Eu disse que te pegaria às oito. Você não honra seus compromissos?
Encarei-o com os olhos pesados de sono, estupefata. Gente, estava para nascer um sujeito mais autoconfiante e sem noção. Como ele tinha coragem de invadir meu quarto e praticamente me agredir verbalmente? E se eu dormisse pelada ou estivesse toda aconchegada num ursinho de pelúcia? Não que eu tenha um. Quero dizer, tenho, mas não durmo com ele. Não mais.
Puxei meu celular da mesinha de cabeceira e constatei que passava das nove da manhã. Ainda bastante cedo para quem estava de férias.
Joseph saiu andando pelo quarto, puxando as cortinas e abrindo as janelas, como se fosse o dono do pedaço. Quanto a mim, não tinha conseguido recuperar minha voz ainda e só ficava olhando para ele, esperando acordar do que parecia ser um pesadelo.
— Vamos lá! Saia dessa cama! Mexa-se! Vou estar aqui na sacada. Tem cinco minutos.
O pior foi que eu obedeci. Sentindo-me como um soldado acatando as ordens de um general autoritário, corri até o banheiro só para quase desmaiar assim que vi minha imagem no espelho.
SOCORRO! Ajeitei--me como pude e, no closet, coloquei a primeira roupa que vi. Acho que cumpri o tempo que Joe me dera, pois, quando o encontrei na sacada, ele abriu um sorriso desconhecido até então. Parecia verdadeiro.
— Agora, você pode me dizer por que entrou no meu quarto daquele jeito? — questionei, voltando a falar de repente. — No meu país, isso se chama invasão de privacidade.
Ainda sorrindo, porém com um novo tom — mais crítico —, ele retrucou:
— Aqui, chama-se cobrar uma promessa.
— Eu não prometi nada a você — disse, cruzando os braços no peito.
— Não conhece o ditado “quem cala consente”?
Nossos olhares se cruzaram e deixamos que ficassem assim por um momento, como se tivéssemos disputando um jogo: quem desvia primeiro? Claro que perdi.
Apoiei-me na mureta da sacada e deixei a beleza da paisagem acalmar meus nervos. Eu tinha, de meu quarto, a vista mais esplêndida do mundo: o oceano azul, a areia branca e fina, as ondas em seu vaivém ritmado, montanhas ao fundo e pássaros marinhos sobrevoando tudo. Quando eles se cansavam da luta pela conquista de um peixe, pousavam nas rochas que contornavam o lado esquerdo da praia. Magnífico.
Acho que Joseph percebeu meu encantamento, pois também se recostou na mureta, bem a meu lado, mas ficou em silêncio.
— O que é aquilo? — perguntei, apontando para uma pequena ilha a quilômetros da costa.
É a Ilha de Catarina — respondeu ele, acompanhando a direção de meu dedo indicador.
— Tão pequena...
— Sim. E é justamente por ser pequena, distante, mas ao alcance da vista, que se tornou a Ilha de Catarina.
— Como assim? — Virei-me para Joseph, esperando uma história. Entre tantas qualidades, também sou curiosa. Hehe.
Joe suspirou, concentrando-se. Então, começou:
— Em 1925, o avô do seu pai, Miroslav Markov, casou-se com a filha de um nobre russo, chamada Catarina Sorvinski. Ele já tinha sido proclamado rei da Krósvia e o parlamento estava fazendo a maior pressão para que ele se casasse. Você sabe, naquela época um rei sem rainha não tinha muita credibilidade, e Miroslav não possuía uma imagem muito positiva perante o povo. Ele era muito mulherengo.
Revirei os olhos, como se aquilo fosse uma grande novidade. Junte as palavras HOMEM + PODER e o resultado será LUXÚRIA. Fiquei com vontade de dizer isso em voz alta, mas me contive para não estragar a história.
— Catarina era jovem, rica e linda — Joe continuou. — O que mais Miroslav poderia querer? O pai dela ficou exultante quando seu tataravô pediu a mão de Catarina. Afinal, ele era um imperador. Mas Catarina pouco conhecia Miroslav e não queria se casar, pois não simpatizava com ele.
— Por que não? — indaguei. — O que ela sabia sobre ele?
Joseph respondeu sem tirar os olhos da ilha:
— Sabia tudo. Sabia sobre as amantes e sobre as viagens secretas para a Itália, onde era frequentador de um dos prostíbulos mais famosos da época. E o pai de Catarina também sabia, mas achava esse comportamento normal. Coisa de homem. E, como não cabia às mulheres escolher o marido, Miroslav e Catarina se casaram. Ela tinha acabado de completar 19 anos.
— Coitadinha... — murmurei, de repente sentindo uma empatia enorme com minha antepassada.
— Pois é. E ela sabia que não seria fácil, mas foi pior. Ele não a tratava com carinho e ainda trazia as amantes para o castelo.
Cobri a boca aberta com a mão. Quanta humilhação e submissão!
— E entre quatro paredes, bom... — Joseph parecia tímido agora. — Dizem que Miroslav não era dos mais gentis.
— Meu Deus! Como Catarina aguentou viver assim?
— Bom, ela acabou conhecendo uma pessoa, um homem que a fazia esquecer os sofrimentos.
— Um amante?! — perplexa, olhei outra vez para a ilha.
— Sim. Era um dos empregados do castelo, mas não sei bem o que ele fazia. Os dois se encontravam escondidos e logo começaram a levantar suspeitas. Até que um dia seu bisavô descobriu tudo e acabou com a festa deles, se é que você me entende.
— Como assim?
— Fácil adivinhar, não?
— Ele os matou?! — a frase soou mais como uma afirmação do que como uma pergunta.
Joseph balançou a cabeça.
— Mandou matar, mas só o homem.
— Oh... — Meus olhos se encheram de lágrimas e foi inútil tentar segurá-las. Gotas grossas começaram a descer silenciosas por minhas bochechas.
— Para Catarina, o castigo maior era continuar a viver sem o amado. Com toda a sua maldade, Miroslav mandou construir um chalé na ilha e a levou para lá. Nunca mais Catarina colocou os pés deste lado do mar. Morreu sozinha e infeliz poucos anos depois.
— Anos? Ela ficou presa lá por anos? Meu Deus do céu! Quanta crueldade!
Limpei as lágrimas com as costas das mãos e fiquei de frente para Joe, deixando as palavras daquela história trágica assentarem em meu cérebro. Ele também me olhou e não estava nem um pouco indiferente a tudo. Recontar a história pareceu mexer com seus sentimentos.
— Meu bisavô era um monstro — murmurei. — Como Catarina sobreviveu na ilha?
— Todos os dias, uma empregada ia até lá de barco. Levava comida, livros, contava histórias, falava do filho que ficou para trás e voltava chorando de pena de Catarina. Seu avô, o príncipe Viktor, era pequeno e não entendia o que havia acontecido com a mãe. Quando soube a verdade, já era tarde.
— Nossa! — foi tudo o que consegui pronunciar.
— É isso. E está tudo nos livros de história que as crianças leem na escola. Todo mundo por aqui conhece a tragédia dos Markovs, que foi, de certa forma, compensada mais tarde pela bondade do rei Viktor e do filho dele, seu pai.
Assenti, sem saber ao certo com que concordava. Não conseguia despregar os olhos da ilha. Definitivamente, as pessoas não foram ficando mais maldosas ao longo dos anos. Elas sempre foram.

*

Depois da sessão recordações dolorosas na varanda de meu quarto, tratei de tirar Joseph de lá, pois o clima ficou meio esquisito, como se tivéssemos transposto uma barreira, mas não soubéssemos como lidar com o novo território compartilhado.
Eu praticamente o escorracei porta afora e ele ficou resmungando umas frases ininteligíveis, acho que em krosvi. Acredito que no meio daquele jorro de palavras deva ter saído muito palavrão.
Mas, enfim, fiz o que Joe e meu pai queriam. Segui o filho da rainha, obediente e resignada.
Minha primeira reação ao ver a moto estacionada no pátio foi de desconfiança. Já contei que sou meio medrosa? Pois é. Ficar sentada a dez palmos do chão numa máquina em movimento acelerado não é a imagem da diversão para mim.
Joseph riu e disse que eu não precisava me preocupar, pois a BMW S1000RR não deixava ninguém na mão. Palavras dele. Só que o pior não é deixar alguém na mão, mas sim estatelado no chão.
Com aquele seu jeito delicado como um trator, ele me mandou sentar logo na garupa e nem se deu ao trabalho de me contar aonde íamos. Mas, assim que me encaixei atrás dele e senti a rigidez de seus músculos abdominais, deixei para lá todo o receio de cair. Eu já estava meio abobada pelas insinuações promovidas pela camiseta apertada. Imagine como foi sentir aquele corpo com minhas próprias mãos.
Se Joseph percebeu a situação, preferiu não comentar. Então, voamos do castelo direto para uma estrada de terra que cortava uma campina muito verde, salpicada de flores selvagens.
Embora o capacete me sufocasse um pouco, consegui sentir o perfume da natureza e fiquei absorvendo os aromas, quase em transe. Até que me dei conta de que boa parte dos odores era do próprio Joe. Ele exalava um perfume masculino, cru, com um toque amadeirado.
Dizer que meu coração perdeu umas duas batidas seria mentir descaradamente. Ele deixou de bater por uns cinco segundos mesmo. E depois, quando voltou, espalhou uma onda de eletricidade por todo o meu corpo.
Eu devo estar muito carente, pensei, bem a perigo mesmo, para ter uma reação dessas. Afinal, eu nem gostava de Joe. Não tinha a menor simpatia por ele.
Ainda bem que minha atenção foi desviada para algo muito mais seguro: a praia paradisíaca. A paisagem surgiu de repente, fazendo-me ofegar de surpresa. Aquele lugar não poderia ser real.
Joseph parou a moto e eu pulei na areia, completamente arrebatada pela beleza do lugar. Arranquei o capacete e inspirei o ar marinho, tão raro para mim. Livrei-me também de minhas Havaianas, chutando-as de qualquer jeito, e afundei os pés na fofura daquela areia branca. Que sensação maravilhosa!
— Este lugar é lindo! — suspirei.
Joseph pegou minha mão e me puxou consigo, enquanto dizia:
— Você ainda não viu nada.
Procurei não dar atenção ao encontro de nossas mãos, unidas pelo único propósito de me guiar até onde Joseph pretendia me levar. Mas que aquele contato inesperado mexeu com meus nervos, ah, mexeu. Afinal, sou mulher, sou humana e tenho hormônios. Ninguém em meu lugar ficaria indiferente a alguém como o Joseph. Ele podia ser o cara mais irritante do mundo, mas ainda assim sabia ser gostoso.
Enquanto me puxava, reparei no movimento de suas pernas e até um pouquinho mais acima, bem no... Bom, melhor não dizer nada. Porque chega a ser falta de educação aquilo tudo numa pessoa só.
Sem falar na tatuagem, que estava me deixando louca. Apesar de não ter coragem de fazer uma em mim, sempre achei homens tatuados um charme, quero dizer, contanto que não fosse nada exagerado, tipo o braço todo ou as costas inteiras.
O próprio Nick tinha uma bem na panturrilha esquerda, mas eu não sabia bem qual era o desenho, pois não costumava vê-lo muito de bermuda — o que era uma pena, já que ele também tinha um corpo bonito. Pensando bem, comparado com o de Joe, o corpo de Nick não era tão maravilhoso assim. Como será que Joe conseguia manter a forma? Devia viver na academia, só podia.
— Chegamos!
A voz de Joseph me tirou daquele transe perigoso e só então eu constatei que tínhamos caminhado por um bom pedaço da praia e estávamos sobre rochas, bem acima do mar.
— Quero que você conheça a Caverna do Pirata — exclamou ele, com um sorriso genuíno nos lábios.
— Caverna do Pirata?
— É. Vai me dizer que nunca ouviu falar da lenda do Capitão Barba Longa?
Neguei com a cabeça, prevendo outra história daquelas. Joseph fez cara de mistério e, conforme caminhávamos até uma gruta escondida entre as rochas, contou:
— Há muito tempo, mais ou menos uns 500 anos atrás, o Capitão Barba Longa era o rei dos sete mares. Tinha um navio enorme, cheio de alçapões, onde costumava esconder os tesouros que roubava de imperadores e nobres. Também era conhecido como o pirata mais destemido de todos os tempos, pois saqueava os navios dos rivais e sempre levava a melhor. Ninguém tinha coragem de enfrentá-lo, pois bastava uma provocação e ele apontava seus canhões para seus inimigos. Barba Longa já possuía muitas riquezas, mas não havia quem o fizesse largar aquela vida. Ele queria sempre mais e mais. Até que um dia apareceu um pirata à sua altura: o Capitão Caolho.
Nesse ponto da história, comecei a rir. Joe havia alterado o timbre da voz, que soou muito engraçado.
— Qual é a graça? — questionou, de testa franzida.
— Nenhuma. Continue.
— Então. O Capitão Caolho era mais jovem do que Barba Longa e queria muito roubar seus tesouros. Sendo assim, travaram uma batalha sem fim. Ora um vencia, ora o outro. E Barba Longa foi vendo muitas de suas relíquias serem levadas pelo rival.
— O Capitão Caolho invadia o navio de Barba Longa para saquear? — perguntei.
Joseph me encarou, mas os olhos enxergaram além de mim.
— Sim. Mas nunca conseguiu levar tudo, pois havia muitos tesouros. Então, Barba Longa montou uma estratégia. Em vez de levar os tesouros roubados para seu navio, começou a escondê-los em praias desertas. Por onde ia, deixava algo para trás. Depois, voltava ao local e levava o tesouro consigo, quando fosse seguro. O Capitão Caolho chegou a pensar que Barba Longa já tinha perdido tudo e parou de persegui-lo. Mas, como em toda história de pirata, havia um traidor entre os tripulantes do navio de Barba Longa. Esse cara, que se chamava Bad Shark, contou ao Capitão Caolho todo o plano bolado por seu capitão.
— Mas como Bad Shark fez isso? — interrompi. — Onde ele se encontrou com o Capitão Caolho? E qual foi a intenção dele ao fazer isso?
Eu estava adorando a história e, de repente, senti-me totalmente envolvida. Joseph riu.
— Sei lá! Só sei que o Capitão Caolho ficou puto da vida. Queria porque queria conquistar mais riquezas. Para isso, precisava ser mais esperto e chegar ao lugar onde os tesouros estavam escondidos antes que Barba Longa voltasse para pegá-los. Com a ajuda do traidor Bad Shark, conseguiu ter sucesso muitas vezes. No entanto, Barba Longa, que não era bobo, desconfiou que havia algo errado e, ameaçando jogar todos os seus homens ao mar, conseguiu descobrir que Bad Shark estava servindo a Deus e ao diabo ao mesmo tempo.
— Você quer dizer a dois diabos, né? — emendei.
— É verdade — Joe concordou e mais uma vez segurou minha mão para me ajudar a subir um pouco mais. — Então, antes de fazer Bad Shark andar na prancha e cair na boca dos tubarões, Barba Longa o obrigou a indicar locais falsos para o Capitão Caolho. Ao perceber que havia sido enganado, Caolho passou a dedicar cada dia de sua vida a tentativas de matar Barba Longa. Até que, um dia, ele conseguiu.
— O quê? Ele matou Barba Longa? Assim, sem mais nem menos? — fiquei indignada. — Logo agora que eu estava torcendo pelo corsário veterano...
— É — Joe sorriu, parando de caminhar. — Por isso, muitos tesouros ficaram perdidos para sempre, escondidos em praias desertas de todo o mundo. E uma delas fica bem aqui, em Perla, mais precisamente ali, na Caverna do Pirata.
Segui o olhar de Joseph até me deparar com a entrada da gruta. Fiquei imaginando se tudo não passava de uma lenda boba ou se a história era realmente verdadeira.
— Essa foi boa! — disse, exalando o ar de uma só vez. — Você quase me pegou.
— Ah, é? E o que me diz... disso?
Joseph tirou de dentro da mochila uma moeda de ouro, muito antiga mesmo. Estendeu-a para mim.
— Achei-a durante um mergulho no lago da gruta, há alguns anos.
Fiquei muda, perplexa.
— Se não acredita, pergunte a outros mergulhadores. Melhor ainda: pergunte a qualquer morador daqui. Todo mundo vai confirmar a história.
— Está certo — disse, por fim. — Você está me saindo um exímio contador de histórias.
— E você é muito impressionável.
Sem dizer mais nada, entramos finalmente na gruta, ou melhor, na Caverna do Pirata. E minha perplexidade só aumentou. Como o interior de uma rocha poderia ser ainda mais belo do que a praia de onde viéramos? Havia um lago transparente e as frestas entre as pedras faziam a luz do sol penetrar e ser refletida pela água cristalina.
E depois de toda aquela história de pirata, verdadeira ou não, a aura ali dentro parecia mágica. Cheguei a ouvir as vozes do Capitão Barba Longa e de sua tripulação. Meu corpo se arrepiou todo.
— Lindo... — murmurei.
— Não é? — disse Joe, quebrando meu encantamento. — Esta gruta é um dos meus refúgios secretos. É para cá que corro quando as coisas não estão muito boas. É tão calma, solitária...
Gente, esse cara era o mesmo que tinha me arrastado outro dia da biblioteca e dito um monte de idiotices na minha cara no dia anterior? Porque não parecia. Não quando ele dizia aquelas coisas, não falando exatamente comigo, mas mais consigo mesmo.
— Entendo.
— Jura? — De repente, seu tom voltou a ser ácido. — Pois parece que você mergulha suas frustrações numa boa ida ao shopping.
Aquilo soou como um tapa na cara. Depois de ser praticamente sequestrada e arrancada da cama, sem falar da viagem na garupa de uma moto a jato, ouvir uma história em tom de brincadeira e ser apresentada a uma paisagem de tirar o fôlego, eu esperava que as defesas de Joe contra mim tivessem desaparecido. Concluí que ele deveria ser bipolar. Só podia!
Afastei-me um pouco, procurando me concentrar nos detalhes da gruta, por exemplo, no arco-íris que se formava sobre o lago e no brilho das pequenas pedras em torno dele.
— Desculpe — Joe disse momentos depois, e eu o vi passar uma mão freneticamente nos cabelos castanho-claros. Quando interrompeu o gesto, uma mecha caiu sobre um dos olhos e ele retirou-a instintivamente. — Me expressei mal. Não quero implicar com você, pelo menos não agora, não aqui.
Pisquei.
— Mas quer fazer isso depois. Posso saber por quê?
— Hummm... Digamos que tenho meus motivos.
— Baseados em conceitos pré-concebidos, imagino.
Nossos olhares ficaram duelando e, pela primeira vez, notei um brilho diferente em seus olhos verdes.
— A gente precisa voltar — disse ele. — Se quiser, depois posso trazer você para mergulhar.
Bipolar. Com certeza.
— Vamos ver — respondi, passando por ele e saindo da Caverna do Pirata, sem olhar para trás nem uma vez.
Voltamos para o castelo no meio da tarde. Eu estava exausta, suada e até meio molhada. Joseph me deixou na entrada e foi embora, montado em sua moto de rebelde sem causa. Nisso ele me surpreendeu. Imaginava que tivesse um daqueles carros esportes, conversíveis e potentes. Não que a moto não fosse veloz — e garanto que era —, mas pensei que um mauricinho como ele ficaria bem longe de uma máquina daquelas, para não estragar o penteado. Bom, mas me enganei. O cara adorava emoções fortes e era bem chegado em esportes radicais.

Sentindo um nojo tremendo de minhas roupas e de meu corpo melado de sal e areia, corri para debaixo do chuveiro e deixei que a água lavasse os vestígios de nossa aventura — a primeira da minha vida, até onde me recordo. Tinha a intenção de falar com minha mãe e talvez com Selena, mas deixaria isso para mais tarde, assim que me sentisse mais revigorada.

~*~

Não queria ter demorado tanto para postar, porém, os últimos dias foram bem estressantes para mim. :/ E pra completar, eu não sei como vai ficar o blog esse ano. Minhas aulas começam agora dia 12, e talvez eu faça curso de Design de interiores além da faculdade de Arquitetura. E ainda tenho que arranjar tempo pra ler, porque, bom, livros são a minha vida, sabe? Talvez, eu me esforce e poste aqui todo final de semana. Mas vou ver tudo isso quando chegar a hora. Por enquanto, vou postar 2 capítulos hoje e mais 2 amanhã, ok? 
Obrigada pelo comentários, a propósito <333 
Espero que continuem gostando da historia e não abandonem o blog, caso eu não poste com "frequência". Mais uma vez, obrigada por comentarem!

Beijos na testa, 
Yumi.

Ps: Vi só agora que estou com 101 seguidores lindos <33 *-* Quando comecei o blog, nunca pensei que eu chegaria nem aos 50 seguidores, quem dirá aos 100. Agora fiquei animada hahaha Obrigada por me seguirem, seus lindos ;D Vocês vão todos para o céu. <3

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Capítulo 4 – Simplesmente Demi + divulgação


~*~
Alguém já ouviu falar na Krósvia?

Os dias seguintes à minha chegada foram de reconhecimento de terreno. Ou seja, fui levada de um lado para o outro por Irina, mas meio clandestinamente. Por mais que Andrej não tivesse divulgado oficialmente a minha existência, ele temia por minha segurança. Isso era muito engraçado porque, até então, a única preocupação de minha mãe tinha sido garantir que eu chegasse em casa todos os dias com a cabeça bem grudada no pescoço e todos os meus fios de cabelo no lugar.
O que Andrej não queria era que eu sofresse o assédio da imprensa antes da hora e não pudesse curtir anonimamente meu novo país. Palavras dele. Meu pai também queria evitar que a notícia se espalhasse pelo Brasil e se tornasse assunto das revistas de fofoca.
Sendo assim, para que as coisas acontecessem do jeito certo, Andrej estava planejando um evento de apresentação de sua filha — ou seja, euzinha — ao povo da Krósvia. Nesse dia, ele faria um comunicado oficial e divulgaria ao mundo que tinha uma herdeira legítima.
Quando ele me contou tudo isso, comecei a rir. Fiquei me lembrando de um livro que li sobre uma princesa americana recém-descoberta. Eu estava vivendo algo bem parecido, com a exceção dos cabelos indomáveis. Isso eu não tenho, graças a Deus.
Bem, passei dias andando com Irina para todos os cantos de Perla e me deslumbrando com a beleza da cidade. Havia tantas praças e todas eram tão bem cuidadas e floridas! Não vi lixo espalhado nem bancos estragados. As crianças brincavam — livres e seguras — nos parquinhos.
E as flores! Era tanta variedade, tanta cor que fiquei sem fala. Aliás, parecia que Perla nascera para ser florida. Cada casinha tinha um canteiro na frente, fosse no chão ou nas sacadas. Tudo muito caprichado, como se as pessoas tivessem orgulho de viver naquele pedaço do mundo.
Irina disse que sou engraçada. Normalmente os turistas se encantavam pelos palácios, pelos monumentos históricos, pela arquitetura eclética... e eu lá, babando na natureza e nas casas das pessoas comuns.
Não é bem assim. Também gosto das construções. Pelo amor de Deus, nasci em Minas Gerais! Sou fã de Ouro Preto. Adoro antiguidades. E Perla tinha um monte delas. Mas não dava para ignorar quão generosa a natureza foi com a Krósvia ao dar ao país um clima agradável, propício a tudo, além de um litoral digno de catálogos turísticos. Paradisíaco.
Sem brincadeira. Ao afundar meus pés naquelas areias brancas e finas, fiquei imaginando uma cena idílica com Nick e eu como protagonistas. Minhas bochechas chegaram a queimar. Não vou descrever o que passou por minha cabeça. Só sei que foi bom e desejei muito que as imagens passassem a ser reais. Ai, ai.
Outra marca registrada de Perla eram os cafés. Assim como eu imaginava que seria em Paris, havia um em cada esquina, todos cheios de turistas, homens e mulheres de negócios, estudantes, boêmios. Claro que fui conferir dia após dia se eles eram tão bons quanto aparentavam e, como cafezeira de primeira, atesto que foram mais do que aprovados.
Devo registrar que a energia de Irina não tinha fim. Quando pensei que já tinha visto tudo, conhecido todos os lugares, ouvido todas as histórias, ela me apareceu com mais um roteiro.
— Vamos seguir hoje a trilha da moda e do consumismo.
Eu chegara à Krósvia com uma pequena reserva financeira, conquistada com meu ridículo salário de estagiária, mais a mesada que recebia de minha mãe para não ter que ficar pedindodinheiro toda hora. Mas nem bem tinha respirado os ares europeus e Andrej aparecera com um sorriso nos lábios e um cartão de crédito nas mãos. Não adiantou argumentar, dizer que não precisava, que ficaria bem com o que trouxera e coisa e tal. Ele enfiou o cartão em meu bolso e ordenou: Use sem moderação.
Nunca tivemos problemas econômicos, digo, minha mãe e eu. O trabalho dela é bem remunerado e vivemos com certo conforto. Mas eu jamais ouvira essa frase em toda a minha vida. Mamãe sempre regrou tudo. Primeiro, porque a gente não nadava em dinheiro. Segundo, bem, por motivos óbvios. Todo mundo sabe que não se pode dar a uma criança ou a um adolescente tudo o que eles querem.
Aí aparece o meu pai e me diz uma coisa dessas, ainda por cima sorrindo. Inacreditável. Se eu ainda fosse pequena, ele poderia estragar minha educação. Que bom que já estava bem crescidinha...
Então, por excesso de responsabilidade — e pela boa educação que recebi de dona Dianna —, insisti que não queria cartão de crédito nenhum e que nem era tão consumista assim. Essa característica era forte em minha mãe e em vovó, mas eu sempre fui básica, como todos bem sabem.
Andrej virou as costas e me deixou com cara de tacho. E o cartão na mão.
Só por isso, Irina inventou de me levar às compras. Fala sério. Ela disse que eu precisava de roupas novas. E sapatos. E bolsas. E maquiagem. Então eu fui, fazer o quê?
Sem que eu me desse conta disso, já estava enfiada num megashopping, gastando feito louca, comprando coisas que eu nem sonhava ter.
Por sorte, as atendentes das lojas falavam inglês (o país estava bem preparado para o turismo) e não houve o menor problema de comunicação. Elas ficavam empolgadas quando Irina contava que eu era brasileira e faziam um monte de perguntas, a maioria do tipo: Você usa biquíni fio-dental? Ninguém merece.
Acabei comprando três calças jeans — uma de cintura baixa e justinha, outra básica e uma de estilo masculino, meio larga no bumbum, da Dolce & Gabanna —, cinco vestidos básicos, dois vestidos de festa, sete blusas, um casaco de lã e um blazer. Ah! E um lenço também. E um par de luvas de couro vermelhas.
Tá bom. Para quem se diz não consumista, exagerei nas compras. Mas era tudo tão lindo, e eu agora tinha tanto dinheiro...
Apaixonei-me pelos sapatos italianos Manolo Blahnik, dos quais eu só tinha ouvido falar nos livros de Meg Cabot e Sophie Kinsella, e acabei levando três pares exclusivíssimos e carésimos: uma bota preta de bico fino, cano alto e salto agulha, um “meia pata” rosa-choque, furado na ponta para deixar os dois primeiros dedos do pé à mostra, e uma sandália de festa creme. De outra butique, levei ainda uma bolsa de couro verde-escura e uma rasteirinha com as tiras bordadas com pedras douradas.
Consumida pela euforia, acabei renovando minha gaveta de lingeries, dando-me de presente alguns conjuntos de renda bem sexies da Victoria’s Secret, para uma emergência. Vai saber? Não que eu esteja planejando algo... Ou talvez esteja, sei lá! Pelo menos, foi o que fiquei repetindo para mim ao pagar as calcinhas e os sutiãs novos, embora, só de pensar na possibilidade de concretizar minhas fantasias na areia da praia, sentisse a barriga gelar.
Cheia de sacolas nos braços, um sorriso de prazer na face e um rombo na conta bancária — de meu pai —, avistei um salão de beleza e decidi que precisava fazer as unhas. Sou básica — ou era? —, mas não sei ficar com as unhas por fazer.
Graças a Deus, havia uma manicure no salão e ela estava com tempo para me atender. Irina aproveitou a oportunidade para trocar a cor do esmalte.
Sentei-me diante da moça e estendi as mãos para ela, que pegou uma lixa e começou a aparar minhas unhas.
Notei que não havia nenhum sinal de alicates e removedores de cutículas. Como, por Deus, a manicure pretendia dar um trato legal nas minhas unhas sem um bom e afiado alicate?
Quando a manicure, depois de guardar a lixa, retirou uma base da gaveta e quis saber qual cor eu gostaria de passar, puxei rapidamente as mãos e perguntei, incrédula:
— Você não vai colocar minhas mãos de molho para tirar as cutículas?
— As cutículas? Tirá-las? Como assim? Posso empurrá-las, se fizer questão.
De queixo caído, balancei a cabeça energicamente. Não dá para fazer as unhas sem eliminar as cutículas! A beleza do negócio está na eliminação das benditas cutículas. Todo mundo sabe disso, não sabe?
Remexendo a bolsa, encontrei o saquinho de chita onde guardava os apetrechos que levava para minha manicure de Belo Horizonte quando ia arrumar as mãos e os pés.
— Olha — comecei, paciente —, eu não sou manicure, mas posso lhe dar umas dicas. Porque não dá para ficar com as unhas bonitas e nenhum esmalte as realça se as cutículas continuarem aqui.
— Senhorita, eu realmente...
— Veja bem, hã, Virna — li o nome da moça em seu crachá. — Você consegue um par de luvas de plástico com a cabeleireira?
Virna se limitou a balançar a cabeça, mas se moveu em busca das luvas.
— Muito bem — disse eu em tom professoral. — Agora, a gente borrifa um pouco de água dentro de uma delas primeiro. Pode colocar uma pequena dose de creme hidratante também. Depois, é só calçá-la em uma das mãos. Enquanto lixa as unhas da outra mão, a água e o creme vão amaciar as cutículas desta e daí você poderá cortá-las com o alicate. Assim. Dê aqui sua mão.
Sem nem perceber o que estava fazendo, executei todas as etapas relatadas para Virna na própria Virna, sob os olhares atentos e incrédulos das clientes e funcionárias do salão. Sem contar a boca escancarada de Irina, que devia estar a ponto de me arrancar dali e me prender dentro do castelo. Seu olhar dizia o que ela pensava: O rei vai me matar! Estou expondo a filhinha dele!
A manicure ficou muda. Mesmo não tendo destreza para fazer uma unha com perfeição, consegui demonstrar à moça como deveria ficar uma mão bem-feita. Recebi aplausos entusiasmados assim que terminei.
— Nos pés, você pode usar sacos plásticos — finalizei a lição. — E agora? Vai fazer minhas unhas direito?
Virna concordou e tratou de aplicar as técnicas recém-aprendidas. Tudo bem. Admito que não ficou uma maravilha, mas já era um começo. E, como já estava em um salão de beleza mesmo, lavei e sequei os cabelos. Ao me olhar no espelho, senti-me renovada.
Com o guarda-roupa reestruturado, as unhas feitas e o cabelo limpo e brilhante, estava pronta para encarar essa vida diferente e mágica que caíra de paraquedas sobre minha cabeça.

*

Tudo lindo... até eu chegar em casa. Irina e eu entramos no castelo pela entrada secundária, destinada aos funcionários e moradores por ser mais curta e de acesso mais fácil.
A essa altura, ou seja, quando eu já estava havia quase duas semanas na Krósvia, todo mundo no palácio sabia quem eu era e conhecia meus hábitos — principalmente os gastronômicos.
Amiga que fiquei de Karenina, a principal cozinheira do castelo, sempre passava pela cozinha antes de me enfiar na biblioteca e ficar entocada lá até que a noite caísse. E não era só para bater papo com ela que eu ia até lá. Era também para provar tudo o que ela preparava, principalmente as massas maravilhosas. Eu ficara, sim, assustada com a comida servida em meu primeiro dia na Krósvia. Mas agora Karenina conhecia minhas preferências e adorava me paparicar.
Exausta com as compras desenfreadas, entrei encurvada na cozinha, resmungando algo ininteligível, principalmente porque falei em português.
— Kare, preciso de energia — implorei, fazendo uma voz de criança carente e usando o apelido carinhoso que dei a ela.
Karenina sorriu, mostrando seus dentes perfeitos, mas quem respondeu não foi minha cozinheira favorita — depois de minha mãe, claro.
— Estou vendo que participou de uma orgia consumista.
A voz profunda me atingiu em cheio. Desde aquele jantar fatídico, eu não vira mais o dono daquela voz. Ainda bem, pois não estava preparada para suportar as indiretas e os olhares mordazes outra vez.
Passara uns dias andando feito lagartixa pelas gretas, com medo de dar de cara com ele. E, quando eu já nem me lembrava mais de sua existência, Joseph me vinha com essa frase carinhosa.
Respirei fundo para responder à altura, mas foi só olhar para ele que esqueci o que pretendia dizer.
Joe parecia um deus grego. Como eu não notara isso da primeira vez? Talvez fosse a roupa. De calça jeans desbotada e rasgada na coxa, botas marrons e camisa de malha demarcando seus músculos — Jesus, que tórax era aquele? —, acho que me esqueci como se respira.
Não sei por que, mas nessa hora meu cérebro resolveu se lembrar das lingeries novas da Victoria’s Secret. Que belo senso de oportunidade!
— É — concordei, mais por impulso do que por concordar com ele. — Não resisti à tentação.
Epa! Frase ambígua. Droga, droga, droga! O sorrisinho safado que Joe esboçou era a prova de que tinha captado o duplo sentido.
— Fico feliz que esteja aproveitando seu tempo aqui da melhor maneira possível. Afinal, de alguma forma tem que valer a pena, né?
Franzi a testa. Não tinha a menor ideia do que exatamente ele estava falando. Estaria tirando uma da minha cara? Provavelmente. O santo dele definitivamente não tinha batido com o meu.
— Quer comer o que, meu bem? — quis saber Karenina, indiferente a toda a estranheza do diálogo entre mim e Joseph.
— Tem café? Se tiver, preciso de uma garrafa inteira. E pão.
Minha resposta me levou a um arrependimento imediato. Deu a entender que eu estava desesperada, isto é, mais munição para a língua ferina do enteado de meu pai.
— Também quero, Karenina — disse Joe.
— Não pelos mesmos motivos, mas também estou um bagaço.
Chatinho ele, não? Coisa de mauricinho, só podia ser. De repente, deixei de ter fome e só queria ir para meu quarto e fugir daquele olhar verde e provocador.
Mas, resignada e com o estômago reclamando, sentei-me em frente à mesa da cozinha, enquanto Karenina servia um lanche com muito mais itens do que eu havia pedido. Joe fez o mesmo, mas sentou-se de um jeito bem mais despojado, com um braço sobre o encosto da cadeira e as pernas meio abertas. Ficou me encarando descaradamente, uma sobrancelha arqueada, desafiando-me a fazer o mesmo.
No entanto, tudo o que eu consegui encarar foi a tatuagem que se insinuou debaixo da manga da camisa dele, bem no tríceps. Não sei ao certo o que era. Parecia uma dessas tribais, toda preta. E sexy. Muito. Engoli com dificuldade enquanto desviava o olhar para o armário das louças, para minha própria segurança.
— Estava reparando daqui — disse ele, começando uma conversa mansa, aparentemente despretensiosa, mas que eu sabia que era pura fachada. — Seus olhos são bonitos.
Oi?
— Meio puxados, né? Cílios longos... — Joseph me estudava como se eu fosse um rato de laboratório. Senti que fiquei vermelha e não havia jeito de disfarçar isso. — Muito sensuais. E a cor é meio indefinida. Não sei ainda se são castanhos-claros ou esverdeados.
Karenina riu e se intrometeu na conversa, salvando-me de um constrangimento ainda maior.
— Menino, para com isso! Não vê que a Demi ficou envergonhada? E é claro que os olhos dela são cinzentos, não percebeu ainda, seu tonto?
Se era para melhorar a situação, adianto que ela não alcançou seu objetivo. Fiquei ainda mais sem graça. E, sim, Karenina estava certa. Meus olhos são cinzentos, um tom tão morno quanto um dia nublado.
Joseph sorria de modo irritante. Senti que as engrenagens do cérebro dele estavam trabalhando a mil, provavelmente para soltar mais uma pérola.
Distraí-me mordendo um pãozinho de batata bem quente, recheado com requeijão, recém-saído do forno. A sensação dele em minha boca era tão boa que, por um instante, esqueci que aquele idiota gostosão permanecia plantado diante de mim.
— Sabe de uma coisa? — perguntou ele, enquanto terminava de engolir um pedaço de pão. — Embora eu não acredite muito nessa história de filha perdida no mundo, até que você se parece com o Andrej. Nem precisa fazer o exame de DNA, eu acho.
Quase cuspi o café naquela cara safada. Quer dizer que a birra toda dele era porque pensava que eu era uma fraude, uma golpista de quinta, de olho na fortuna de Andrej? Seria possível que ninguém tivesse feito o favor de contar para o ordinário que fora meu pai quem me encontrara, que ele viera atrás de mim, e não o contrário?
Mas não consegui abrir a boca para protestar. E não foi só por causa do enorme choque e da indignação, mas principalmente porque fiquei magoada. Isso mesmo. Eu não queria que Joseph pensasse mal de mim, mesmo não entendendo o motivo de eu me importar com isso.
Levantei-me da cadeira, já sem apetite.
Lutando contra um nó dolorido que subia por minha garganta, finalmente disse:
— Você não sabe nada sobre mim. Nada. Então, não fique falando do que não conhece.
Por mais que ele tenha se assustado, pelo menos um pouco, com minha reação, ficou parado como uma estátua.
Enquanto eu me dirigia para fora da cozinha, sem me despedir de Karenina, escutei-a ralhar com Joseph como se ele fosse um garotinho levado. E não era isso mesmo o que ele era? Um filhinho de papai mimado?

EU: — Aí eu saí pisando duro e deixei o metido a besta sem fala!

Já fazia quase meia hora que falava ao telefone com Selena. Já que Andrej resolvera me dar carta branca para gastar à vontade, que mal havia em abusar das chamadas internacionais?
Proporcionalmente à minha vida em Belo Horizonte, era o mesmo que comprar balas na cantina da faculdade. Mixaria.

EU: — Até agora estou sem acreditar que o idiota teve a coragem de dizer na minha cara que duvida das minhas intenções. Vê se pode, Selena! Até outro dia eu nem sabia onde a Krósvia ficava no mapa!
Selena: — Demi, eu...
EU: — Desde o primeiro dia ele fica me encarando de um jeito irônico, com uma das sobrancelhas meio repuxada para cima, me avaliando como se eu fosse uma...
Selena: — Sinceramente...
EU: — Você acredita que ele disse que nem vou precisar fazer o teste de DNA porque eu “até” pareço com o Andrej? É muita cara de pau.
Selena: — Bom, talvez...
EU: — O pior é ter que olhar para aqueles olhos verdes profundos, porque é difícil, levando em consideração a estatura do idiota. Sabe, Selena, você precisa ver, ele é superalto. E tem uns músculos bem definidos, deu para perceber.
Selena: — Bom...
EU: — Mas isso não quer dizer nada, já que ele perde todo o charme assim que abre a boca e solta uma daquelas frases sarcásticas, tipo, que eu participei de uma orgia consumista hoje cedo.
Selena: — Orgia consumista!
EU: — Vou falar com o Andrej, se você quer saber. Isso! Vou pedir para ele evitar encontros entre nós dois. Senão, vai ser insuportável ficar aqui, entende?
Selena: — Puxa...
EU: — Já não está muito fácil, embora eu esteja recebendo mimos e paparicos de todos aqui na casa. Mas meu pai mal tem tempo para mim e a gente quase não se vê, exceto na hora do jantar, que é sagrada. Mas eu não o culpo, porque sei que a rotina dele é complicada.
Selena: — Demi...
EU: — Está resolvido! Nada de contato com o mauricinho gostosão do Joseph.
Selena: — Mauricinho gostosão?
EU: — Nem se ele aparecer sem camiseta, exibindo aquela tatuagem sex... digo, brega. De agora em diante vou ignorá-lo solenemente. Nada vai me fazer mudar de ideia. E então? O que você acha?
Selena: — ...
EU: — Ei, você está aí?
Selena: — Ah! Agora você percebeu, né? Não notou que eu não consegui formular uma única frase desde que você me ligou? Demi, está tão nervosa que ficou falando sozinha, de um jeito totalmente alucinado. Parece que o mauricinhogostosão-com-tatuagem-sex-digo-brega mexeu mesmo com seus nervos.
EU: — Desculpa, Selena. Mil vezes desculpa. Realmente não estou nos meus melhores dias, tudo por causa desse, desse... Aaaai! Nem consigo dizer o nome dele sem ficar brava! E era para eu estar no céu, já que comprei quase o shopping inteiro hoje.
Selena: — Ah, tá! A tal orgia consumista.
EU: — Isso. Quero dizer, mais ou menos.
Selena: — Mas o que deu em você? Comprando feito louca, se zangando com um desconhecido...
EU: — Duas coisas: um pai muito rico e generoso, mais um enteado arrogante.
Selena (rindo): — Segura sua onda aí. Seja proativa, reverta o jogo a seu favor.
EU: — Acho que você está lendo Roberto Shinyashiki demais.
Selena: — Não é nada disso. Só acho que, se um cara gostoso está dando sopa aí na sua frente, aproveita a situação, sua boba.
EU (indignada): — Alo-ô. Esqueceu do Nick?
Selena (não muito natural): — Ah, é, mas deixa ele pra lá por enquanto...
EU: — Do que você está falando? E quem disse que eu quero aproveitar qualquer coisa que se refira ao Joe? Não estou te entendendo.
Selena: — Não é nada, Demi. Bobagem. Mas vê se manda uma foto do mauricinho-gostosão para que eu mesma possa avaliar a situação
EU: — Nem morta!

Saí do quarto e fui direto atrás de meu pai. Estava resolvida a dar um basta naquela situação com o enteado dele. Se o cara estava cismado comigo, provavelmente era porque tinha intenções duvidosas. Cheguei até a pensar que o golpista poderia, na verdade, ser ele mesmo. Quem me garantiria que o queridíssimo Joseph não estava de olho na fortuna de Andrej? Afinal de contas, ele era filho da falecida rainha e devia acreditar que era o único a ter direito à herança.
Agora, eu entendia tudo.
Só que eu não estava nem aí para ele e me lixava para suas cismas. Queria apenas distância para que eu pudesse curtir meus meses na Krósvia sem estresse.
Até porque havia uma pequena luz vermelha piscando dentro de minha cabeça, como se fosse um sinal de alerta, querendo me dizer alguma coisa que eu não estava conseguindo perceber. Assim como meu sonho — aquele do vestido amarelo —, que preenchera boa parte da minha vida sem fazer muito sentido, agora havia essa luz. No fundo, eu devo ser meio esquisita mesmo. Mas não queria me concentrar nisso agora. Não mesmo.
Achei meu pai em seu escritório, uma sala aconchegante, com uma grande mesa no meio e todo aparato necessário para ele se manter conectado ao mundo, mesmo estando em casa.
Percebi que ser rei é muito mais do que representar um país com roupas de príncipes de contos de fadas. Andrej trabalhava o tempo inteiro, no castelo ou em qualquer lugar do planeta. Nunca desligava seus três telefones particulares, jamais saía sem seus assessores e vivia rodeado de políticos, que tinham uma ligação verdadeira com a Krósvia. Estavam sempre planejando coisas e tomando decisões importantes. Parecia até que eu estava no meio de um filme americano, daqueles que mostram o presidente deles — sempre muito altruísta — e sua filha em busca de liberdade. A única diferença era a ausência da esposa forte e compreensiva.
Mas dava orgulho constatar que o líder de uma nação dedicava sua vida a ela, de coração mesmo, e se doava à população de corpo e alma, procurando o melhor para todos. Por sinal, esse cara generoso era meu pai.
Encontrei-o recostado na lateral da mesa, de braços cruzados no peito, ouvindo os argumentos de uma outra pessoa. Ele parecia bastante concentrado e satisfeito, já que exibia um ligeiro sorriso.
Estava prestes a interromper fosse lá quem fosse quando escutei a já familiar voz expondo com veemência seu ponto de vista. Obriguei-me a ficar onde estava, bem imóvel para que eles não notassem minha presença. Sei que escutar a conversa dos outros é muito feio, mas não resisti à tentação assim que ouvi:
— Andrej, sei que a Irina tem feito tudo o que pode para ambientar a Demi, mas tem muito mais para ela conhecer e aprender, e eu posso ajudar. Estou mesmo precisando tirar uns dias de folga do escritório.
Como é que é?
— Acho que seria uma boa, Joe — Andrej concordou. — Não estou conseguindo parar o trabalho para ficar com minha filha. Ela tem sido muito compreensiva, mas não deve estar sendo fácil.
Está, sim. Facílimo.
— Então — Joseph prosseguiu —, deixe a Irina cuidar dos preparativos para o evento de apresentação da Demi e eu fico responsável por ela, quero dizer, responsável por sua aculturação. O que acha?
Acho péssimo, horrível, detestável!
— Perfeito. Você é jovem como ela, conhece muita coisa. Vai ser muito bom para ela.
— O que vai ser muito bom para quem? — Resolvi interromper a conversa, já que eu estava a ponto de implodir.
Os dois olharam para mim na mesma hora, tentando descobrir de onde eu tinha saído. Fixei o olhar em meu pai, que respondeu, cheio de entusiasmo:
— Demi! Tenho boas notícias. O Joe está se oferecendo para acompanhar você nos passeios pela cidade. Ele quer ajudá-la a se ambientar, a conhecer nossos costumes, quem sabe até a língua?
Involuntariamente, torci o nariz. Andrej interpretou meu gesto de forma errada.
— Ei, não se assuste. O krosvi não é tão difícil assim.
— Não vai ser ótimo, Demi? Quero levar você aos lugares mais incríveis, inclusive fora de Perla. — Joe era só sorrisos. Se eu não soubesse, acharia que ele era a personificação da ingenuidade.
— Olha só, Andrej. A Irina tem sido maravilhosa e nessas duas semanas eu conheci muita coisa. Não gostaria de incomodar o Joe. Se for para deixar a Irina cuidar do trabalho dela, posso ficar por minha conta.
Tentei dizer tudo isso num tom tranquilo, procurando não demonstrar minha ira e contrariedade. Se eu tivesse uma foice, acho que a atiraria na cara daquele enteado metido a espertinho.
Meu pai caminhou até onde eu estava e passou um braço em volta de meus ombros. Então ele disse, como se estivesse se dirigindo a uma garotinha de fitinha rosa nos cabelos:
— Filha, tudo bem. O Joe não se importa. E ele terá mais tempo para ficar com você. Está passando da hora de fazermos sua apresentação ao país e a Irina estará cem por cento envolvida nos preparativos. Faz mais sentido deixar o Joe fazer as honras da casa, já que eu não posso, infelizmente.
— É claro — concordou Joseph, entusiasmado como um cachorrinho solto. — Além do mais, as pessoas podem começar a desconfiar da sua relação com o Andrej. E se elas começarem a invadir seu espaço, bom, acho que a Irina não vai conseguir ser muito persuasiva.
Como eu recusaria a oferta dele sem demonstrar minha antipatia? Já que não queria chatear Andrej, só me restou concordar com aquela proposta indecente, sabendo que isso não ia prestar.
Mas deixar meu pai contente foi o que realmente contou para minha decisão. Ele merecia tudo de mim.
Seu celular tocou enquanto ainda estava abraçado comigo. Por isso, ele se afastou cedo demais, deixando-me desconfortável com Joseph. Eu deveria ter me mandado dali o mais rápido possível. Porém, antes que eu me desse conta, ele segurou meu braço e me tirou do escritório do rei.
No corredor, Joseph aproximou o rosto de meu ouvido, sem me soltar, e sussurrou com uma voz deliberadamente sedutora.
— Esteja pronta amanhã bem cedo.
Minhas pernas instantaneamente ficaram moles. Quem ele pensava que era para fazer isso comigo?
— Venho te pegar às oito. — Então recuou um passo e me olhou dos pés à cabeça, lentamente. — Vista algo confortável. Nem pense em colocar as lingeries novinhas da sua orgia consumista de hoje.
E foi embora, enquanto eu ruminava o fato de ele ter tido acesso àquela informação para lá de privilegiada. Como pôde?

~*~

Desculpem a demora. Estou estudando para o vestibular que é dia 1 de Fevereiro e resolvendo umas coisas pessoais. Tá levando muito mais tempo do que eu gostaria, e isso está me fazendo deixa o blog um pouco de lado... Mas aqui estou eu haha Entrei hoje para ver como estava o blog e vi os comentários *-* Obrigada!!! Essa fic não tem hots como as outras, e aborda um tema bem diferente do que eu geralmente posto aqui, então fiquei insegura se vocês iam ou não gostar. Por isso, espero que sejam sinceras com os comentários, porque se quiserem eu mudo de Fic. Ok? Posso contar com vocês? Ótimo ;) 
See you guys soon ;*