quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Capítulo 6 – Simplesmente Demi

Laika é nome de gente?

Na manhã seguinte, Joe não apareceu. Deixou um recado com Irina, dizendo que não poderia sair comigo naquele dia. Só fiquei um pouquinho brava, não pelo bolo, mas, poxa, tinha acordado cedo para não precisar ser escorraçada da cama outra vez por ele!
De qualquer forma, como já estava de pé, resolvi fazer uma caminhada por conta própria, na beira da praia particular do castelo. Prendi meus cabelos num rabo de cavalo e, depois de tomar café na cozinha mesmo, saí rumo ao sol.
Dei dois passos do lado de fora antes de ser “atacada” por um enorme cão cor de chocolate, que chegou todo assanhado, mexendo o rabo freneticamente. Ele enfiou o focinho na palma da minha mão, exigindo carinho.
Eu já o conhecia. Era Bruce, um dos cachorros do castelo, um labrador sapeca que adorava saltitar pela propriedade, mais parecendo um cabrito. Fuçava o jardim e deixava os empregados loucos. Por isso, quase sempre ficava de castigo, preso no canil.
Acariciei o pelo atrás das orelhas dele e fiz sinal para que me seguisse. Bruce era moleque e partiu na minha frente, chafurdando na areia molhada.
Atrás dele, caminhei fazendo um balanço de minha vida nos últimos tempos. Tanta coisa havia mudado, mas eu me sentia a mesma. Eu tinha um pai que, apesar de ser um doce e querer o melhor para mim, era muito ausente. Por outro lado, a saudade que sentia de minha mãe fortaleceu ainda mais meus laços com ela. Nos falávamos quase todos os dias, por telefone, skype ou qualquer outro meio. Na noite anterior, ficamos cerca de uma hora conectadas. Ela me contou que o buffet estava a mil por hora e que vovó ia participar de uma maratona em volta da Lagoa da Pampulha. Não sei por que isso não me surpreendeu. Minha avó tinha mais energia e disposição do que eu.
Na noite anterior eu falara com Selena. Ficamos trocando mensagens pelo Facebook. Primeiro, escrevemos banalidades, mas depois, quando perguntei por Nick, senti que ela desconversou um pouco. Achei esquisito. Aliás, já fazia um tempinho que uma pulga andava morando atrás de minha orelha. Eram raros os momentos em que Nick me procurava e, quando o fazia, esquivava-se de assuntos mais íntimos. Ficava no oba-oba de velhos amigos, mas jamais falava de nós como um casal.
No início, achei que era uma forma de ele bloquear a saudade. Só que, mesmo não sendo uma expert em relacionamentos, notei que as coisas não eram assim tão claras. Ele parecia estar fugindo. Se isso for verdade, pensei, acho que nunca ficaremos juntos para valer. Se o que espero for maior do que o que o Nick quer, será difícil levar qualquer coisa adiante.
Eu ainda me considerava apaixonada por ele. Quero dizer, talvez. Ou sei lá! Como eu disse, não era exatamente experiente nessas questões de romance e isso contava muito no modo como via as coisas.
Bom, voltando a falar de Selena, gostaria muito que ela viesse para cá. A gente se divertiria horrores. Sugeri isso e ela quase desmaiou — pelo menos, foi o que demonstrou. Combinamos de arranjar a vinda dela para minha cerimônia de apresentação ao povo da Krósvia, mesmo eu não tendo ideia de quando isso aconteceria. Irina dizia que seria em breve, mas ainda não tinha uma data marcada nem nada. Eu queria só ver. Esperava que ninguém me obrigasse a vestir um traje de princesa, todo repolhudo, cafona e tal.
Agora, depois de meia hora de caminhada na areia, eu já estava suando. Então decidi mergulhar no mar, gesto imediatamente copiado por Bruce. A água estava fria, mas nem liguei. Achei a sensação deliciosa e fiquei nadando e furando ondas durante um tempão.
Assim que cansei daquilo, estendi uma saída de praia na areia e deitei sobre ela, tendo o cuidado de não encostar o corpo molhado nos grãos para não virar um filé empanado. Bruce se deitou a meu lado, todo fiel, e nós dois curtimos uma boa manhã na praia, como eu fazia quando era criança e ia para praia com minha mãe, meus avós e tios.
Não demorou muito e meu estômago deu sinal de vida. Que inferno, eu vivia para comer naquele lugar! Tinha mais é que caminhar mesmo.
Corri até a cozinha, farejando o aroma de coisas gostosas. Como previ, Karenina preparava um molho para rechear a torta que serviria no almoço. Cheguei por trás dela e a agarrei pela cintura. Ela deu um pulo, segurando o peito.
— Menina, assim você me mata! Que susto! — exclamou, ofegante, para me dar um sorriso supercarinhoso em seguida.
— Kare, estou com uma fome...
— Senta aí que eu te sirvo. O que quer? Uma saladinha de frutas? Suco?
— O que eu queria mesmo não existe aqui na Krósvia. Chama-se pão de queijo. Conhece?
Ela olhou para o alto, refletindo.
— Pão de queijo? Acho que não. Como é?
De repente, tive uma ideia.
— Kare, eu sei fazer pão de queijo! Aprendi com minha mãe um tempo atrás e me lembro da receita. Posso te ensinar?
— A se-senhorita? — gaguejou. — Mexer na cozinha? Seu pai me mata.
— Ah, deixa disso! Eu sou boa de cozinha. Lá no Brasil, quando estou com fome, quase sempre me viro sozinha. Não faz diferença estar lá ou aqui. E então? Quer ou não quer aprender? Garanto que não vai se arrepender...
— Tem certeza? — Ela ainda estava insegura. — Ai, meu Deus, se seu pai descobre...
— Ele não vai fazer nada. — garanti. — Aliás, ele vai adorar poder comer os pãezinhos depois. Vamos! Me ajude a juntar os ingredientes.
E foi o que Karenina fez. Ainda bem que tínhamos tudo, afinal, a receita do pão de queijo até que é simples. Então, depois de limpar a areia das mãos, comecei a dar a primeira aula de culinária de minha vida — o que jamais imaginei que fosse fazer um dia. E minha aluna não era qualquer uma, não. Era simplesmente a cozinheira-chefe do castelo da família real da Krósvia. Se minha mãe me visse agora...
— O único problema, Kare, é que não temos queijo Minas. Vamos ter que improvisar com este aqui — avisei.
Ela me olhava atenta, encantada por estar aprendendo uma nova receita, que depois poderia ser servida nas mais variadas ocasiões.
— Quando um chefe de Estado vier se reunir aqui com o Andrej, você pode servir pão de queijo, que fica bom com vários acompanhamentos. O ilustre visitante vai te elogiar e até querer levá-la para o país dele. Já pensou?
— Mas isso está totalmente fora de cogitação — Karenina retrucou, com muita veemência. — Meu lugar é aqui. Sempre foi e sempre será.
Sorri. Continuei a lição, esforçando-me muito para não me esquecer de nada.
— O polvilho doce pode ser substituído pela mesma quantidade de polvilho azedo, Kare. Tanto faz usar um como outro — expliquei. — Se quiser congelar a massa, faça bolinhas e congele-as num recipiente aberto para não grudarem. Só depois coloque-as num saquinho. Entendeu? Vamos assar?
Rapidamente o cheiro do pão de queijo invadiu a cozinha. A essa altura, várias ajudantes de Karenina nos rodeavam, aguardando ansiosas o resultado de nosso projeto. Não revelei isso, mas eu também estava na expectativa. Se ficasse ruim, acho que morreria de vergonha.
Enquanto o tempo passava, sentei-me na bancada da pia e fiquei mordiscando uma maçã. Karenina voltou para o molho dela e ambas esperamos num silêncio confortável, só interrompido por uma voz que começava a assaltar com certa regularidade meus pensamentos.
— Que cheiro é esse? Hummmm...
Joseph. Ele nunca aparecia sem fazer uma entrada triunfal. Parecia que ficava esperando o momento certo.
Pulei da bancada e dei as costas para ele. Achei melhor ir checar os pãezinhos em vez de olhar para seu rosto tão rapidamente. Sabe-se lá o que Joe poderia ler em meus olhos.
— Oi, meu filho! Chegou na hora certa — Karenina saudou-o com entusiasmo, indo até ele para dar-lhe um abraço. Não deixei de observar que Joseph retribuiu da mesma maneira. — A Demi acabou de preparar uma receita nova, típica lá do Brasil, sabe? Pão de queijo.
Endireitei o corpo e olhei para ele. Nãoposso afirmar se o que vi foi real ou se minha imaginação hiperativa me levou a enxergar aquilo, mas tenho quase certeza de que os batimentos cardíacos de Joseph passaram por uma ligeira alterada. Não sou paranormal, não leio pensamentos nem tenho pressentimentos, mas parece que a veia do pescoço dele ficou mais alta.
Só isso, e só talvez; não estou afirmando.
Outro detalhe: Joe estava de terno. Era a primeira vez que eu o via em traje social. Como defini-lo? Ora, um verdadeiro príncipe!
Então ele se aproximou devagar e estendeu o braço em minha direção. Ele vai me tocar! Pensei, excitada demais para meu gosto. E foi exatamente isso que Joe fez, mas não para um carinho nem nada. Com o polegar, ele limpou algo que estava sobre meu nariz, bem na ponta.
— Farinha — disse ele, sorrindo com apenas um dos cantos da boca.
Afastei-me depressa, levando automaticamente uma das mãos ao nariz. Roxa de vergonha — e com o coração aos pulos —, agradeci, meio sem jeito, voltando a olhar para o forno. Eu não queria tentar explicar o frio na barriga que senti quando ele encostou aquele dedo em mim.
— O pão de queijo está pronto — anunciei. — Espero que esteja bom.
Karenina me ajudou a retirar o tabuleiro do forno. Pela cara, os pãezinhos só poderiam estar ótimos.
Joseph, posicionado estrategicamente atrás de mim, perguntou:
— Desde quando você sabe cozinhar?
Ainda sem encará-lo, fui retirando os pãezinhos, um a um, e ajeitando-os numa cesta de palha, delicadamente forrada com um pano bordado à mão.
— Para sua informação — respondi —, aprendi com minha mãe, há muito tempo. — Estendi a cesta para Karenina primeiro e depois para Joe. Enquanto os dois provavam o famoso pão de queijo mineiro, continuei tagarelando: — Caso você não tenha percebido, não nasci em berço de ouro e sei me virar sozinha desde pequena. Na minha casa não fico esperando minha mãe me dar tudo de mão beijada, como se eu fosse uma princesa afetada.
Tive vontade de engolir o restante daquela frase absurda. Mas nem Joe nem Karenina prestaram atenção a nada que eu disse. Eles estavam se deleitando com o pão de queijo, comendo um atrás do outro, como se fosse um néctar dos deuses. Fiquei toda orgulhosa.
Fingi que não notei e perguntei, sendo humilde:
— E aí? Ficou aceitável?
Karenina me olhou com os olhos esbugalhados e só soltou um huuuummmm bastante significativo. Joseph grudou o olhar em minha saída de praia meio transparente e disparou uma de suas já famosas pérolas:
— Já vi que você é cheia de surpresas, né?
Não consegui identificar a real intenção daquele comentário, mas, de certa forma, aquilo me animou. Um pouco.
Juntei-me a eles na mesa e procurei manter um clima superficial, como se aquela cena fosse comum no meu dia a dia, se é que se pode chamar de normal estar sentada à mesa da cozinha de um castelo verdadeiro, de frente para um pseudo-príncipe super atraente, comendo pão de queijo.
— Você deu um jeito de se divertir sozinha hoje, pelo visto — observou Joe, voltando a encarar meus trajes sumários. — Tive uns contratempos...
Ele foi interrompido pelo toque de um celular: o dele. Sua expressão adquiriu um tom sério assim que leu o nome no visor do aparelho.
Fiquei doida para saber quem era, mas fingi não ter prestado atenção. Porém, para minha decepção, toda a conversa ocorreu em krosvi e a única palavra que consegui identificar mais ou menos foi “Laika”. Ele poderia estar falando sobre um cachorro, uma marca de carro, um tipo famoso de balas — se bem que essas se chamam Lalka — ou sobre qualquer outro assunto. A meus ouvidos analfabetos na língua daquele país, nada daquilo fazia o menor sentido.
Sem parar de falar, Joseph se levantou e começou a andar pela cozinha, indo para lá e para cá de forma inconsciente. Karenina se aproximou de mim e cochichou:
— Aposto que é a Laika.
Hein?
— Quem é a Laika? A cadelinha dele? — Não consegui deixar de ser irônica.
Sem perceber o tom, Karenina riu.
— Não, Demi. É a namorada do Joe.

Primeiro: Laika, no meu país, é nome de cachorro, sim. Minha prima já teve uma poodle com esse nome.
Segundo: namorada? Como eu não ficara sabendo, depois de todo esse tempo? Não que eu tivesse direito a algum tipo de explicação e tal, mas esse é o tipo de informação que não se deixa de fora. Não é?
Bom, está certo que eu nunca perguntei — nem jamais perguntaria, que isso fique bem claro— e o assunto nunca surgiu de fato. Seria meio esquisito se Joseph tivesse dito: “Olha, aquela é a Caverna do Pirata. Ah! E eu tenho namorada”. Ou: “Você se parece muito com o Andrej. Nem precisa fazer exame de DNA. E, a propósito, eu tenho namorada”.
Mesmo assim, eu já deveria saber disso. Não é por nada, mas pelo menos eu teria um fortíssimo motivo para parar de colocar na mesma frase os nomes Joseph e Victoria’s Secret. Se pelo menos Nick assumisse mais seu papel de quase namorado, eu pararia de imaginar coisas com outros caras...
Ah, pelo amor de Deus! Quem eu estava querendo enganar? Outros caras nada. Joseph. Só ele. Quem mandou ser tãããão... sexy.
Mas agora já era. Eu não me permitiria nem mais um pensamento censurável. Nunca mais olharia para aquela tatuagem impressa naquele tríceps modelado. Nem sequer andaria na garupa da BMW sei lá das quantas. Ou melhor, poderia até andar, mas seguraria na própria moto. Nada de agarrar a cintura cheia de músculos de Joseph.
Ainda bem que sou uma pessoa lúcida, madura e sei lidar muito bem com esse tipo de situação. De qualquer forma, assumo que senti um prazer gigante quando Karenina contou que a tal Laika era uma patricinha e que ninguém ia muito com a cara dela. Quando ela disse ninguém, referiu-se, na verdade, a ela mesma, Irina e os outros empregados do castelo. Porque aparentemente a moça era bem esnobe.
Segundo Irina, Laika era filha de um antigo adversário político de meu pai. Agora, o cara era senador e tinha muita influência no Congresso. Ela fizera faculdade de Administração na Inglaterra e trabalhava na empresa da família: uma fábrica de peças de avião. Moça poderosa!
Joseph e Laika estavam juntos havia dois anos, de acordo com a boca miúda de Karenina, e a garota estava doida para enfiar uma argola dourada no dedo anelar da mão esquerda. Mas Joe ainda não se decidira, embora o tal senador estivesse fazendo uma certa pressão, do tipo “ou casa ou cai fora”.
Eu teria caído fora, sem dúvida. Mas essa é só minha opinião.
Assim que Joe desligou o telefone, olhou para mim meio sem graça e deu uma desculpa qualquer para sair às pressas, não antes de confirmar uma nova excursão no dia seguinte. Eu deveria ter recusado, devido à reviravolta no contexto, mas fiquei bem quietinha e concordei com a cabeça.
Com a deixa, fugi da cozinha, pronta para me enfiar no chuveiro e tirar a mistura de sal e areia do corpo. No entanto, fui obrigada a adiar meu compromisso com a sessão de limpeza corporal, pois trombei com Irina nas escadarias e ela acabou me puxando para uma conversa em seu escritório.
— Está vendo esta papelada aqui? — indagou, segurando um bolo de papéis e sacudindo-os na minha frente. — Está tudo planejado, Demi.
— Planejado? — Não consegui captar seu raciocínio.
— Sim. Sua apresentação à população da Krósvia como filha do rei Andrej Markov! — anunciou, como se estivesse fazendo uma tremenda revelação. — Tudo resolvido. Ah, seu pai vai ficar tão feliz! Finalmente ele vai poder contar ao mundo que tem uma filha e mostrar a todos como você é linda e adorável.
Sorri, meio sem jeito. Irina podia ser como um canarinho amarelo saltitando sobre o alpiste, mas era também uma pessoa incrível.
Então, lembrei-me de algo que vinha me perturbando ocasionalmente:
— Andrej tem uma irmã e sobrinhos. Por que ainda não os conheci? Eles não sabem de nada também?
— Não. Seu pai quer contar pessoalmente e não teve tempo para fazer isso. Mas vai fazer antes da apresentação oficial. Parece que na semana que vem.
Assenti. Como seriam essas pessoas? Meus parentes de sangue, mas sujeitos completamente estranhos e sem significado para mim. Será que me aceitariam? Que me entenderiam?
— E quando vai ser o evento? — quis saber. — Demora?
— Daqui a 20 dias, se seu pai confirmar a data para mim.
De repente, tive uma ideia brilhante:
— Irina, será que posso convidar minha mãe e meus avós? E também minha amiga Selena? Seria tão maravilhoso poder contar com eles aqui nesse dia! Minha avó ficaria maluca, tenho certeza.
— Claro que pode. Eu já estava contando com isso e seu pai faz questão que eles fiquem aqui no castelo.
— Ele disso isso para você?
— Sim. E não comentamos nada porque queríamos fazer uma surpresa.
Dei a Irina meu sorriso mais genuíno, além de um abraço apertado. Se todos topassem, tudo ficaria mais que perfeito.
Ainda com a história da namorada Laika na cabeça, aproveitei a presença de Irina para fazer mais perguntas, de uma forma bem sutil, é claro. Afastei-me da secretária de meu pai e fingi estar compenetrada na paisagem do lado de fora da janela. Então, mandei:
— A Laika ainda não apareceu desde que cheguei — comentei com uma inocência tão fingida quanto o amor dos políticos brasileiros pelas criancinhas pobres. — Ela não costuma vir aqui com o Joe?
Sem tirar os olhos de sua papelada, Irina respondeu, muito pouco interessada no assunto:
— Quase nunca.
— Por quê? Ela trabalha muito? — Precisei aumentar meu poder de persuasão. Não sei por quê, mas eu estava empenhada em saber tudo sobre o namoro até então desconhecido de Joseph com a Nome de Cachorro.
Irina suspirou e foi a primeira vez que demonstrou uma ligeira irritação na voz.
— Sim, ela é ocupada demais e não gosta muito do clima bucólico do castelo.
Entendi. Melhor mudar de assunto. Laika não era o tema preferido de Irina para uma conversa amistosa. Despedi-me dela, mais uma vez agradecendo pelo carinho que tivera comigo.

*

Os dias seguintes foram bastante agitados e diferentes. Caí numa rotina com Joseph, mas uma rotina boa. Não tomei mais nenhum bolo dele, que me levava para conhecer os lugares mais legais do mundo. Eu levantava cedo, tomava café na cozinha e às nove horas já estávamos de saída.
Admito que uns dias eram melhores do que outros. Algumas vezes, Joe chegava para me pegar com um humor tão obscuro que era melhor ficar na minha, deixando a poeira se assentar sozinha. E, quando eu menos esperava, estava ele todo alegre, falando besteira, deixando o clima leve e agradável.
Ele nunca mencionou o nome da namorada.
Por alguma razão, esse era um assunto que não fazia a menor questão de dividir comigo. Aliás, jamais falávamos sobre nós mesmos, nem de nada profundo. Só amenidades entravam em nosso repertório. Melhor assim. Sem tentações, sem riscos.
Naquela sexta-feira, estávamos tomando sorvete na praça de uma cidadezinha rural ao norte de Perla. Não era a primeira vez que saíamos da capital. Já haviam se tornado comuns os passeios pelo país afora, que não é tão grande assim. Para dar uma ideia da coisa, a Krósvia é do tamanho do Rio Grande do Sul. E tudo dentro de seus limites é lindo, seja na região urbana, seja no campo.
Escolhi um sabor diferente, meio picante. Enquanto degustava meu sorvete, concentrada nas crianças que corriam entre os bancos, Joseph perguntou de repente:
— Você tem namorado?
Engasguei na mesma hora. Dei uma abocanhada tão enorme no sorvete que ele desceu rasgando minha garganta, fazendo minhas narinas arderem e meus olhos se encherem de lágrimas.
— Não — gemi. — Mais ou menos — acabei corrigindo. Minha situação com Nick não havia mudado nada. Aliás, as coisas pareciam cada vez mais frias. Fazíamos pouco contato e, quando acontecia, era estranho, sem química. Selena continuava se esquivando das perguntas sobre ele, o que, na minha concepção, só podia significar que Nick devia estar aprontando no Brasil. Mesmo assim, não consegui responder outra coisa. Em minha cabeça, ainda que não ficássemos juntos quando eu voltasse, tínhamos que resolver tudo pessoalmente.
— Não ou mais ou menos? — repetiu Joseph, olhando mais para seu sorvete do que para mim.
— Mais ou menos. — Definitivamente, eu não estava a fim de falar sobre isso com ele.
Mas Joe insistiu:
— Nada sério, então?
— Isso. Por enquanto.
Ele estreitou o olhar, igualando-o à minha altura, como se estivesse me desafiando a falar mais. Eu não estava com a menor vontade de continuar, mas acabei cedendo, nem sei por quê.
— Eu estava começando um relacionamento quando saí do Brasil. Decidimos manter contato, mas sem chamar de namoro. Não enquanto eu estiver aqui. Entendeu agora? — Minha voz saiu mais ríspida do que eu gostaria.
Joe deu um meio-sorriso, aquele que fazia meu coração dar umas piruetas, de tão sensual que era.
— Eu, no lugar dele, estaria maluco — disse ele, como quem não quer nada, sem saber que aquele simples comentário fez o ritmo de meu coração passar para bateria de escola de samba.
— Será que seu quase--namorado não fica se perguntando quantos caras dão em cima de você todo dia aqui na Krósvia?
Tive que rir. Aquilo não condizia com o que vinha acontecendo. Fora umas olhadas que ganhava de um ou outro cara mais atiradinho, ninguém jamais me paquerara de verdade em solo krosviano. Joseph só podia estar de brincadeira.
— Nada a ver, Joe — foi só o que disse em resposta ao comentário sem noção.
— Nada a ver? Um cara interessado de verdade numa mulher pensa nessa possibilidade o tempo inteiro. Eu ficaria doente se estivesse no lugar dele.
Não entendi direito o que ele quis dizer. Joe ficaria doente se a namorada dele fosse embora para outro país ou se ele fosse Nick? A primeira hipótese me deixava com dor de estômago e a segunda... bom, também.
— Sua namorada não te deixa assim?
Ai, Deus, foi só eu dizer isso que quis engolir tudo de novo. Para todos os efeitos, Joe não sabia que eu sabia sobre Nome de Cachorro.
Ele franziu a testa. Senti que o clima ia azedar.
— Como sabe sobre a Laika?
Eu quis mentir, juro. Inventar uma desculpa qualquer, dizer que joguei verde. Mas a palavra Laika, proferida de forma tão séria por aquela boca linda, me fez ter uma crise de risos. Daquelas bem demoradas, que fazem a gente perder o fôlego e o nariz escorrer.
Joseph ficou me olhando como quem olha para uma garota psicótica.
— Desculpa — disse, enxugando as lágrimas e tentando me recompor.
— O que é tão engraçado?
— Nada.
— E então? Vai dizer como ficou sabendo sobre o meu namoro?
Suspirei. Eu não podia entregar Karenina.
— Bom, eu só fiquei sabendo, nem lembro bem como.
— Sei. Como se ninguém tivesse feito uma fofoca sobre isso, certo?
Fofoca?
— Fofoca? — Eu me fingi de indignada. — Nada disso. Foi só um comentário que escutei, nada de mais. E por que está tão nervosinho? Por acaso namora escondido? Eu, hein! Se namora, assume!
E saí toda enfezadinha, marchando feito um soldado norte-coreano bem treinado. Na verdade, eu estava mesmo era com raiva. Por que Joseph sempre conseguia me tirar do sério?
Mas ele me alcançou logo e segurou meu braço, obrigando-me a ficar de frente para ele.
— Ei, calminha. Não precisa ficar brava. Eu só achei que você não soubesse. Mas tudo bem. Não é segredo.
Fiz que sim com a cabeça. No entanto, eu preferiria que Joe tivesse dito que era tudo mentira. Só não me peça para explicar por quê.
— Vou conhecer uns parentes amanhã. — eu disse. A mudança brusca de assunto foi intencional. — Moram lá em Craiev. Conhece?
Pela expressão de seu rosto, pude ver que ele notou a reviravolta do tema em discussão. Então, me soltou.
— Claro. A tia Marieva, o marido e os filhos. São gente boa, você vai ver.
Uma vez perdido, o clima ameno não se restabeleceu entre nós. Voltamos para casa sem falar muito e, pela primeira, vez agradeci por estar na garupa da moto, cujo barulho não permitia conversas.
Eu já estava praticamente dentro do castelo quando Joe me chamou e disse algo que nunca vou esquecer:
— Eu não queria estragar nossos momentos com um assunto tão complicado.

E aí ele partiu, deixando um rastro de poeira atrás de si e infinitos grilos em minha cabeça.

Capítulo 5 – Simplesmente Demi

O filho da rainha

PAM!
Pulei da cama com o coração disparado. Estava no meio de meu sonho recorrente quando ouvi o barulho. Por um instante, pensei que estivesse em meu velho quarto em Belo Horizonte e a faxineira, com toda a sua delicadeza, estivesse dando uma geral no apartamento.
Mas não era nada disso. Foi só abrir os olhos para dar de cara com uma realidade muito mais assustadora. De pé, diante de mim, Joseph exibia toda a sua gostosura.
Puxei o lençol até o pescoço, desejando cobrir também o rosto. Afinal, experiências anteriores comprovavam que eu não era nada atraente ao acordar.
Quis perguntar o que ele estava fazendo ali, mas Joe foi mais rápido.
— Eu disse que te pegaria às oito. Você não honra seus compromissos?
Encarei-o com os olhos pesados de sono, estupefata. Gente, estava para nascer um sujeito mais autoconfiante e sem noção. Como ele tinha coragem de invadir meu quarto e praticamente me agredir verbalmente? E se eu dormisse pelada ou estivesse toda aconchegada num ursinho de pelúcia? Não que eu tenha um. Quero dizer, tenho, mas não durmo com ele. Não mais.
Puxei meu celular da mesinha de cabeceira e constatei que passava das nove da manhã. Ainda bastante cedo para quem estava de férias.
Joseph saiu andando pelo quarto, puxando as cortinas e abrindo as janelas, como se fosse o dono do pedaço. Quanto a mim, não tinha conseguido recuperar minha voz ainda e só ficava olhando para ele, esperando acordar do que parecia ser um pesadelo.
— Vamos lá! Saia dessa cama! Mexa-se! Vou estar aqui na sacada. Tem cinco minutos.
O pior foi que eu obedeci. Sentindo-me como um soldado acatando as ordens de um general autoritário, corri até o banheiro só para quase desmaiar assim que vi minha imagem no espelho.
SOCORRO! Ajeitei--me como pude e, no closet, coloquei a primeira roupa que vi. Acho que cumpri o tempo que Joe me dera, pois, quando o encontrei na sacada, ele abriu um sorriso desconhecido até então. Parecia verdadeiro.
— Agora, você pode me dizer por que entrou no meu quarto daquele jeito? — questionei, voltando a falar de repente. — No meu país, isso se chama invasão de privacidade.
Ainda sorrindo, porém com um novo tom — mais crítico —, ele retrucou:
— Aqui, chama-se cobrar uma promessa.
— Eu não prometi nada a você — disse, cruzando os braços no peito.
— Não conhece o ditado “quem cala consente”?
Nossos olhares se cruzaram e deixamos que ficassem assim por um momento, como se tivéssemos disputando um jogo: quem desvia primeiro? Claro que perdi.
Apoiei-me na mureta da sacada e deixei a beleza da paisagem acalmar meus nervos. Eu tinha, de meu quarto, a vista mais esplêndida do mundo: o oceano azul, a areia branca e fina, as ondas em seu vaivém ritmado, montanhas ao fundo e pássaros marinhos sobrevoando tudo. Quando eles se cansavam da luta pela conquista de um peixe, pousavam nas rochas que contornavam o lado esquerdo da praia. Magnífico.
Acho que Joseph percebeu meu encantamento, pois também se recostou na mureta, bem a meu lado, mas ficou em silêncio.
— O que é aquilo? — perguntei, apontando para uma pequena ilha a quilômetros da costa.
— É a Ilha de Catarina — respondeu ele, acompanhando a direção de meu dedo indicador.
— Tão pequena...
— Sim. E é justamente por ser pequena, distante, mas ao alcance da vista, que se tornou a Ilha de Catarina.
— Como assim? — Virei-me para Joseph, esperando uma história. Entre tantas qualidades, também sou curiosa. Hehe.
Joe suspirou, concentrando-se. Então, começou:
— Em 1925, o avô do seu pai, Miroslav Markov, casou-se com a filha de um nobre russo, chamada Catarina Sorvinski. Ele já tinha sido proclamado rei da Krósvia e o parlamento estava fazendo a maior pressão para que ele se casasse. Você sabe, naquela época um rei sem rainha não tinha muita credibilidade, e Miroslav não possuía uma imagem muito positiva perante o povo. Ele era muito mulherengo.
Revirei os olhos, como se aquilo fosse uma grande novidade. Junte as palavras HOMEM + PODER e o resultado será LUXÚRIA. Fiquei com vontade de dizer isso em voz alta, mas me contive para não estragar a história.
— Catarina era jovem, rica e linda — Joe continuou. — O que mais Miroslav poderia querer? O pai dela ficou exultante quando seu tataravô pediu a mão de Catarina. Afinal, ele era um imperador. Mas Catarina pouco conhecia Miroslav e não queria se casar, pois não simpatizava com ele.
— Por que não? — indaguei. — O que ela sabia sobre ele?
Joseph respondeu sem tirar os olhos da ilha:
— Sabia tudo. Sabia sobre as amantes e sobre as viagens secretas para a Itália, onde era frequentador de um dos prostíbulos mais famosos da época. E o pai de Catarina também sabia, mas achava esse comportamento normal. Coisa de homem. E, como não cabia às mulheres escolher o marido, Miroslav e Catarina se casaram. Ela tinha acabado de completar 19 anos.
— Coitadinha... — murmurei, de repente sentindo uma empatia enorme com minha antepassada.
— Pois é. E ela sabia que não seria fácil, mas foi pior. Ele não a tratava com carinho e ainda trazia as amantes para o castelo.
Cobri a boca aberta com a mão. Quanta humilhação e submissão!
— E entre quatro paredes, bom... — Joseph parecia tímido agora. — Dizem que Miroslav não era dos mais gentis.
— Meu Deus! Como Catarina aguentou viver assim?
— Bom, ela acabou conhecendo uma pessoa, um homem que a fazia esquecer os sofrimentos.
— Um amante?! — perplexa, olhei outra vez para a ilha.
— Sim. Era um dos empregados do castelo, mas não sei bem o que ele fazia. Os dois se encontravam escondidos e logo começaram a levantar suspeitas. Até que um dia seu bisavô descobriu tudo e acabou com a festa deles, se é que você me entende.
— Como assim?
— Fácil adivinhar, não?
— Ele os matou?! — a frase soou mais como uma afirmação do que como uma pergunta.
Joseph balançou a cabeça.
— Mandou matar, mas só o homem.
— Oh... — Meus olhos se encheram de lágrimas e foi inútil tentar segurá-las. Gotas grossas começaram a descer silenciosas por minhas bochechas.
— Para Catarina, o castigo maior era continuar a viver sem o amado. Com toda a sua maldade, Miroslav mandou construir um chalé na ilha e a levou para lá. Nunca mais Catarina colocou os pés deste lado do mar. Morreu sozinha e infeliz poucos anos depois.
— Anos? Ela ficou presa lá por anos? Meu Deus do céu! Quanta crueldade!
Limpei as lágrimas com as costas das mãos e fiquei de frente para Joe, deixando as palavras daquela história trágica assentarem em meu cérebro. Ele também me olhou e não estava nem um pouco indiferente a tudo. Recontar a história pareceu mexer com seus sentimentos.
— Meu bisavô era um monstro — murmurei. — Como Catarina sobreviveu na ilha?
— Todos os dias, uma empregada ia até lá de barco. Levava comida, livros, contava histórias, falava do filho que ficou para trás e voltava chorando de pena de Catarina. Seu avô, o príncipe Viktor, era pequeno e não entendia o que havia acontecido com a mãe. Quando soube a verdade, já era tarde.
— Nossa! — foi tudo o que consegui pronunciar.
— É isso. E está tudo nos livros de história que as crianças leem na escola. Todo mundo por aqui conhece a tragédia dos Markovs, que foi, de certa forma, compensada mais tarde pela bondade do rei Viktor e do filho dele, seu pai.
Assenti, sem saber ao certo com que concordava. Não conseguia despregar os olhos da ilha. Definitivamente, as pessoas não foram ficando mais maldosas ao longo dos anos. Elas sempre foram.

*

Depois da sessão recordações dolorosas na varanda de meu quarto, tratei de tirar Joseph de lá, pois o clima ficou meio esquisito, como se tivéssemos transposto uma barreira, mas não soubéssemos como lidar com o novo território compartilhado.
Eu praticamente o escorracei porta afora e ele ficou resmungando umas frases ininteligíveis, acho que em krosvi. Acredito que no meio daquele jorro de palavras deva ter saído muito palavrão.
Mas, enfim, fiz o que Joe e meu pai queriam. Segui o filho da rainha, obediente e resignada.
Minha primeira reação ao ver a moto estacionada no pátio foi de desconfiança. Já contei que sou meio medrosa? Pois é. Ficar sentada a dez palmos do chão numa máquina em movimento acelerado não é a imagem da diversão para mim.
Joseph riu e disse que eu não precisava me preocupar, pois a BMW S1000RR não deixava ninguém na mão. Palavras dele. Só que o pior não é deixar alguém na mão, mas sim estatelado no chão.
Com aquele seu jeito delicado como um trator, ele me mandou sentar logo na garupa e nem se deu ao trabalho de me contar aonde íamos. Mas, assim que me encaixei atrás dele e senti a rigidez de seus músculos abdominais, deixei para lá todo o receio de cair. Eu já estava meio abobada pelas insinuações promovidas pela camiseta apertada. Imagine como foi sentir aquele corpo com minhas próprias mãos.
Se Joseph percebeu a situação, preferiu não comentar. Então, voamos do castelo direto para uma estrada de terra que cortava uma campina muito verde, salpicada de flores selvagens.
Embora o capacete me sufocasse um pouco, consegui sentir o perfume da natureza e fiquei absorvendo os aromas, quase em transe. Até que me dei conta de que boa parte dos odores era do próprio Joe. Ele exalava um perfume masculino, cru, com um toque amadeirado.
Dizer que meu coração perdeu umas duas batidas seria mentir descaradamente. Ele deixou de bater por uns cinco segundos mesmo. E depois, quando voltou, espalhou uma onda de eletricidade por todo o meu corpo.
Eu devo estar muito carente, pensei, bem a perigo mesmo, para ter uma reação dessas. Afinal, eu nem gostava de Joe. Não tinha a menor simpatia por ele.
Ainda bem que minha atenção foi desviada para algo muito mais seguro: a praia paradisíaca. A paisagem surgiu de repente, fazendo-me ofegar de surpresa. Aquele lugar não poderia ser real.
Joseph parou a moto e eu pulei na areia, completamente arrebatada pela beleza do lugar. Arranquei o capacete e inspirei o ar marinho, tão raro para mim. Livrei-me também de minhas Havaianas, chutando-as de qualquer jeito, e afundei os pés na fofura daquela areia branca. Que sensação maravilhosa!
— Este lugar é lindo! — suspirei.
Joseph pegou minha mão e me puxou consigo, enquanto dizia:
— Você ainda não viu nada.
Procurei não dar atenção ao encontro de nossas mãos, unidas pelo único propósito de me guiar até onde Joseph pretendia me levar. Mas que aquele contato inesperado mexeu com meus nervos, ah, mexeu. Afinal, sou mulher, sou humana e tenho hormônios. Ninguém em meu lugar ficaria indiferente a alguém como o Joseph. Ele podia ser o cara mais irritante do mundo, mas ainda assim sabia ser gostoso.
Enquanto me puxava, reparei no movimento de suas pernas e até um pouquinho mais acima, bem no... Bom, melhor não dizer nada. Porque chega a ser falta de educação aquilo tudo numa pessoa só.
Sem falar na tatuagem, que estava me deixando louca. Apesar de não ter coragem de fazer uma em mim, sempre achei homens tatuados um charme, quero dizer, contanto que não fosse nada exagerado, tipo o braço todo ou as costas inteiras.
O próprio Nick tinha uma bem na panturrilha esquerda, mas eu não sabia bem qual era o desenho, pois não costumava vê-lo muito de bermuda — o que era uma pena, já que ele também tinha um corpo bonito. Pensando bem, comparado com o de Joe, o corpo de Nick não era tão maravilhoso assim. Como será que Joe conseguia manter a forma? Devia viver na academia, só podia.
— Chegamos!
A voz de Joseph me tirou daquele transe perigoso e só então eu constatei que tínhamos caminhado por um bom pedaço da praia e estávamos sobre rochas, bem acima do mar.
— Quero que você conheça a Caverna do Pirata — exclamou ele, com um sorriso genuíno nos lábios.
— Caverna do Pirata?
— É. Vai me dizer que nunca ouviu falar da lenda do Capitão Barba Longa?
Neguei com a cabeça, prevendo outra história daquelas. Joseph fez cara de mistério e, conforme caminhávamos até uma gruta escondida entre as rochas, contou:
— Há muito tempo, mais ou menos uns 500 anos atrás, o Capitão Barba Longa era o rei dos sete mares. Tinha um navio enorme, cheio de alçapões, onde costumava esconder os tesouros que roubava de imperadores e nobres. Também era conhecido como o pirata mais destemido de todos os tempos, pois saqueava os navios dos rivais e sempre levava a melhor. Ninguém tinha coragem de enfrentá-lo, pois bastava uma provocação e ele apontava seus canhões para seus inimigos. Barba Longa já possuía muitas riquezas, mas não havia quem o fizesse largar aquela vida. Ele queria sempre mais e mais. Até que um dia apareceu um pirata à sua altura: o Capitão Caolho.
Nesse ponto da história, comecei a rir. Joe havia alterado o timbre da voz, que soou muito engraçado.
— Qual é a graça? — questionou, de testa franzida.
— Nenhuma. Continue.
— Então. O Capitão Caolho era mais jovem do que Barba Longa e queria muito roubar seus tesouros. Sendo assim, travaram uma batalha sem fim. Ora um vencia, ora o outro. E Barba Longa foi vendo muitas de suas relíquias serem levadas pelo rival.
— O Capitão Caolho invadia o navio de Barba Longa para saquear? — perguntei.
Joseph me encarou, mas os olhos enxergaram além de mim.
— Sim. Mas nunca conseguiu levar tudo, pois havia muitos tesouros. Então, Barba Longa montou uma estratégia. Em vez de levar os tesouros roubados para seu navio, começou a escondê-los em praias desertas. Por onde ia, deixava algo para trás. Depois, voltava ao local e levava o tesouro consigo, quando fosse seguro. O Capitão Caolho chegou a pensar que Barba Longa já tinha perdido tudo e parou de persegui-lo. Mas, como em toda história de pirata, havia um traidor entre os tripulantes do navio de Barba Longa. Esse cara, que se chamava Bad Shark, contou ao Capitão Caolho todo o plano bolado por seu capitão.
— Mas como Bad Shark fez isso? — interrompi. — Onde ele se encontrou com o Capitão Caolho? E qual foi a intenção dele ao fazer isso?
Eu estava adorando a história e, de repente, senti-me totalmente envolvida. Joseph riu.
— Sei lá! Só sei que o Capitão Caolho ficou puto da vida. Queria porque queria conquistar mais riquezas. Para isso, precisava ser mais esperto e chegar ao lugar onde os tesouros estavam escondidos antes que Barba Longa voltasse para pegá-los. Com a ajuda do traidor Bad Shark, conseguiu ter sucesso muitas vezes. No entanto, Barba Longa, que não era bobo, desconfiou que havia algo errado e, ameaçando jogar todos os seus homens ao mar, conseguiu descobrir que Bad Shark estava servindo a Deus e ao diabo ao mesmo tempo.
— Você quer dizer a dois diabos, né? — emendei.
— É verdade — Joe concordou e mais uma vez segurou minha mão para me ajudar a subir um pouco mais. — Então, antes de fazer Bad Shark andar na prancha e cair na boca dos tubarões, Barba Longa o obrigou a indicar locais falsos para o Capitão Caolho. Ao perceber que havia sido enganado, Caolho passou a dedicar cada dia de sua vida a tentativas de matar Barba Longa. Até que, um dia, ele conseguiu.
— O quê? Ele matou Barba Longa? Assim, sem mais nem menos? — fiquei indignada. — Logo agora que eu estava torcendo pelo corsário veterano...
— É — Joe sorriu, parando de caminhar. — Por isso, muitos tesouros ficaram perdidos para sempre, escondidos em praias desertas de todo o mundo. E uma delas fica bem aqui, em Perla, mais precisamente ali, na Caverna do Pirata.
Segui o olhar de Joseph até me deparar com a entrada da gruta. Fiquei imaginando se tudo não passava de uma lenda boba ou se a história era realmente verdadeira.
— Essa foi boa! — disse, exalando o ar de uma só vez. — Você quase me pegou.
— Ah, é? E o que me diz... disso?
Joseph tirou de dentro da mochila uma moeda de ouro, muito antiga mesmo. Estendeu-a para mim.
— Achei-a durante um mergulho no lago da gruta, há alguns anos.
Fiquei muda, perplexa.
— Se não acredita, pergunte a outros mergulhadores. Melhor ainda: pergunte a qualquer morador daqui. Todo mundo vai confirmar a história.
— Está certo — disse, por fim. — Você está me saindo um exímio contador de histórias.
— E você é muito impressionável.
Sem dizer mais nada, entramos finalmente na gruta, ou melhor, na Caverna do Pirata. E minha perplexidade só aumentou. Como o interior de uma rocha poderia ser ainda mais belo do que a praia de onde viéramos? Havia um lago transparente e as frestas entre as pedras faziam a luz do sol penetrar e ser refletida pela água cristalina.
E depois de toda aquela história de pirata, verdadeira ou não, a aura ali dentro parecia mágica. Cheguei a ouvir as vozes do Capitão Barba Longa e de sua tripulação. Meu corpo se arrepiou todo.
— Lindo... — murmurei.
— Não é? — disse Joe, quebrando meu encantamento. — Esta gruta é um dos meus refúgios secretos. É para cá que corro quando as coisas não estão muito boas. É tão calma, solitária...
Gente, esse cara era o mesmo que tinha me arrastado outro dia da biblioteca e dito um monte de idiotices na minha cara no dia anterior? Porque não parecia. Não quando ele dizia aquelas coisas, não falando exatamente comigo, mas mais consigo mesmo.
— Entendo.
— Jura? — De repente, seu tom voltou a ser ácido. — Pois parece que você mergulha suas frustrações numa boa ida ao shopping.
Aquilo soou como um tapa na cara. Depois de ser praticamente sequestrada e arrancada da cama, sem falar da viagem na garupa de uma moto a jato, ouvir uma história em tom de brincadeira e ser apresentada a uma paisagem de tirar o fôlego, eu esperava que as defesas de Joe contra mim tivessem desaparecido. Concluí que ele deveria ser bipolar. Só podia!
Afastei-me um pouco, procurando me concentrar nos detalhes da gruta, por exemplo, no arco-íris que se formava sobre o lago e no brilho das pequenas pedras em torno dele.
— Desculpe — Joe disse momentos depois, e eu o vi passar uma mão freneticamente nos cabelos castanho-claros. Quando interrompeu o gesto, uma mecha caiu sobre um dos olhos e ele retirou-a instintivamente. — Me expressei mal. Não quero implicar com você, pelo menos não agora, não aqui.
Pisquei.
— Mas quer fazer isso depois. Posso saber por quê?
— Hummm... Digamos que tenho meus motivos.
— Baseados em conceitos pré-concebidos, imagino.
Nossos olhares ficaram duelando e, pela primeira vez, notei um brilho diferente em seus olhos verdes.
— A gente precisa voltar — disse ele. — Se quiser, depois posso trazer você para mergulhar.
Bipolar. Com certeza.
— Vamos ver — respondi, passando por ele e saindo da Caverna do Pirata, sem olhar para trás nem uma vez.
Voltamos para o castelo no meio da tarde. Eu estava exausta, suada e até meio molhada. Joseph me deixou na entrada e foi embora, montado em sua moto de rebelde sem causa. Nisso ele me surpreendeu. Imaginava que tivesse um daqueles carros esportes, conversíveis e potentes. Não que a moto não fosse veloz — e garanto que era —, mas pensei que um mauricinho como ele ficaria bem longe de uma máquina daquelas, para não estragar o penteado. Bom, mas me enganei. O cara adorava emoções fortes e era bem chegado em esportes radicais.

Sentindo um nojo tremendo de minhas roupas e de meu corpo melado de sal e areia, corri para debaixo do chuveiro e deixei que a água lavasse os vestígios de nossa aventura — a primeira da minha vida, até onde me recordo. Tinha a intenção de falar com minha mãe e talvez com Selena, mas deixaria isso para mais tarde, assim que me sentisse mais revigorada.

~*~

Não queria ter demorado tanto para postar, porém, os últimos dias foram bem estressantes para mim. :/ E pra completar, eu não sei como vai ficar o blog esse ano. Minhas aulas começam agora dia 12, e talvez eu faça curso de Design de interiores além da faculdade de Arquitetura. E ainda tenho que arranjar tempo pra ler, porque, bom, livros são a minha vida, sabe? Talvez, eu me esforce e poste aqui todo final de semana. Mas vou ver tudo isso quando chegar a hora. Por enquanto, vou postar 2 capítulos hoje e mais 2 amanhã, ok? 
Obrigada pelo comentários, a propósito <333 
Espero que continuem gostando da historia e não abandonem o blog, caso eu não poste com "frequência". Mais uma vez, obrigada por comentarem!

Beijos na testa, 
Yumi.

Ps: Vi só agora que estou com 101 seguidores lindos <33 *-* Quando comecei o blog, nunca pensei que eu chegaria nem aos 50 seguidores, quem dirá aos 100. Agora fiquei animada hahaha Obrigada por me seguirem, seus lindos ;D Vocês vão todos para o céu. <3