domingo, 6 de julho de 2014

Capítulo 17 – Simplesmente Demi - MARATONA

O recado de Catarina

De: Selena Gomez
Para: Demetria Lovato
Assunto: Preciso falar com você.

Demi, liga para mim!
Estou desesperada querendo falar com você, mas não atende minhas ligações nem responde minhas mensagens desde sábado. O que está havendo aí? Sei que não deve ser coisa boa, se não, não teria sumido desse jeito.
Sua mãe também anda preocupada. O que aconteceu, amiga? Tem a ver com os paparazzi de novo? Se for isso, desencana. São todos um bando de sanguessugas.
Conversa comigo, vai?

Beijos...
Selena

Fiquei três dias inteiros trancada no quarto.
Para todos os efeitos, eu tinha pegado uma virose que me derrubara. Por sorte, meu pai viajou para participar de uma conferência na França e me poupou de maiores explicações. Não que eu tenha ficado totalmente imune a questionamentos. Irina e Karenina passavam para me ver umas dez vezes por dia — cada uma —, indignadas com meu desânimo e minha falta de apetite.
Pois é. Perdi a fome também. Fato inédito em minha vida. Mas como conseguiria engolir se um bolo compacto e resistente havia se formado em minha garganta e não dava sinais de que desapareceria?
Vejam só o que uma paixão não correspondida faz com a gente. Nunca pensei que fosse sofrer por amor, como as heroínas das histórias de época das quais eu tanto gostava. Mas lá estava eu: entrevada na cama, sem motivação até para receber as meninas do Lar Irmã Celeste. Entretanto, como não desejava chamar atenção para o fato de ter sido meio que rejeitada por Joe — sim, porque ele não me procurara mais depois daquele dia —, inventei a tal virose e tinha que ficar dando uns espirros mentirosos sempre que alguém aparecia para me ver.
Também decidi desligar o celular, de modo que não caísse na tentação de desabafar com quem me ligasse, ou seja, com Selena, minha mãe ou vovó. Se ouvisse a voz delas, juro que cairia em prantos.
Sendo assim, passei três dias meio catatônica, assistindo a filmes água com açúcar na TV a cabo, o que só potencializou minha depressão, já que, vamos combinar, ver casais tendo seus finais felizes, mesmo que na ficção, não era exatamente uma injeção de ânimo. Em 72 horas, revi cenas e mais cenas de beijos calientes, chorei baldes de lágrimas revendo Titanic e Um Amor para Recordar, entreguei-me mesmo a uma autoflagelação. Minha mãe sempre diz que, às vezes, não faz mal ter pena de nós mesmos. Então, eu tive.
Mas também me deixei levar de volta ao show de Bon Jovi e repassei meu momento com Joseph milhares de vezes em minha cabeça. Nem na milésima primeira vez deixei de me arrepiar ao lembrar o beijo e a sensação que ele provocara em meu corpo. Ah, se eu pudesse voltar atrás e repetir a dose, só que em câmera lenta para durar mais. Porém, de nada adiantava sonhar, pois não havia a menor possibilidade de tudo aquilo voltar a acontecer.
Por isso, na manhã do quarto dia, me levantei da cama decidida a me entregar ao clichê de sacudir a poeira e dar a volta por cima. Ou eu vencia essa fase difícil ou teria que arrumar as malas e partir de volta ao Brasil o mais rápido possível. Só não dava para continuar entregue à apatia.
Minha primeira providência foi tomar um banho relaxante de banheira, com direito a sais e muita espuma. Fiquei perdida em pensamentos até a água esfriar. Depois, vesti uma roupa quente e confortável e me sentei na frente do computador, resolvida a escrever uma resposta para a mensagem desesperada de Selena. Estava disposta a me abrir de vez com minha melhor amiga. Quem sabe aquele bolo desaparecesse de minha garganta?

De: Demetria Lovato
Para: Selena Gomez
Assunto: Olá!

Amiga,
Antes de começar, gostaria de lhe pedir desculpas. Não tenho sido uma boa BFFL (Best Friends For Life). Porque melhores amigas não escondem coisas uma da outra e tudo o que tenho feito nos últimos tempos é omitir um fato que você já percebeu, mesmo eu não tendo coragem de admitir. Até hoje.
Pois é. Você estava certa quanto ao fato de eu estar apaixonada pelo Joe.
Aliás, depois que você foi embora, apaixonada passou a ser eufemismo para meus sentimentos. Estou louca por ele, acho que desde sempre, e isso está me matando. Penso nele o tempo todo e mal consigo articular um raciocínio sem envolver o nome dele na história. Eu sei. É doentio. Mas o que posso fazer? Ainda não descobri uma forma de mandar no meu coração.
Meu maior desejo é acordar numa manhã completamente curada dessa paixão. Adoraria exclamar: “Graças a Deus! Passou!” Mas acho que não vai rolar. Está vendo? O negócio é feio mesmo, amiga.
Para piorar tudo, o Joe começou a dar sinais de interesse por mim. Você deve estar aí pensando: Mas isso não é bom? Seria, se a Nome de Cachorro já tivesse caído fora da vida dele. Mas, quer saber? A culpa nem é dela. O maior culpado de tudo é o próprio Joe, que, assim como o Nick, fica ciscando em tudo quanto é terreiro. Não dá.
É isso, Selena. Tenho vivido que nem protagonista de novela mexicana, com direito a bastante drama e lágrimas.
E você? Como está? Já se livrou do Nick? Prometo não desaparecer mais, nem se de repente as coisas piorarem por aqui, o que não é difícil de acontecer.
Obrigada por ser minha grande amiga.

Amo você.
Demi

Não fiquei esperando a resposta de Selena.
Logo que enviei a mensagem, desliguei o computador e saí do quarto. Queria visitar Karenina na cozinha e aproveitar para comer alguma coisa.
Desci as escadas sem encontrar uma alma viva, mas na cozinha me deparei com um princípio de caos. Tanto Karenina quanto as arrumadeiras do castelo enchiam uma cesta com produtos de limpeza, como se estivessem prestes a fazer uma grande faxina no mundo inteiro.
— O que estão fazendo?
— Ah, minha querida, você melhorou! — Karenina se aproximou de mim, analisando-me com olhos de médica pediatra. Ali, eu era a criança dela.
— Sim. Estou bem. Mas para onde estão levando tudo isso? Tem algum evento marcado aqui no castelo?
— Ah, não. É só a limpeza mensal do chalé da Ilha de Catarina. Fazemos isso sempre, para não deixar o lugar deteriorar. Seu pai faz questão.
A Ilha de Catarina. Eu havia me esquecido completamente dela. Mesmo avistando-a da varanda de meu quarto, nunca mais pensara na história trágica de minha bisavó.
— Posso ir com vocês? — perguntei à queima-roupa.
Karenina e as outras mulheres me olharam, espantadas. Será que eu tinha dito alguma bobagem?
— Ir conosco? Mas por quê? Não há muita coisa por lá.
— Estou curiosa e sem nada para fazer. Prometo não atrapalhar, Kare, por favor. Queria tanto saber em que condições minha bisavó Catarina viveu naquele lugar — implorei.
— Será que seu pai não vai achar ruim?
— Ele nem está aqui na Krósvia, Karenina. E não vai reclamar quando souber, garanto. Nem vamos sair dos limites do castelo. Ah, vai. Não custa nada.
Vi que tinha ganhado a batalha quando um sorriso brotou no rosto de Karenina. Ela pediu que eu fosse vestir algo ainda mais quente, porque na ilha fazia muito frio.
— E parece que vai chover — completou, de olho no céu através da vidraça da cozinha.
Voltei para o quarto e me enfiei num jeans justo e num suéter de caxemira. Calcei botas de cano longo e me cobri com um casaco de lã que batia nos joelhos. Para garantir, levei um par de luvas — aquelas de couro que eu comprara meses antes — e um gorro quentinho. Por fim, dependurei um cachecol no pescoço e me senti pronta.
Encontrei Karenina me esperando no pátio dos fundos do castelo. Ela disse que iríamos de lancha e que o trajeto era curto.
— Quem vai pilotar? — indaguei, meio temerosa.
— Alguém bastante acostumado a fazer isso, Demi — ela respondeu, achando graça de meu medo.
As outras mulheres já estavam na lancha quando chegamos. Ficaram meio tímidas com minha presença e não conversaram muito. Eu também preferi só observar, aproveitando a oportunidade para relaxar diante daquele mar azul, apesar de o céu não estar com a melhor das cores.
Realmente, a viagem foi rápida. Nem cheguei a enjoar, o que sempre acontece quando estou em alto-mar. Desci da lancha no pequeno cais de madeira e fiquei pasma com o que vi. Erguido sobre um terreno arenoso, um charmoso e romântico chalé imperava na solidãoda ilha. E engana-se quem pensou numa cabaninha de pau a pique. Era uma construção sólida, não muito grande, mas espaçosa e firme o suficiente para que pessoas vivessem ali uma vida inteira.
Uma coisa era certa: minha bisavó Catarina devia ter vivido seus dias na ilha sempre de olho no continente. Pois janelas não faltavam. Só na frente da casa contei três, e não eram pequenas. E todo o chalé era contornado por uma varanda, de onde se tinha uma vista de tirar o fôlego.
Caminhei devagar até a entrada, imaginando como deveria ser solitário viver num lugar como aquele, mesmo sendo tão bonito. Estremeci ao pensar que à noite a escuridão provavelmente engolia tudo, tornando o ar sinistro como o dos cenários de filmes de terror. Estremeci.
Karenina avisou que ia entrar, mas eu continuei do lado de fora do chalé. Queria absorver tudo antes de ver o que me esperava lá dentro. Andei pela areia procurando sinais do passado, colocando-me no lugar de Catarina. Eu teria enlouquecido em meu primeiro mês ali. Como ela conseguira sobreviver por anos?
Um trovão barulhento me deu o maior susto e entrei correndo pela porta do chalé. Lamentei não ter levado minha máquina fotográfica, pois o que avistei era digno de ser fotografado. Eu fora transportada para dentro de um livro de história.
Que lugar precioso!
Boquiaberta, passei os olhos lentamente pelos móveis e objetos de decoração da sala. Havia de tudo, desde um conjunto de sofás de veludo verde-esmeralda com espaldar de madeira negra até uma estante repleta de bibelôs antigos, raridades, talvez. O piso de madeira exibia lindos tapetes orientais. Só não me perguntem como ainda estavam ali depois de tantos anos. Meu bisavô Miroslav quisera punir sua jovem esposa privando-a de companhia, mas não poupara nada em conforto e ostentação. Mas garanto que ela teria trocado tudo por um casebre de palha se pudesse ter pessoas queridas a seu redor.
De vez em quando, minha atenção voltava para as mulheres que trabalhavam na limpeza dos cômodos do chalé. Mas eu apenas as ouvia. Não apareciam em meu campo de visão.
Continuei examinando os ambientes, ora chocada com a solidão que exalava de cada recanto, ora maravilhada com as relíquias existentes ali. Até a cozinha era peculiar, com seu fogão de ferro fundido e pia de porcelana branca, além da pequena mesa de dois lugares, tão lustrosa que parecia nova.
Corri os dedos na superfície de quase tudo que encontrei, como se meu toque pudesse captar o que Catarina sentira no passado. Posso garantir que tive a nítida impressão de que ela estava me mandando alguma mensagem do além, pois de uma hora para a outra pude perceber que meu sofrimento por Joseph era insignificante perto do que minha ancestral devia ter passado.
O quarto dela se revelou o cômodo mais mágico do chalé. Ao colocar meus pés lá dentro, dei de cara com uma cama de casal com dossel, forrada por uma colcha de renda branca e almofadas de cetim rosa-chá. Duas das paredes eram cobertas por estantes de livros, ainda conservados ali. De lá, eu não escutava mais as mulheres trabalhando na limpeza.
Aposto que Catarina passava horas olhando-se no espelho da penteadeira instalada de frente para a cama e cheia de frascos de perfumes e cosméticos sobre o tampo de mármore. Minha nossa! Tudo parecia estar do jeito que ela deixara. Inacreditável.
De repente, um pensamento me passou pela cabeça. Será que... Puxei depressa as portas do armário e comprovei minha hipótese. Sim. Lá estavam os vestidos de Catarina, um a um, pendurados com esmero e precisão. Minhas mãos voaram até eles, não resistindo ao desejo de sentir a textura daqueles tecidos tão antigos, sobreviventes de uma época trágica.
No meio de todos eles, um em especial me chamou a atenção. Puxei-o do cabide com cuidado para não rasgar, afinal, quantos anos poderia ter?
Tudo me levava a crer que se tratava de um traje de gala. Mas não foi esse detalhe que despertou minha curiosidade. Acontece que o vestido em questão era amarelo-ouro, tomara que caia, idêntico ao que aparecia em meu sonho recorrente. Coloquei-o na frente do corpo e me olhei no espelho. O reflexo era meu eu daquele sonho inexplicável. Eu tremi.
De volta ao armário, preparei-me para recolocar o vestido no lugar e respirei aliviada quando escutei passos atrás de mim. Não me virei para ver quem era, certa de que só poderia ser Karenina. Então, quis saber, sem olhar para trás:
— Por que tudo isso foi mantido aqui durante esses anos todos, Kare? — questionei, ajeitando o vestido no cabide. — É meio sinistro, não acha?
Silêncio.
A vida inteira eu duvidara da existência de fantasmas, mas, naquele instante, com minha adrenalina correndo solta nas veias, cogitei sair correndo e gritando de pavor pelo que poderia estar plantado atrás de mim.
— Totalmente sinistro.
Três coisas aconteceram assim que essa frase foi pronunciada:

1. Meu coração deu um salto mortal dentro do peito.
2. O vestido amarelo-ouro escorregou de minhas mãos e se espalhou pelo chão, bem a meus pés.
3. Eu me virei bruscamente e encontrei um par de olhos verdes transbordando um monte de sentimentos, todos por mim.
Minto. Foram quatro coisas. Também perdi a voz.

— Também me pergunto por que este chalé permanece intacto, principalmente por causa das circunstâncias que motivaram sua construção — Joseph disse, de uma forma tão natural como se estivéssemos batendo um papo informal há horas.
— Mas o Andrej diz que é um tributo à antepassada de vocês.
Tum, tum, tum. Ainda era meu coração, totalmente acelerado.
— Na verdade, penso que a família não quer se desfazer das coisas para não apagar a história.
Ele olhou para o chão e viu o vestido. Aproveitei o desvio de seu olhar para recobrar meu autocontrole.
Respira. Respira. Respira.
— Como você chegou aqui? — Tentei disfarçar meu pânico.
— De lancha, ué. A nado é que não foi. — Um momento sério como aquele e Joseph fazendo piada.
Outro trovão, agora mais alto, rasgou o céu.
Estremeci.
— Onde está Karenina? E as outras mulheres?
— Já foram. — Joe não tentou se aproximar, mas sua voz estava cada vez mais sedutora e os olhos, cheios de malícia. Senti-me tonta. — Avisei que tomaria conta de você e que não se preocupassem. Eu disse para elas que só queria lhe fazer uma surpresa.
Ignorei a segunda parte da resposta de propósito.
— E a lancha? Como vamos voltar?
— Ora, Demi, se vocês vieram em uma e eu em outra, ainda nos resta uma lancha para voltar, né?
— Então, vamos — eu disse com firmeza, abaixando-me para pegar o vestido do chão e pendurá-lo de volta no armário antes que estragasse.
Mas Joe parecia outra pessoa. Ele só moveu a cabeça, refutando minha proposta, e acrescentou:
— Não antes de eu te mostrar a surpresa.
Franzi a testa. Para que universo paralelo eu teria sido enviada? Nada daquilo fazia sentido.
— Venha aqui — ele me chamou.
— Joe, o que está acontecendo?
— Demi, não seja chata. Venha ver o que eu trouxe para você.
Joseph estendeu um braço em minha direção, oferecendo-se para me guiar. Eu até que me mexi, mas ignorei deliberadamente sua oferta. Não faria a besteira de tocá-lo de novo.
Ele suspirou, acho que inconformado com meu gesto, mas não retrucou. Saí do quarto de Catarina e Joe me seguiu. Porém, quando percebi que não sabia para onde deveria ir, parei e cruzei os braços sobre o peito.
— Onde está a tal surpresa?
— Na cozinha.
Dessa vez, ele andou na frente e eu pude curtir a paisagem, quero dizer, pude me deleitar com a visão panorâmica de toda a retaguarda de Joseph. Ele ainda era um veneno para minha sanidade, especialmente vestido daquele jeito: calça jeans azul padrão, camisa preta de botão para fora da caça, jaqueta de couro e as velhas botas de combate que eu tanto amava.
Só eu mesma para viajar na aparência espetacular de Joseph depois dos dias de depressão que passara por causa dele. Prometi que procuraria um psiquiatra para analisar meu caso assim que retornasse a Belo Horizonte. Minha mãe deveria conhecer algum.
— Tcharã!
Como um mágico que acabava de finalizar um truque, Joe abriu os braços e apontou para a enorme cesta sobre a mesa da cozinha. Meu estômago roncou, pois associei a cesta a comida e me lembrei de que não tinha comido nada.
— É nosso piquenique particular. Tem de tudo aqui dentro, afinal, eu sei que você adora comer.
Fiquei vermelha. Então, na cabeça de Joseph eu era uma gulosa. Beleza de imagem.
— Ei, não precisa ficar envergonhada. Foi um elogio — ele esclareceu, aproximando-se um pouco. — Porque você é a única mulher que conheço que come com prazer, sem frescura. Mas, mesmo assim, tem um corpo perfeito.
Mulher? Corpo perfeito? Essas palavras não eram exatamente as que melhor caracterizavam minha pessoa.
Perplexa demais para falar, fiquei encarando a cesta. Outro trovão retumbou e a chuva finalmente começou a cair.
— Demi, por que está tão calada? — Joe parou diante de mim, ficando a apenas um passo de distância.
Sentir seu cheiro — másculo, viril — me fez corar ainda mais.
— Não sei o que veio fazer aqui, Joe — reagi, ainda tonta de surpresa. Que nada! A quem queria enganar? Estava tonta de desejo, isso sim.
— Jura que não? — Ele segurou uma mecha de meu cabelo e prendeu-a atrás de minha orelha.
— Não acredito que seja tão desligada.
— Do que você está falando? — gemi, quase inconsciente de meus movimentos.
— Estou falando de nós. De mim e de você. Do que sentimos um pelo outro. Fui claro agora?
Seus dedos não se desconectaram de mim. Com a mecha presa, Joe deslizou-os pela pele de meu pescoço, tocando-me tão levemente que mal dava para sentir. Ainda assim, era muito bom. Uma agonia, mas uma agonia maravilhosa.
— Nem um pouco — retruquei. — A que sentimentos você está se referindo? Só conheço o que há entre você e a Nome de... digo, a Laika.
Meus reflexos mentais não foram rápidos o suficiente para processar a manobra que Joseph fez. Só sei que resultou nele prensando-me contra a mesa, que, apesar de pequena e antiga, era bem firme.
— Demi, tenho consciência de que errei com você — confessou, com os lábios tão próximos de meu rosto que pude sentir seu hálito de menta. — Mas meu erro não foi beijar você enquanto ainda namorava a Laika. O erro foi fazer você acreditar que eu queria estar com ela e não com você. Também errei por não ter terminado meu namoro antes e explicado a você o que eu sentia, o que eu sinto toda vez que fico perto de você. Mas te beijar, Demi, foi a coisa mais certa que já fiz na vida, pois só comprovou tudo o que eu pensava.
Eu. Não. Acredito. Eu estava mesmo ouvindo uma declaração de Joe?
— O que você pensava? — instiguei-o, ofegante por antever no que aquilo ia dar.
— Que você me deixa louco.
— E a Laika? — sussurrei, incapaz de raciocinar direito. Era muita informação nova para assimilar de repente.
— Desmanchei o namoro com ela na noite do show.
— Mas então por que só agora...
Joseph colocou o indicador sobre meus lábios. Foi bom, mas eu ansiava por outra parte dele colada neles.
— Para fazer do jeito certo. Do jeito que você merece.
Com suas mãos firmes, Joe me sentou sobre a mesa e se posicionou entre minhas pernas. Nossas respirações ofegantes se misturaram numa só, mas não nos beijamos de imediato. Com os rostos mais ou menos na mesma altura, fizemos nossos olhares se encontrarem e deixamos que eles lessem os sentimentos um do outro.
Os polegares de Joseph desenharam círculos em minhas bochechas e, para encerrar aquela tortura, aquele jogo de quem resiste mais, cruzei minhas pernas atrás de seus quadris e puxei-o para mais perto.
— Demi, qualquer dia desses vou perder a cabeça por você.
— Faz meses que não vejo a hora disso acontecer.
Então, nada mais foi dito. Em um segundo, a boca de Joe se prendeu à minha, beijando-me ainda mais profundamente do que da primeira vez.
Recebi-o com prazer, ajeitando-me para ficar ainda mais colada a ele. Com a boca aberta, deixei que ele explorasse todos os cantos dela e aproveitei para explorar a dele também. Nós dois sentíamos a descarga elétrica que passava por nossos corpos e então percebi que queria mais.
Muito mais.
Joe também. Desceu as mãos por meus braços e depois acariciou minhas costas. No entanto, havia um excesso de roupas entre nós. Como se tivesse lido meus pensamentos, Joseph desatou o cinto de meu casaco de lã e enfiou suas mãos dentro dele. Ainda assim, era muito pano. Com um movimento desesperado, arrancou o sobretudo de meu corpo e o jogou de qualquer jeito no chão. Mas ele não ficou lá sozinho, largado no piso antigo. Acabou ganhando a companhia da jaqueta de couro de Joseph, que não sei como também já não estava mais cobrindo seus ombros e braços musculosos.
Os lábios de Joe, de repente, estavam em todas as partes. Eu podia senti-los em meu pescoço, meu queixo, minhas orelhas. E eu só pensava: finalmente!
Alisei o tórax dele e contornei todos aqueles músculos que me tiravam do sério havia meses. Então, Joseph gemeu. E desgrudou a boca de cima da minha só para sussurrar:
— Eu quero você, Demi.
Em vez de me derreter de vez e me entregar por inteiro para ele, coisa que eu queria havia tanto tempo, só consegui pensar no terrível fato de não estar usando uma única peça da coleção de lingeries da Victoria’s Secret que eu comprara especialmente para uma ocasião como aquela. No momento, eu vestia um par descombinado de calcinha e sutiã cor de areia super sem graça.
Mas não foi essa constatação que me fez pular da mesa e sair dos braços de Joe, inspirando loucamente para recuperar o fôlego perdido entre os beijos alucinados. Gente, eu ainda era... Eu nunca... Céus!
— Desculpa, Joe, mas não posso continuar.
— O que foi que eu fiz? — questionou ele, rouco de desejo e frustração.
— Nada. É só que... Eu...
Não consegui confessar. Como contar para ele que era virgem e sem experiência nenhuma? Eu queria me deixar levar. Ah, se queria! Mas parecia tão errado... afinal, não tínhamos um relacionamento nem nada. Sem contar que até há poucas noites Joe dormia enroscado com outra pessoa.
Visivelmente confuso, Joseph me puxou delicadamente e me abraçou, apoiando sua cabeça no topo da minha.
— Eu já sei o que vai dizer — disse. Seus dedos desciam e subiam devagar entre meus cabelos. Um carinho despretensioso, até inocente, que me deixou em sinal de alerta novamente. — E não me importo, Demi. — Joe se afastou e me olhou dentro dos olhos. — Porque tudo o que mais quero agora é ficar com você, não importa como. Eu passei esses últimos meses tentando descobrir o que sentia em relação a você. No início, fiquei implicado com sua chegada.
— Eu bem sei. Percebi sua desconfiança. Aliás, pode confessar, Joe. Você achou que eu era uma golpista.
Ele riu de um jeito gostoso, relaxado, sem culpa.
— É verdade. O Andrej sai da Krósvia viúvo e sem filhos e volta todo sorridente com uma filha debaixo dos braços. Custei a assimilar essa novidade, não por ciúme ou medo de perder meu posto, mas porque a história em si era muito incoerente. Não queria que ele se decepcionasse. Você entende meu lado agora, né?
— Mais ou menos. Joe, você me julgou sem me conhecer. Fiquei bastante ofendida, se quer saber.
Com um sorriso que já não saía do rosto, Joseph me levou até um dos sofás verdes da sala e nos sentamos juntos, aconchegados um no outro.
Lá fora, a tarde virou noite de repente devido à intensidade da chuva que caía. Eu nunca gostei de raios e trovões. Mas naquele momento achei-os maravilhosos. Eram como música para meus ouvidos. Tudo se tornava lindo só pelo fato de eu estar com Joe.
— Mas não demorei a reconhecer que você é especial — ele disse. — Quando me ofereci para ser seu acompanhante nos passeios pelo país, paguei por tudo o que tinha pensado.
Estiquei o corpo e recostei-me no encosto do sofá para olhar para ele. Não me cansava de me perder naqueles olhos verdes.
— Você é divertida — beijou minha testa —, engraçada — meu nariz —, inteligente — meus olhos —, autêntica — meu pescoço —, extremamente sexy — minha orelha — e linda — minha boca.
Ofeguei, voltando a ficar na expectativa.
— Em poucos dias, eu me apaixonei e não conseguia mais parar de pensar em você. Mas a Laika...
Estremeci. A menção ao nome daquela garota era um banho de água fria.
— Não, por favor, não toque no nome daquele ser canino, quero dizer, no nome dela.
Tentei disfarçar meu fora, mas Joe percebeu.
— Ser canino? Como assim?
— Nada...
— Demi...
— Ah! Ok, eu vou falar. Sempre chamei a Laika de Nome de Cachorro, mesmo antes de conhecê-la, porque na minha terra Laika é nome de cachorro mesmo e eu morria de inveja dela, ainda que não tivesse reconhecido meus sentimentos por você.
Joe soltou uma gargalhada forte, exibindo sua arcada dentária perfeita.
— Agora você já reconheceu?
Fiquei tímida. Não queria discutir meus sentimentos com ele. Nem ao menos sabia como começar a falar deles
— Ei, Demi. — Joseph segurou meu queixo e me fez encará-lo. — Chega de negar o óbvio. Ainda não acredito que nunca notou meu interesse por você, mas não quero esconder mais nada. Então, por favor, vamos ser honestos um com o outro? Porque eu não aguento mais me segurar e fingir. Aquele dia, na Caverna do Pirata, eu estava pronto para admitir. Não fosse sua reação, toda fria, juro que teria sido franco, inclusive com o Andrej.
— Minha reação foi o de menos. A Laika, sim, era o maior empecilho — discordei. — Não nasci para ser a outra na vida de ninguém.
— Não é a outra, Demi. E nunca vai ser. É a única para mim. Estou apaixonado, louco e quero você. Quantas vezes vou precisar dizer isso para você acreditar?
Joseph tocou a rosa de diamante que pertencera à mãe dele e agora pendia de meu pescoço. De alguma forma, compreendi a simbologia: estávamos ligados. Então, não tive mais medo e despejei tudo o que sentia:
— Você não faz ideia do que eu tenho passado, Joe. Passo os dias tentando esconder até de mim mesma o tamanho do meu sentimento. Estou totalmente apaixonada por você.
Ele se inclinou e pressionou meu corpo com o dele. Fui tomada por uma necessidade quase animal de pertencer a Joe, então, enlacei seu pescoço e o beijei bem ali, sugando e mordendo-o. Enquanto o deixava ofegante, tive consciência de partes de minha anatomia que nem sabia que existiam. Fui amolecendo feito gelatina fora da geladeira.
— Repete o que disse, Demi — Joseph ordenou, agoniado.
— Estou apaixonada por você — sussurrei, perdida nele.
Novamente, nossas bocas se uniram e eu não pensei em mais nada. Simplesmente me deixei levar pela urgência de senti-lo cada vez mais perto. O desejo de Joe por mim era insano e visível, mas ele se esforçava para se controlar e não avançar o sinal.
Então, percebi que fazê-lo esperar por mim só servia para agradar as convenções ditadas pela sociedade. Eu seria uma boa moça perante os conceitos de moral e bons costumes se me mantivesse “pura” por mais alguns meses. No entanto, estaria indo totalmente contra meus princípios, minha verdade, se refreasse minha vontade naquela noite. E ela berrava no fundo do meu cérebro: seja dele!
— Não quero esperar — assumi.
— Demi, a gente não precisa fazer isso hoje.
— Não diga “não precisa” — retruquei. — Porque o verbo certo é quero. Eu quero você agora.
Para deixar minha decisão bem clara, puxei as mãos de Joe e coloquei-as sob meu suéter. Larguei o resto por conta dele.
Sem hesitar, ele puxou a barra da blusa, mas parou no meio do caminho para confirmar minha decisão. Fechei os olhos com força e levantei os braços, dando a Joseph uma resposta muda, porém taxativa. Eu tinha feito minha escolha. E nada no mundo me faria voltar atrás. Joseph demorara para ser meu, mas agora era. E eu era dele. Não me importaria de passar por tudo aquilo novamente se soubesse que acabaríamos como estávamos: nos braços um do outro.
Delicado, ele me carregou até o quarto de Catarina e me deitou sobre a cama de dossel, que só conhecera tristeza e solidão. Mas lá estávamos nós dois para mudar aquela história. Eu nem ligava mais de não estar com aquelas belas peças da Victoria’s Secret. Haveria outros momentos para exibi-las com orgulho.

Pois, no instante em que Joe e eu nos unimos, tudo no mundo passou a ser belo. Até minha velha lingerie. 

Capítulo 16 – Simplesmente Demi - MARATONA

Não temos esse direito

Acho que a rotação da Terra mudou de direção. Se antes uma vidente tivesse me avisado que mais tarde Joe e eu estaríamos atracados nos braços um do outro, eu jamais teria acreditado. Mesmo quando meus lábios foram traçados pelos dedos dele semanas antes, em meu quarto, ou no momento em que nos conectamos na Caverna do Pirata, apesar de todas as pistas, eu nunca cogitara essa possibilidade. Joseph sentia algo por mim.
Agora eu sabia. Podia não ser paixão, mas havia uma força que nos atraía. Isso estava claro, especialmente porque ele não conseguiu esconder o suspiro que soltou ainda com sua boca presa à minha. Nem sei se foi suspiro mesmo ou um gemido baixo. O que importava o nome da coisa, afinal? Bastava para mim o fato de ter me deixado louca, excitada.
Mas, de repente, um fio de lucidez surgiu dentro de mim. O que eu estava fazendo, deixando acontecer? Joe não era um cara solteiro. A namorada dele, a maldita Nome de Cachorro e cérebro de toupeira com diarreia, devia estar bebericando calmamente um martíni sentada no sofá da cobertura dele. Nem em seus piores pesadelos ela imaginaria que seu querido Joseph deslizava as mãos fortes e poderosas pela extensão de meu corpo, embora fizesse questão de saltar as partes mais... comprometedoras.
Essa constatação foi um banho de água gelada. Sob uma nova ótica — bastante desesperadora, por sinal —, o título de cachorra da história havia acabado de ser transferido para mim!
Sem aguentar mais a pressão da realidade, espalmei minhas mãos no peito de Joseph e o empurrei com força. Ele não se moveu muito, mas se afastou o suficiente para interromper o beijo e me fazer sentir vazia.
A prova de nosso crime estava estampada no rosto dele: cabelos revoltos, lábios vermelhos e inchados, além da respiração acelerada.
Tapei os olhos com os dedos. Que vergonha de mim!
— Demi... — Joseph disse, com a voz entrecortada, mas sem saber direito o que dizer.
Havia fogo em seu olhar.
Estendi os braços e balancei-os em sua direção, gesticulando com ímpeto.
— Não fala nada. Finge que isso não aconteceu.
Suas mãos tentaram me alcançar mais uma vez, mas eu me afastei.
— Não me toque, Joe — supliquei. Talvez tenha sido o pedido mais difícil que fiz na vida, o mais custoso. — Isso não está certo.
Enquanto Bon Jovi entoava as últimas palavras da canção que agora havia se tornado o fundo musical de minha história — curta, eu sei — com Joseph, Joe me encarou com os olhos carregados de confusão, angústia, culpa e um resquício de desejo. Mas acabou balançando a cabeça, um gesto mudo de concordância.
— Tem razão — ele suspirou, bagunçando ainda mais o cabelo com dedos nervosos.
Aquelas duas palavras, tão simples, tão genéricas, deixaram-me arrasadas. Preferia que Joe tivesse negado e dito que desejava aquele beijo desde o dia que nos vimos pela primeira vez, que estava tão apaixonado quanto eu e que romperia com Laika assim que voltasse para casa.  Entretanto, por mais que doesse, concordar comigo era a atitude correta.
Senti um frio gigantesco. Apesar de estar com meu sobretudo, era como se eu estivesse despida. Um tremor percorreu meu corpo e desejei nunca ter batido o pé para assistir ao show de Bon Jovi.
Melhor passar a vida imaginando uma situação sonhada do que experimentá-la uma vez e não poder tê-la nunca mais.
— É melhor eu ir embora — disse. — Vou pegar um táxi.
— De jeito nenhum — esbravejou Joe, todo mandão. — Você já correu riscos demais por hoje. Nem precisa ligar para o Jorgensen. Eu mesmo a levo para casa.
Tive que rir. Mas não foi uma risada alegre, com humor. Pelo contrário. Soou como uma ode à derrota, um manifesto à frustração. Fiz um movimento de desdém com a mão e rejeitei a oferta:
— Seu apartamento está cheio de visitas, que já devem estar estranhando seu sumiço. Vou voltar sozinha. Taxistas estão acostumados a carregar celebridades — disse, com ironia.
— Demi, não seja criança. Pense no seu pai, pelo menos, antes de se enfiar num carro qualquer.
Como se eu estivesse louca para sair pelas ruas de Perla a bordo de um táxi. Mas que outra opção eu tinha? O contexto anunciava em letras garrafais que era bem mais seguro voltar para o castelo com um desconhecido ao volante do que ficar na companhia de Joe.
Devo ter deixado esse pensamento transparecer, pois Joseph avançou novamente em minha direção, cheio de fúria, e me segurou pelos ombros, obrigando-me a encará-lo.
— Não vamos discutir isso, Demi. Eu vou levar você de volta para o Palácio Sorvinski com ou sem seu consentimento. E não me fale sobre meus amigos e que já devem ter dado pela minha falta, porque eu não me importo!
Depois de expressar seu argumento de modo tão delicado e tranquilo quanto um general, Joe averiguou se eu ainda corria risco, observando a multidão completamente alheia ao que se passara conosco entre as caixas de som. Selena acharia a situação excitante e daria pulinhos de alegria se ficasse sabendo. Isso se eu contasse a ela, o que estava fora de cogitação. Os beijos e todos os outros detalhes que compuseram meu momento único com Joseph, inclusive Bon Jovi cantando ao fundo, ficariam guardados só comigo, a vida inteira. Bom, contanto que nenhum paparazzo cretino tivesse assistido à cena de camarote, mais uma vez.
— Pegue suas sandálias e venha comigo — ordenou.
— Eu as perdi — sussurrei, agora chateada com o sumiço delas. Na hora da correria, eu não avaliara a ocorrência racionalmente.
Joe desviou os olhos para meus pés e balançou a cabeça. Nossa! Se eu soubesse que me beijar o deixaria tão irritadiço, jamais teria correspondido! Será que meu beijo era ruim? Jesus, será? Ai... Eu não estava pronta para conviver com essa constatação.
— Demi, definitivamente você enlouqueceu — ele me repreendeu. — Primeiro, foge do meu apartamento, depois, sai descalça nesse frio. Vai acabar adoecendo.
Sem me dar chance de justificar, Joseph saiu me puxando pela mão. Caminhamos de cabeça baixa, evitando as pessoas, e num instante entramos no prédio dele e descemos para a garagem. Quando nos viu, o porteiro optou por não fazer comentários, apenas disse uma frase em krosvi, um cumprimento qualquer. Eu acho.
Quanto a mim, não tinha coragem de pronunciar uma palavra. A vergonha pelo que acontecera me calou completamente. Pior foi suportar a consciência de que seria impraticável conviver com Joseph daquele momento em diante. Como olharia para ele outra vez sem visualizar a nós dois naquele amasso fenomenal?
Meu rosto ainda ardia por causa dos arranhões conquistados pela barba por fazer de Joe quando entrei em seu Audi, que estava aberto, com a chave na ignição. Se fosse no Brasil...
Sentei o mais perto possível da porta, de modo que nossos corpos não se tocassem nem por acidente. Fiquei com pena de sujar o tapete do carro com meus pés cheios de areia, mas o que eu podia fazer?
Um clima pesado nos envolveu. Recostei minha cabeça no vidro da janela do carro e fechei os olhos. Não que eu fosse dormir. Apenas criei uma barreira contra uma possível conversa esclarecedora.
Joe ligou o som e uma música suave dominou o ambiente. Mas nem isso conseguiu me acalmar. Ao longe, um novo som deu o ar da graça. Era o celular de Joseph tocando de dentro do bolso de sua calça jeans. Quis olhar para ele e dizer: “Não vai atender?”. Mas fiquei na minha, calada, fingindo-me de morta.
Depois de um milhão de tentativas do outro lado da linha, Joe resolveu acabar com o desespero e atendeu à chamada, falando em krosvi. Mesmo não entendendo nada, saquei que se tratava de Laika, até porque foi fácil concluir isso, uma vez que ela mais gritava do que conversava. Joseph também se exaltou e os dois pareceram entrar no modo “ofensas gratuitas”. Ainda de olhos fechados, percebi quando Joe lançou o celular no painel do carro, com força, acho que sem se despedir da namorada. Cheguei a sentir medo. E se ele resolvesse jogar o Audi de encontro a um poste? Sei lá... Na hora da fúria, o ser humano é capaz de tudo.
Por fingir estar dormindo, não vi quando o cenário urbano de Perla se transformou na paisagem bucólica dos arredores do castelo. Fiquei com pena, porque era uma oportunidade de visualizar tudo no período noturno. Desde minha chegada à Krósvia, eu havia me transformado numa pessoa totalmente diurna. Realmente não vi, mas soube quando entramos no território do Palácio Sorvinski pela mudança de clima. O ar marinho invadiu meus pulmões, anunciando a chegada a meu destino.
Os portões do castelo foram abertos pelos guardas de plantão e eu nem bem esperei Joe terminar de estacionar e já fui saltando do carro, em cima do salto — no sentido figurado, pois meus saltos de verdade já eram. Não consegui ir muito longe. Joe foi mais rápido do que eu e me alcançou antes de eu conseguir dar três passos. Segurando meu pulso — de novo —, disse, ou melhor, ordenou:
— Não vá embora ainda. Precisamos conversar.
Meu coração entrou num ritmo alucinado, bombeando sangue por todas as partes de meu ser. Respirei fundo a fim de me acalmar e encontrar a resposta certa. Então, havia chegado a hora da verdade, ou seja, de Joseph cair fora de minha vida.
— Acho que não — forcei-me a dizer. — O que fizemos foi uma loucura, mas podemos fingir que nada aconteceu. Não tem problema.
— Não? — Joe parecia incrédulo. — Pois, para mim, tem. Demi, será que você não percebe que foi inevitável, que chegaríamos a esse ponto de qualquer jeito?
Ele procurava meus olhos, que fiz questão de manter desfocados dos dele.
— Que ponto? A que ponto chegamos, me explica? Porque só o que sei é que nossa atitude impensada fez você trair sua namorada. — Não que eu me importe com ela. Isso eu não disse em voz alta, mas bem que queria deixar claro de uma vez por todas.
— Demi, não faz assim. Não pense que não significou nada para mim.
— Mesmo que tenha significado, Joe. Não vai voltar a acontecer. — Sério, não sei de onde tirei tanta segurança. — Foi errado e eu não vou me sujeitar mais a isso.
Soltei meus pulsos e passei por Joseph, decidida a esquecê-lo de uma vez por todas. Taí. Se ele tinha um defeito, era esse: estar com uma pessoa e pensar em outra.
— Eu não quero que você se afaste — ele gritou, chamando a atenção dos guardas.
— Impossível. Não temos esse direito — suspirei. — Estou decepcionada, Joe. Pensei que você fosse diferente. Mas no momento você está bem perto de se parecer com o imbecil do Nick, que aproveitou minha ausência para dar em cima da Selena. Acho a Laika uma das pessoas mais insuportáveis do mundo — confessei, muito magoada. — Mas ainda assim o que fizemos não foi certo.
Dessa vez eu o choquei. Sua expressão mudou de agonia para apatia. Ele baixou o olhar, derrotado.
— Você tem razão — disse, por fim, num fio de voz fria, sem emoção. — Não é justo mesmo. Mas quero que saiba...
— Não diga nada. Paramos por aqui. — Cortei sua fala e disparei para dentro do castelo. Não queria ouvi-lo dizer que tinha um enorme carinho por mim ou coisa parecida.

Nem sei quando ele se foi. Não parei de correr enquanto não alcancei meu quarto e me joguei sobre a cama, de vestido de noite e casaco. Com a cabeça enterrada nos travesseiros, chorei como nunca. Deixei as lágrimas levarem embora toda a dor e a decepção que se acumularam em meu peito. Acabei adormecendo daquele jeito: suja, vestida e arrasada. Nem a lembrança do beijo maravilhoso conseguiu me consolar naquela noite.