sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Capítulo 3 – Simplesmente Demi

Aqui não é o Brasil

Meus olhos ainda estavam inchados de tanto que eu tinha chorado. Não esperava a festa de despedida que meus amigos e minha família prepararam para mim no salão de festas do prédio de meus avós.
Depois de me despedir de todo mundo no escritório na sexta-feira, fui à universidade e resolvi o problema com o trancamento da matrícula. Também passei por um doloroso processo de despedida lá, com alguns funcionários que me conhecem.
Estava indo para casa, cabisbaixa, pensando nas coisas que ainda tinha que fazer — terminar de arrumar as malas, separar os livros que queria levar —, quando minha mãe ligou e pediu para eu me encontrar com ela na casa de meus avós. Na hora, não entendi bem o motivo, já que estava combinado que eles iriam comigo até o aeroporto no dia seguinte. Mas, para evitar o falatório de mamãe na minha cabeça, obedeci sem contestar.
Estranhei quando o porteiro avisou que eles estavam esperando por mim na área de lazer. Ele ficou dando umas explicações sem sentido, que minha avó queria que eu desse uma olhada no equipamento novo de ginástica que o condomínio tinha acabado de comprar.
Inocentemente, sem desconfiar de absolutamente nada, fui ao encontro deles. Então, no momento em que pus os pés no salão de festas, as luzes se acenderem e vários rostos conhecidos e queridos apareceram.
Fiquei por um instante meio congelada, em estado de choque, procurando entender o que estava acontecendo. Mas a ficha caiu rapidinho, assim que avistei meus amigos atrás de uma nuvem de balões coloridos, com os olhos brilhando de emoção. E como tinha gente!
Na mesma hora, senti um aperto na garganta que quase me sufocou. Tantas pessoas estavam lá só para me homenagear, para demonstrar que se importavam comigo e que sentiriam minha falta! Minha mãe, minha avó, meu avô, meus tios e primos, Selena, Miley (minha segunda melhor amiga), Nick, até meu pai! E muito mais.
Passei a festa inteira chorando, relutando em me despedir das pessoas que eu amo, querendo me sentir bem, mas com uma sensação terrível de solidão.
Agora eu estava ali, sentada há 13 horas na confortável poltrona do avião da família real de Krósvia, observando o país — que agora também era meu — aproximando-se gradativamente, enquanto a exuberante aeronave de Andrej Markov executava os procedimentos de aterrissagem.
Ainda não sabia o que me esperava lá embaixo. Tive medo de perguntar a meu pai e ouvi-lo dizer que haveria uma comitiva para nos receber. Estava no escuro, com a adrenalina a mil.
— Nervosa? — ele quis saber minutos antes do pouso.
— Sim. — Minha boca estava seca.
— Ajuda se eu disser que ninguém sabe da nossa chegada, ou melhor, ninguém que não deva saber? — Andrej sorria de um jeito encorajador.
— Você quer dizer a imprensa? — questionei, sentindo-me um pouco melhor.
Ele concordou.
— Além de alguns puxa-sacos que só aparecerão para especular. Quero fazer as coisas do meu jeito, do jeito certo. Haverá um momento adequado para eu apresentar minha filha ao país. Mas primeiro eu quero que você se sinta à vontade.
Achei esse gesto muito fofo. Dei um sorrisinho antes de abraçá-lo. Não sei se ele notou, mas era a primeira vez que nos abraçávamos. Foi a primeira vez que eu quis fazer isso.
Ficamos assim por um tempo, até que o piloto informou que já estávamos em solo krosviano. Então, surgiu meu primeiro pânico concreto: como eu me comunicaria com as pessoas se não sabia pronunciar uma só palavra da língua delas?
— Todo mundo fala inglês por aqui? — perguntei antes de descer do avião. — Caso contrário, você sabe, vou ter um probleminha de comunicação.
Andrej soltou uma gargalhada sonora.
— Não se preocupe. Com o inglês você vai se virar muito bem. Mas, se quiser, pode aprender o krosvi.
— Humm... — engasguei. — Acho que não sei se consigo arrastar tanto os érres.
Ele riu de novo.
Meu pai tinha dito a verdade. No aeroporto da capital, Perla, só havia um motorista num carro preto com vidros escuros esperando por nós. O visual nem era tão impressionante assim. Acho que Andrej pensara em tudo. Porque, com toda a certeza, aquele veículo não pertencia à família real.
Com um aperto de mão caloroso, ele cumprimentou o motorista, que abriu a porta de trás para que nós entrássemos.
Era final de outono na Europa, mas o tempo estava muito agradável, mais para frio até. Ao sair do aeroporto e pegar a avenida que levava ao centro da capital, percebi que a natureza era muito receptiva ao clima. Como havia flores em Perla! De todas as cores e tamanhos, ornamentando praças, canteiros, jardins e janelas. Como o céu estava muito azul, o contraste entre as cores, naquela manhã, era belíssimo. Isso acalmou um pouco meus ânimos.
Quase perdi o fôlego diante do palácio administrativo, de onde meu pai governava Krósvia e se reunia com o parlamento. Era uma construção maravilhosa, gigantesca. Andrej me explicou que o palácio fora construído numa planície da região central da cidade, no século XV, durante o reinado de Nicholai III, com o intuito de ser a moradia da família real. Possuía inúmeras alas, com salões imensos, desproporcionais para uma residência familiar.
Por isso, alguns sucessores de Nicholai preferiram morar em outros lugares, menores e menos visados. Era o caso de meu pai, que mora no Palácio Sorvinski.
Mas, afinal, o que mais me impressionou foi a fonte em frente do palácio. Ela ficava dentro de um imenso lago cristalino e devia ter mais de 20 jatos de água, que se alternavam em jorros dançantes. Depois, à medida que nos aproximávamos do Palácio Sorvinski, a paisagem urbana foi dando lugar a um cenário bucólico, quase paradisíaco. Já dava para ver o mar! Meu Deus! Que demais! Só agora eu me dava conta de que passaria uma temporada à beira do oceano. Para nós, mineiros, isso é uma tremenda sorte.
As ondas são suaves. Será que o mar é quentinho? Porque, se for, vou querer dar um mergulho assim que puder.
E então, enquanto eu devaneava sobre água e mergulhos, o palácio surgiu. E meu queixo caiu. Nem tanto pelo prédio em si — que é grande também —, mas pelo conjunto formado pelo castelo, a fonte, o jardim opulento e o Mar Adriático atrás. O que senti não tem explicação.
O carro parou num pátio imenso, onde já havia outros veículos. No mesmo instante, surgiu uma mulher bonita, de cabelos loiros presos num coque perfeito. Ela esbanjava eficiência, tanto pela postura quanto pela aparência, vestida com um tailleur cinza-chumbo, meia-calça e saltos altos com pontas finas, que faziam barulho no piso a cada passo que ela dava.
— Oh, majestade! Como é bom vê-los! — saudou ela, olhando de meu pai para mim, fazendo uma avaliação pouco disfarçada.
— Ah, por favor, Irina, sem o “majestade”. Já passamos disso faz tempo.
Segurei o riso para não magoar... Irina. Coitada. As bochechas branquinhas dela estavam pegando fogo. Deu para perceber que o rei Andrej Markov não era muito de meias palavras.
— E esta é a Demetria. — Franziu a testa. — Quero dizer, é a Demi — corrigiu-se ele —, minha filha. Espero que você tenha feito tudo o que pedi.
— Oh, é claro, majes... digo, Andrej. — E, virando-se para mim, Irina disse: — É um grande prazer conhecer você, querida! Estávamos todos muito ansiosos.
Todos? Ela continuou:
— Espero que goste do seu quarto e do palácio, ah, e do país inteiro. Aqui tudo é perfeito, maravilhoso mesmo.
Pobre Irina! Ela estava uma pilha de nervos. Não sei se por minha causa ou pela presença marcante de meu pai, que revirava os olhos a cada vez que a mulher falava. Mas eu gostei dela. Achei-a espontânea e simpática. Precisava daquela primeira impressão para poder continuar.
— Demi, a Irina será sua... hã... companhia, assessora, secretária... não sei bem como chamar essa relação. Na verdade, ela trabalha para mim, mas penso que você precisará de uma ajuda para se ambientar aqui — explicou Andrej. — Não conheço ninguém melhor para isso do que a nossa querida e fiel Irina.
Epa! Ele estava dizendo que eu teria uma babá?
— Andrej, eu... eu não vou poder andar por aí sozinha? — O pânico tomou conta de mim. Se eu tivesse que andar acompanhada o tempo todo, não aguentaria. Sério.
— Filha, você poderá fazer o que quiser, especialmente quando estiver na propriedade. A Irina só está aqui para ajudar, entende?
Balancei a cabeça, concordando.
— Mas é claro que, assim que a notícia de que eu tenho uma herdeira se tornar pública, teremos que tomar algumas precauções.
— Devo entrar em pânico agora? — brinquei, mas um pouco tensa, na verdade.
— Claro que não — garantiu Andrej.
— Vamos entrar? — sugeriu Irina, pegando minha mão e levando-me até a porta de entrada do palácio.
Eu não via a hora de ficar sozinha e ligar para todo mundo no Brasil. Estava me sentindo uma princesa dos contos de fadas da Disney. Selena adoraria tudo isso.

*

A escadaria da frente do castelo era um prenúncio do que viria a seguir. De alguma forma, ela me pareceu meio familiar. Acho que me lembrou a mansão do Sr. Darcy no filme Orgulho e Preconceito. Os degraus eram de mármore, ladeados por um guarda-corpo em colunas. Tudo muito antigo.
Ao passar pelo portal de entrada, tão enorme e pesado, com o brasão da família Markov esculpido no centro, dei de cara com um salão gigantesco, mobiliado ao estilo do século XVIII. Longas e pesadas cortinas de veludo cobriam as janelas; havia várias poltronas escuras, parecidas com as dos filmes e novelas de época; tapetes — será que da Pérsia? — forravam o chão de mármore branco e polido. E o lustre? Nunca tinha visto um assim: do teto, pendia uma escultura de cristal formada por uma infinidade de gotas cristalinas. A peça devia ter o tamanho de um New Beetle. Sem brincadeira.
Irina não se cansava de explicar a história da família e do castelo. Ouvindo o incansável falatório da secretária/governanta/assessora/sei lá mais o quê, seguimos pelas escadas — longas e adornadas — que levavam ao segundo andar.
Para dizer a verdade, o cansaço foi me dominando e eu pouco escutava o que Irina dizia. É claro que eu estava encantada com tudo. Afinal, nem em meus sonhos mais loucos eu me imaginara passeando por um castelo de verdade, quanto mais como uma princesa. Mas tudo o que queria era ficar sozinha por pelo menos algumas horas e deixar meu corpo voltar a seu lugar. Sim, porque o fuso horário — adiantado cinco horas em relação ao Brasil — e a desgastante viagem resultaram numa fadiga que só um banho quente e muitas horas de sono poderiam resolver. No entanto, precisei me manter firme e seguir em frente, pois, sem quarto, não poderia ter nada disso.
Andrej não nos deixou sozinhas durante a excursão pelo castelo. Tenho certeza de que estava tão esgotado quanto eu. Mas acho que desejava causar uma boa impressão e se manteve firme.
Subimos mais um lance de escadas e minha cabeça já havia flutuado até Marte. Se eu estivesse no paraíso ou no inferno, não saberia dizer.
Continuei andando como uma cobra-cega até que Irina finalmente abriu uma porta no meio do corredor. Entramos em uma suíte que mais parecia um apartamento, de tão grande. Calculei mentalmente e concluí que aquele quarto deveria ser quase do tamanho do que eu tinha em BH, junto com o da minha mãe, mais a sala de televisão. Não preciso de tudo isso, deixo bem registrado aqui.
Mas não nego que era lindo e eu até poderia ter chorado de prazer e admiração se não estivesse tão exausta.
As paredes eram pintadas de bege e adornadas por dois quadros cujas pinturas lembram o movimento impressionista. Será que eram autênticos Monets? Ou Degas? Desculpe, estou me exibindo.
A cama — gigantesca — ficava no centro do dormitório, encostada numa parede recoberta por um papel de parede listrado de bege e marrom. Havia também uma lareira e, em frente a ela, duas poltronas cor de pêssego. Um painel de madeira escura cobria toda a parede em frente da cama. Nele, estava instalada uma televisão enorme de LED com entradas e saídas para tudo o quanto é tipo de mídia.
— O que achou, senhorita? — Irina estava se roendo de ansiedade, esperando uma palavra de aprovação. E Andrej parecia sentir o mesmo.
— É lindo! — murmurei. — Muito lindo mesmo. Eu não precisava de tudo isso.
— Ah! Então, venha ver o closet. — Irina me puxou pela mão e me levou ao outro ambiente. — Veja só o tamanho do seu armário!
— Armário?! — engasguei. — Esse closet é maior do que meu quarto no Brasil. Minhas coisas vão sumir aqui dentro.
Um sorriso insistente e fácil grudou em meu rosto. Nada se comparava a essa sensação de ser querida num meio completamente estranho e novo.
Irina tivera um trabalhão para deixar aquele quarto perfeito para mim. E eu fiquei, é claro, muito grata.
— Puxa, Irina! É tudo tão maravilhoso! Obrigada, de verdade.
Ela abriu um sorrisão maior do que o meu e então eu soube que aquela moça espevitada tinha um coração imenso e seria uma grande amiga nessas terras estrangeiras.
— Oh, querida, fico feliz que tenha gostado. Mas não posso receber os agradecimentos sozinha. O senhor Andrej me orientou em tudo, lá do Brasil ainda.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Meu Deus! Aquele homem existia? Como a louca da minha mãe deixara um príncipe como ele (na verdade, um rei) escapar? Só sendo muito doida mesmo.
— Obrigada — disse, enquanto me aconchegava nele para um abraço cheio de ternura.
— Filha, quero fazer tudo por você, tudo o que estiver ao meu alcance — disse meu pai, com emoção. — Posso ter perdido 20 anos de convivência com você, mas não quero perder mais nada daqui pra frente.
Assenti. Nem eu queria. Porque, admito, queria muito aproveitar esse pai que caíra do céu para mim.
Depois que os dois saíram do quarto para me deixar descansar, a primeira coisa que fiz foi tirar a roupa que vestia havia quase um dia inteiro e mergulhar na banheira que eu tinha só para mim num banheiro acima de todas as classificações dos hotéis de luxo (não que eu estivesse familiarizada com eles).
Devo ter ficado dentro da água por quase uma hora e só saí porque comecei a cochilar. Muito relutantemente, me arrastei — sem roupa mesmo — até a cama gigantesca e me joguei nela. Acho que adormeci em seguida.
Quando acordei, já estava escuro e eu tremia sob a colcha com a qual me enroscara durante o sono. Custei a sacar onde estava. Meu cérebro não fez o processamento automático de minha localização. Por uns instantes, pensei que estava sonhando ou num universo paralelo.
Logo que recuperei a consciência, uma ansiedade me dominou. Gente, sou uma princesa! E estou na Krósvia para desempenhar meu papel, ou melhor, meus dois novos papéis: o de princesa e o de filha com pai. Sinistro.
Lembrei que ainda não tinha dado notícias ao Brasil e minha mãe devia estar desesperada lá em Belo Horizonte. Se bem que, a essa altura, do jeito que ela era estressadinha, já devia ter tomado a iniciativa.
Levantei-me com muita preguiça e olhei a tela do celular. Dito e feito. Havia mais de 20 chamadas não atendidas e umas 10 mensagens de texto. A maioria delas era de minha mãe, mas outras eram de Selena. Só estranhei não ter nenhuma de Nick. Ele provavelmente teria tentado se comunicar comigo pela Internet.
Sem ânimo para conversar e responder ao vivo a todas aquelas perguntas de praxe (Como foi o voo? Você passou mal? A Krósvia é legal? E o palácio?), mandei notícias por sms, as mesmas para minha mãe e minha amiga, dizendo que estava tudo bem, que eu dormira demais e que no dia seguinte ligaria para todo mundo.
Enrolada num lençol, agachei-me em frente a uma de minhas malas, que ainda estavam feitas, e tirei uma peça de roupa limpa. Não sabia que tipo de traje a situação exigiria de mim, então optei pelo básico (que novidade!): calça jeans escura e justinha — uma da Colcci, linda, que ganhei de vovó —, camiseta branca lisa e um casaquinho ajustado na cintura, vermelho, de veludo. Calcei as mesmas sapatilhas de antes e escovei os cabelos. Meu rosto estava meio pálido, então passei um gloss rosado nos lábios e um pouquinho de blush nas bochechas para dar um ar saudável.
Saí do quarto, não sem antes respirar fundo umas cinco vezes para tomar coragem. Foi aí que percebi que estava perdida. O palácio era enorme, cheio de portas e corredores e, na chegada, eu não prestara atenção suficiente para decorar o caminho. Poderia voltar ao quarto e fazer uma ligação de pedido de socorro para Irina — minha suíte tinha um aparelho que se conectava com todos os cômodos do castelo, como nos filmes. Mas seria humilhante demais. O jeito era arriscar.
— Direita — disse em voz alta, tomando a decisão de me localizar sozinha.
Saí às cegas pelo palácio, abrindo portas que levavam a cômodos estranhos, sem esbarrar em nem um ser humano sequer. Os únicos rostos de gente que vi estavam pintados nos inúmeros quadros pendurados nas infinitas paredes. Isso me lembrou da vez que entrara num daqueles castelos mal-assombrados dos parques de diversão. Na verdade, fora no Shopping Del Rey e, mesmo sabendo que era tudo de mentira, eu quase tinha vomitado em cima de um dos monstros que ousara me ameaçar com uma foice. Saíra de lá aos berros, chorando feito um bebê. Eu já tinha 14 anos.
Agora, bufando de raiva por estar perdida e suando de indignação, parei diante de uma grande porta dupla, feita de madeira trabalhada com o que só podia ser o brasão da família real. Se eu acreditasse em forças ocultas, diria que alguma coisa havia me impulsionado a abrir aquela porta e entrar. Mas, como sou quase uma cética quando o assunto é misticismo, ponho a culpa na curiosidade imensa que me atingiu.
Sem pensar demais, empurrei a porta e entrei.
Como já era noite, não se enxergava nada. Tateei a parede em busca de um interruptor e não demorei a encontrá-lo. Assim que as lâmpadas se acenderam, senti minha boca se escancarar de choque e surpresa. Minha curiosidade me levara a um lugar incrível, do tipo que eu só havia visto na televisão ou em livros. Eu estava na maior e mais recheada biblioteca particular do mundo! Bom, pelo menos do meu mundo.
Havia estantes cobrindo todas as paredes do salão, que era grande, mas não a ponto de parecer frio e impessoal. Em cada canto havia livros, todos dispostos de maneira planejada nas prateleiras feitas de uma madeira quase negra.
Meu coração disparou só de imaginar as horas que eu passaria ali, recostada na chaise de veludo verde estrategicamente posicionada debaixo de uma janela ampla, de vidro, cuja vista só podia ser de tirar o fôlego.
Fui caminhando para aquele interior mágico, aconchegante, pisando sobre um tapete não muito felpudo, mas fofo, como se estivesse nas nuvens. Não é exagero meu. Sou louca por livros! Já deixei de ir a muitas festas só para não perder o fio da meada de uma história. Eu trouxera para a Krósvia uma mala só de livros — meus preferidos e aqueles que ainda não lera. Comprava tantos que meu salário como estagiária era quase só para isso. Então, fala sério, aquela biblioteca era um paraíso!
Os livros eram separados por assunto e, em seguida, por autor. Passei os dedos por eles, sentindo a textura, tentando captar sua aura.
Aleatoriamente, retirei um da estante. Era Guerra e Paz, de Tolstoi. Um original, de capa dura e letras douradas! Uma relíquia! Eu já tentara ler Guerra e Paz uma vez, mas confesso que saltei tantas páginas antes de chegar ao fim que não posso dizer que o li realmente. Mas tentei e me orgulho disso. E já vi o filme, só para saber como terminava a história.
Coloquei-o de volta ao lugar e já ia pegar outro quando um carrilhão, no qual eu não tinha reparado, deu o ar da graça, informando as horas com batidas fortes: oito da noite! Puxa! Era tarde e, se eu não me apressasse, Andrej e Irina mandariam uma equipe de resgate atrás de mim.
Prometendo a mim mesma que voltaria mais tarde para uma nova inspeção, dei as costas aos livros, só para me chocar com um corpo grande e rígido, parado no meio da sala.
— Ai! — dei um gritinho, mais pelo susto do que pela dor que atingiu minha testa.
Ainda não tinha visto o rosto do dono daquela parede que se chocou contra mim quando uma voz meio rouca e profunda disse, em inglês:
— O Andrej está maluco atrás de você.
O tom era meio ríspido, por isso dei um passo para trás e ergui os olhos. Dei de cara com um homem jovem, de rosto bonito, mas sério, encarando-me com um olhar irritado. Vestia uma roupa casual — jeans e camiseta de malha — e parecia muito à vontade naquele ambiente.
Tive que engolir em seco, porque aqueles olhos duros — e verdes — estavam me queimando.
— Você pode bisbilhotar mais depois — prosseguiu ele, agora, sim, deixando-meindignada. Como assim, bisbilhotar?
— O que disse? — engasguei.
Ele só balançou a cabeça e me pegou pelo braço, guiando-me porta afora. Não sou nenhuma leitora de linguagem não verbal, mas podia jurar que o cara bonito estava detestando a função de me levar até meu pai.
— Ei, eu posso andar sozinha — protestei.
Ele soltou meu braço sem pensar duas vezes, como se eu estivesse pegando fogo ou fosse transmitir uma doença contagiosa.
Em silêncio, caminhamos por mais um corredor e descemos um longo lance de escadas — eu tinha que guardar esse caminho — até chegar a uma sala decorada por uma mesa enorme, onde Andrej e Irina conversavam de pé perto de uma das cabeceiras. Eles abriram um sorriso ao me verem e acho que meu pai respirou aliviado. Será que ele achou que eu havia fugido?
— Demi! Você sumiu! — observou ele, todo feliz com minha súbita aparição. Chegou perto e beijou meu rosto.
— Desculpa — encolhi os ombros, realmente envergonhada. — Primeiro eu me perdi. Não sabia que direção tomar. Constrangedor, eu sei. Depois, descobri a biblioteca e, bom, quase desmaiei de empolgação diante daqueles livros todos.
Andrej e Irina soltaram uma gargalhada contagiante, mas meu “salvador” continuou rígido e sério como os Dragões da Independência.
— Tudo bem, filha. Fique à vontade para explorar tudo o que quiser neste castelo. Tem minha permissão. Só ficamos preocupados com seu sumiço.
— Desculpa — repeti —, vou ficar mais atenta.
— Então, vamos jantar! — Andrej esfregou uma mão na outra, demonstrando o tamanho da fome que sentia.
Foi então que percebi que eu também estava faminta. Só de pensar na comida, senti meu estômago estremecer. Apertei-o discretamente para que não fosse flagrada por ninguém. Seria uma humilhação se minha barriga rugisse naquela hora.
— Parece que você já conheceu o Joe — Irina comentou.
Meus olhos, mais que depressa, voaram até o homem emburrado, que levantou uma das sobrancelhas, numa atitude meio blasé.
— Oh! É claro! Que cabeça a minha! — Andrej me pegou pela mão e se aproximou do sujeito, todo cheio de afeto — Filho, esta é a Demi, minha menina perdida. E este é o Joseph, Demi. Meu filho postiço.
Nós dois nos encaramos por um instante e, quando eu já ia estender a mão para cumprimenta-lo, coisa que nenhum dos dois tinha feito até então, ele arqueou uma das sobrancelhas e disse:
— Que providencial ela ter sido encontrada justo agora, não é mesmo?
Não sei se Andrej e Irina perceberam o tom, mas para mim ficou claro: Joe foi extremamente sarcástico, o que me levou a acreditar que ele não me queria ali. Fiquei magoada. Até poucos dias atrás, eu mesma relutara em aceitar conhecer essa outra parte de minha vida. Será que aquele playboyzinho estava pensando que eu tinha segundas intenções, tipo, dar um golpe em meu próprio pai? O que não seria pouca coisa, já que ele era um rei. Fala sério!
Ninguém respondeu àquela provocação.
Fechei a cara para ele e me sentei na cadeira que Andrej puxou para mim, bem a seu lado. Joe ficou de frente para nós e nem por um momento relaxou a expressão. Por isso, o jantar foi tenso. Quero dizer, não só por isso. A comida também não ajudou. E olha que eu estou acostumada a comer de tudo, já que minha mãe é dona de buffet e tal, mas nunca havia experimentado aquelas coisas, como, por exemplo, salada de estrela-do-mar! Só de ver os tentáculos do bicho espalhados no meio da travessa, quase passei mal.
Eu queria picanha, arroz, feijão... Será que eles não conheciam esse tipo de comida? Será que eu teria que fazer um regime forçado pelos próximos seis meses?! Ah, não. Se fosse preciso, eu mesma iria para a cozinha. Aprendi com minha mãe a fazer muitas receitas e sei me virar muito bem. Fome eu não passaria.
Percebendo minha relutância em engolir, Irina quis saber:
— A refeição não está do seu agrado, meu bem?
Fiquei roxa de vergonha, até porque Joe semicerrou os olhos, de um jeito maligno, aguardando minha resposta.
Eu poderia mentir e dar uma desculpa qualquer. Aliás, as frases mentirosas chegaram até a ponta de minha língua. Mas mudei de ideia a tempo. Se eu quisesse sobreviver na Krósvia, precisaria ser sincera com todos — e comigo também.
— É que eu não conheço esses pratos — confessei. — Estou acostumada com outras coisas, tipo arroz e feijão. Já ouviram falar?
Andrej caiu na gargalhada e, para minha surpresa, Joe também sorriu. E, meu Deus, quando ele sorriu, tudo mudou naquele rosto. A carranca desapareceu e deu lugar a uma boca muito sexy, meio torta, com dentes branquíssimos e enfileirados. Eu ainda não tinha reparado numa pintinha minúscula acima dos lábios, no canto esquerdo. Muito charmosa a combinação.
De repente, peguei-me perdida naquela imagem, como uma garotinha de olho na Barbie Castelo de Cristal. Joe percebeu e fechou a cara novamente. Ainda bem. Se não, até que horas eu ficaria encarando constrangedoramente?
— Claro que conhecemos arroz e feijão — esclareceu Irina, paciente. — Na verdade, mais o arroz. Mas ele não faz parte das refeições diárias dos krosvianos. Nosso clima não é muito favorável ao seu cultivo.
— Certo. E vocês suprem as necessidades diárias de carboidratos com...?
— Pães e massas, é claro. — Irina foi rápida no gatilho. Mais parecia uma guia de excursão, com suas respostas para todos os tipos de pergunta. O engraçado é que não vi nenhum pão e nenhuma massa naquele jantar. Se eles tivessem sido servidos, eu não estaria passando fome.
No final das contas, Andrej me salvou. Pediu à criada que trouxesse um sanduíche de presunto e queijo para mim, o que me deixou imensamente grata.
Joe, depois do sorriso não intencional, voltou à careta de sempre e ficou quieto, só falando quando a palavra era dirigida a ele.
Consegui observá-lo um pouco mais e concluí que, mesmo bonito, ele era dominado por seu mau temperamento. Queria muito saber se ele agia assim sempre, com todo mundo, mas não tive coragem de perguntar nem para Andrej, nem para Irina. Pareceria invasivo demais, além de dar margem para possíveis especulações.
Então, no momento em que Joseph virou as costas e foi embora para seu apartamento, que ficava sei lá onde em Perla, grudei a língua no céu da boca para não perguntar nada e também saí, refugiando-me em meu novo — e maravilhoso — quarto.
Queria notícias de meu povo e aproveitei a falta de sono e a solidão para entrar em contato com todos. Assim que liguei o computador e me conectei à Internet, as mensagens começaram a pipocar.

De: Dianna Lovato
Para: Demetria Lovato
Assunto: Chegou bem?

Minha querida filhinha,

Tudo bem aí? Chegou bem? Por que não deu notícias até agora? Aconteceu alguma coisa? Você quer voltar? Saiba que estaremos aqui, de braços abertos, caso queira retornar ao Brasil, que é seu lar.
Sei que essa mudança não deve estar sendo nada fácil para você e compreendo se estiver em dúvida. Aliás, todo mundo entende. Não quero que se sinta obrigada a nada.
Então, não me deixe nessa agonia e dê sinal de vida, O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL, tá?
Te amo muito, minha flor. Sempre.

Beijos...
Mamãe

Ai, ai. Essa é minha progenitora. Às vezes, ela é tão dramática, tão superprotetora. Acho que, no fundo, ela estava torcendo para que eu estivesse bem deprimida e voltasse correndo para seu colo.
A próxima mensagem era de Selena, toda animada, perguntando sobre tudo, especialmente sobre a aparência dos krosvianos. Queria saber se eram charmosos como os italianos ou rústicos e misteriosos como os russos. Como assim? No final do e-mail enorme, ela aconselhou:

De: Selena Gomez
Para: Demetria Lovato
Assunto: Conta tudo!

(...)
Não deixe que seu lance recente com o Nick te impeça de paquerar muuuuito por aí. Independente de os krosvianos serem parecidos com os italianos ou com os russos, aposto que são gatos demais, uns gostosos de cabelos claros e olhos verdes. Ah! Comuns narizes charmosos, claro.
Quando puder, tire umas fotos daí e me mande por e-mail. Estou megacuriosa, pode crer.
Agora tenho que ir. Minha irmãzinha quer que eu a leve ao cinema.
Se cuida, amiga.

BJS!
Selena

Olha só o conselho da menina! Como poderia achar graça em qualquer outro cara estando completamente apaixonada por Nick? Aliás, meu coração perdeu uns dois ou três compassos assim que avistei o nome dele em minha caixa de entrada.

De: Nicholas Jonas
Para: Demetria Lovato
Assunto: Oi

Princesa (rs),

Já estou morrendo de saudades.
Falei com a Selena mais cedo, mas ela ainda não tem notícias suas. Entendo. A viagem deve ter sido cansativa e desde que chegou aí você provavelmente tem passado por muitas coisas!
Mas isso não me impede de sentir sua falta. Ontem, quando saí com meus amigos e fomos àquela nova boate nas Seis Pistas, fiquei me lembrando do dia em que a gente se conheceu. Tive que tomar todas para ficar numa boa e não deprê.
E você? Está com saudades também?
Aposto que ainda não conseguiu processar direito essa nova realidade, né?
Espero que esteja gostando de tudo. É muito importante que você fique bem e curta muuuuuuito sua viagem.
Escreva depois, contando as novidades. E não se esqueça de mim!

Mil beijos, gatinha.
Nick.

Espera! Boate nova? Seis Pistas? Tomar todas? Era assim que ele estava sofrendo de saudades? Até parece... Tudo bem que eu mesma não tivera tempo de parar para sofrer e lamentar a distância. Nós também não estávamos namorando nem nada. Mas nem por isso eu já tinha caído na noite e tomado um porre com a desculpa de me animar. Essa não colava!
Mas tudo bem, tudo bem. Foco, Demi. Não era o fim do mundo. As palavras dele demonstraram afeto e carinho e, no momento, isso era tudo de que eu precisava. Né?

Ainda li outras mensagens, de mais amigos e da vovó, e todas continham basicamente o mesmo tema. Bateu uma saudade extrema de todo mundo e, depois daquele jantar esquisito, com comida estranha e olhares assassinos, fiquei me perguntando se valia a pena insistir nessa maluquice de ser princesa.

Capítulo 2 - Simplesmente Demi

*Obs (novamente, só para enfatizar): Não sei se vocês irão gostar dessa história, porque ela é completamente diferente de tudo o que eu já postei aqui no blog. Se não estiverem gostando me avisem, pelo o amor de Deus, ok? haha É sério!!! Me avisem!!


Capítulo 2

Então, você é uma princesa?

— Você está de brincadeira.
Selena, minha melhor amiga de todos os tempos, tinha acabado de receber a notícia e reagiu com ceticismo.
— É verdade. Sou uma princesa. Meu pai é o rei Andrej Markov, da Krósvia.
Antes que pudesse ser pega pelo professor de Direito Penal, Selena se escondeu atrás do livro e segurou uma gargalhada. Alguns instantes depois, jogou um bilhete para mim:
“Pare de brincar. Vou acabar levando uma suspensão por sua causa.”
Dei de ombros. Não poderia convencê-la durante a aula mesmo.
Um pouco mais tarde, sentada com ela na cantina da faculdade, tentei mais uma vez:
— Selena, sei que parece a maior maluquice do mundo, mas descobri  quem é meu pai e ele é, sim, o rei da Krósvia. Na verdade, foi ele quem me achou e ontem mesmo tivemos uma conversa reveladora no hotel onde ele está hospedado.
Contei para Selena tudo o que ficara sabendo por Andrej e, depois, por minha mãe, quando já estávamos em casa, a sós. E minha mãe tinha confirmado a história toda, nos mínimos detalhes. Mas, ao contrário do que eu estava pensando, meus avós também não sabiam de nada: acreditavam tanto quanto eu que o namorado europeu é que tinha dado no pé ao saber da gravidez. Ainda bem. Menos dois mentirosos, pensei.
— Então, você está me dizendo que é filha de um rei? — A expressão no rosto de Selena já não era mais de ironia. — E agora? — indagou ela, abrindo um sorrisão todo satisfeito. — Você vai ser coroada? Caramba, Demi, já parou para pensar que você agora vai ser uma celebridade? Vai aparecer em tudo quanto é revista e vai ser disputada por jornalistas daqui e da Europa! E vai ganhar um monte de roupas e sapatos de grife! Uau! Que demais!
Sinceramente, tem horas que eu acho que Selena vive em outro planeta. Eu conto para ela que finalmente tenho um pai e a garota só pensa em futilidades!
— Por que eu ganharia roupas, Selena?
Ela revirou os olhos, como se minha pergunta tivesse sido ridícula.
— Minha filha, todo mundo vai querer vestir a mais nova princesa do pedaço.
— Eu estou mais preocupada em descobrir como vou lidar com isso agora. Meu pai quer que eu vá ficar com ele durante um tempo, para conhecer minhas origens e ser apresentada ao país dele. Eu não sei...
— Não sabe por quê? É claro que você tem que ir.
— É que não estou preparada para mudar minha vida assim — disse, enrolando uma mecha de cabelo entre os dedos. — Hoje estou aqui, sentada com você, tomando um suco de manga de caixinha, completamente anônima e dona do meu nariz. Se amanhã eu for para a Krósvia, não vou ter controle de mais nada. Vou ser vigiada e controlada o tempo todo, coisa que nunca fui, nem mesmo pela minha mãe, você sabe.
— Você está tomando por base os filmes da Sessão da Tarde. De repente, fazer parte da família real de um país pequeno como a Krósvia nem é tão sensacional assim. Aposto que as outras princesas e os príncipes de lá têm uma vida normal.
Soltei a mecha e suspirei.
— Aí é que está. Não existem outros príncipes e princesas. Meu pai não teve mais filhos e só tem uma irmã com filhos ainda pequenos, que nem são herdeiros do trono.
A gargalhada de Selena ecoou por toda a cantina.
— Herdeiros do trono? Parece que você está falando de um filme de época.
— É. Eu sei. É ridículo. Viu como eu não posso ir? Já me imaginou vestida de princesa, toda produzida e maquiada que nem as Barbies da sua irmã?
— Não seja dramática. Você tem que ir porque é a outra metade da sua história. Ser mineira, de BH, estudante de Direito e apaixonada pelo abestalhado do Nick é fácil. Você tira de letra. Só que você não é só isso e precisa descobrir como é ser de outro jeito, mesmo que depois prefira a forma antiga.
Sério. Às vezes, Selena me surpreende com sua filosofia. Mas ela não deixava de ter um pouco de razão, afinal.

*
— O que sua mulher, quero dizer, a rainha, acha de tudo isso? — perguntei a Andrej, assim que me encontrei com ele de novo, mais tarde.
Eu estava sentada em uma poltrona bem confortável, saboreando um maravilhoso café da tarde e pensando se a vida dele era sempre assim: luxo e comida com fartura.
— Ela morreu há dois anos, Demi — disse meu pai depois de um suspiro melancólico.
Coloquei a mão sobre a boca, chocada.
— Mas... o que houve com ela?
— Câncer.
— Puxa. Eu sinto muito mesmo. Deve ter sido muito triste para você — falei, com sinceridade.
— Sim. Para o país inteiro. A Elena era muito querida e carismática. E jovem. Tinha acabado de fazer 45 anos.
Nossa! Definitivamente, o dinheiro não é capaz de salvar tudo, não é mesmo?
— Por que não tiveram filhos? — ousei perguntar. Já que estávamos nesse processo de recuperação do tempo perdido, achei que não faria mal me envolver mais. Juro que não perguntei só por curiosidade.
— Ela teve. Quando nos casamos, a Elena já tinha o Joseph, mas não podia mais engravidar porque tivera que retirar o útero.
— Ela era mãe solteira? — Eu quase gritei ao fazer a pergunta. E minha mãe com medo de ser rejeitada...
— Viúva. Então, nós nos casamos e criamos o Joe como se ele fosse de nós dois. Só que ele não é meu sucessor ao trono, porque nossa legislação não permite isso para filhos adotivos.
— Então você o adotou?
— Não no papel. A Elena não quis porque o Joe tinha conhecido o pai biológico e gostava muito dele. — Andrej sentou-se a meu lado e tocou a ponta de meu nariz. — Mas ele é como um filho para mim, assim como você é minha filha.
Sorrimos um para o outro.
Eu nunca tinha conhecido um rei de verdade e sempre pensei que eles fossem pomposos e esnobes. Mas Andrej Markov, meu pai, é o contrário disso, o que me deixa muito feliz. Já pensou se eu tivesse que conviver com uma pessoa intratável, arrogante e soberba só por causa do grau de parentesco?
— Quantos anos o Joseph tem hoje? — quis saber. Já deu para notar que sou muito curiosa, não?
— Humm... — ele parou para pensar. Homens! — Acho que 25. Hoje ele não mora mais comigo, no Palácio Sorvinski. Desde que saiu da escola, ganhou sua independência e viveu vários anos fora do país, nos Estados Unidos.
— Então, você está sozinho? Digo, não tem companhia no palácio?
— O que mais tenho é companhia — disse Andrej, com humor. — Você vai ver só quantas pessoas moram lá comigo.
Abaixei a cabeça. Ainda não tinha certeza se queria mesmo conhecer minhas origens europeias. O medo permanecia à espreita.
— Andrej, eu... não sei se posso sair do Brasil agora. Você sabe, tem a faculdade e eu faço estágio num escritório de advocacia. É complicado.
Ele pareceu decepcionado, mas não desistiu.
— Filha, você pode trancar matrícula por um semestre. Não precisa ficar na Krósvia mais do que seis meses, se não quiser. Mas acho que não pode virar as costas para parte do que é. Lá também é o seu lugar e, se não tivesse sido por todo esse mal-entendido, você teria vivido na Krósvia a vida inteira. Eu não estou pedindo para você assumir o trono ou começar a governar o país junto comigo. Nem para abandonar o Brasil de vez e esquecer o que viveu aqui. Será só uma experiência. Eu prometo.
Bem que eu gostaria de acreditar em tudo isso, porque uma parte de mim queria muito ir com ele. Mas havia muitos fatores a considerar, como minha mãe, meus avós, meus amigos, Nick.
Com Nick, era um pouco diferente. Não é como se fôssemos namorados nem nada. Estávamos começando o que poderia ser uma relação duradoura, e viajar agora poderia significar o fim. Os homens não são muito de esperar, principalmente quando o vínculo ainda não é tão forte. Mas eu gostava dele e queria mesmo investir nesse relacionamento. Ou seja, mais um empecilho para minha temporada na Krósvia.
Será que estou sendo ridícula?

*
— É claro que está!
Vovó foi enfática. Para ela, não existia um porém. Era só questão de ajeitar a parte burocrática (trancar matrícula, pedir demissão, fazer o passaporte) e partir. Eu não tinha o que pensar a respeito.
— Você encontrou seu pai. Ele quer muito passar um tempo com você. O fato de ele ser um rei é só um detalhe. Não pode deixar passar essa oportunidade.
— Um detalhe? Vovó, não é como se ele fosse só rico. Ele é um rei! Isso não é só um detalhe.
Ela torceu o nariz.
Minha avó é minha segunda mãe. Boa parte de minha infância foi passada na casa dela, com meu avô também. Por isso, há muita afinidade entre nós e não temos receio de falar tudo uma com a outra. Estamos acostumadas com esse excesso de sinceridade, que com minha vó é até maior do que entre mim e minha mãe.
— Se você não for, vai ser como fugir, exatamente como a Dianna fez — profetizou ela, enquanto aumentava a velocidade da esteira ergométrica.
Ah! Esqueci de dizer. Vovó é tão preocupada com a aparência quanto sua filha, minha digníssima mãe. O dia em que ela não faz exercício é tão raro que eu nem me lembro mais de quando foi o último. Hoje, vovó está na esteira, mas também tem hidroginástica, ioga, pilates e dança de salão. Não esperem encontrar minha avó na cozinha, assando tortas. Ela não é como a maioria.
— Não é questão de fugir, puxa! Eu só acho que ainda não estou preparada para encarar tudo isso.
E foi assim com todo mundo. Ninguém achava que eu deveria esperar mais um pouco e me acostumar primeiro com a ideia de ser uma princesa antes de viajar para a Krósvia. Até mamãe foi a favor, pois ela também acreditava que os sentimentos de meu pai por mim eram verdadeiros e que ele queria mesmo que eu conhecesse e fizesse parte de seu mundo.
Assim que cheguei em casa, à noite, corri para meu quarto e liguei o computador. Havia várias mensagens em minha caixa de e-mail, a maioria banal. Só houve uma que realmente me interessou. Era de Nick, que dizia:

De: Nicholas Jonas
Para: Demetria Lovato
Assunto: Você existe?

Ei, lindinha! Tá sumida, hein? O que anda aprontando?
A gente precisa se ver... Tentei ligar pro seu celular hoje, mas só deu caixa postal. Quer encontrar comigo mais tarde? Posso te pegar na sua casa?

Beijão!
Nick J

A primeira coisa que fiz quando li a mensagem foi checar meu celular e, para minha surpresa, constatei que ele estava sem bateria.
Porcaria!
Eu queria muito ver Nick, mas, ao mesmo tempo, estava receosa. E se ele não quisesse me esperar? Ou se eu desistisse de ir por causa dele e depois me arrependesse? De qualquer forma, eu teria que descobrir o que aconteceria a seguir.

De: Demetria Lovato
Para: Nicholas Jonas
Assunto: Sim. Existo.

Oi!

Desculpa por ter desaparecido.
É que aconteceram umas coisas e eu fiquei super envolvida.
Também quero te ver, até porque preciso te contar uma história. Pode me pegar às oito?

BJ

Mal terminei de enviar o e-mail e Nick me chamou no Skype. Acho que ficou curioso e não quis esperar até a noite para saber a tal história.

Nick: O que houve? problema?
Demi: Não. Ou melhor, talvez seja um problema, sim. Mas não é nada sério.
Nick: Não vai contar?
Demi: Nem sei por onde começar, hahaha É complicado.
Nick: Tente. Eu to aqui. Não vou a lugar nenhum.
Demi: Valeu... é que eu descobri ontem quem é meu pai.
Nick: Sério?! mas isso é ótimo! né??
Demi: Sim, é ótimo. Ele é super legal e ficou muito a vontade comigo. Ele nem sabia que eu existia, acredita? foi pura coincidência ter me encontrado.
Nick: Jura? que incrível! mas então, qual é o problema? quero dizer, já que ele é legal e tal...
Demi: Bom, é que meu pai não é brasileiro. E ele quer que eu fique uns tempos c/ ele, para a gente se conhecer melhor e também para eu ver o lugar onde ele mora.
Nick: Você vai morar com ele? tipo, sair do Brasil?
Demi: Isso, mas só por uns meses.
Nick: Entendo. mas você não disse de onde seu pai é
Demi: De um país pequenininho na Europa, entre a Itália e a Eslovênia. O nome é KRÓSVIA.
Nick: KRÓSVIA?! Mas fica longe pra caralho! pow! nunca pensei que vocÊ fosse descendente de europeus.
Demi: Nem eu. Para dizer a verdade, eu já tinha me conformado em ter só mãe. parei de pensar nas minhas origens paternas ha muito tempo.
Nick: Eu achei legal.
Demi: Serio? pensei que você fosse ficar triste.
Nick: Demi, entende que você não pode deixar de ir? é a sua história e nada pode te forçar a ficar. é claro que vou ficar triste, a gente ta começando um lance legal e eu queria investir nisso. mas a gente pode esperar um pouco, né?
Demi: Quer dizer que você ta dando um tempo, tipo, até eu voltar?
Nick: Não é isso, sua encucada. quero dizer que to disposto a esperar. você não leu direito? Eu disse que quero investir na gente. não importa o tempo que vc vai ficar lá na... Krosvia, é isso?
Demi: Isso. Bom, também penso assim, mas não posso impor nada... você tem toda a liberdade de pular fora. não estamos namorando.
Nick: não?
Demi: estamos?
Nick: kkkkkkkk
Demi: ????????
Nick: podemos chamar o que temos um com o outro do que você quiser.
Aninha: Ta. Então vamos deixar para dar nome ao nosso... lance quando eu voltar. justo?
Nick: Como quiser. quando é que você vai pra lá?
Demi: Não sei. ainda nem dei a resposta ao Andrej, digo, meu pai. mas ele precisa voltar logo, por causa dos... negócios.
Nick: E o que ele faz lá?
Demi: Jura que não vai rir?
Nick: XD
Demi: Ele é... bom... o rei do pais.
Nick: !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

*
— Você não pode estar falando sério.
Estava sentada em frente a Nick numa lanchonete aonde resolvemos ir depois do cinema. Contemplava a expressão dele, que demonstrava um misto de dúvida e divertimento.
Fazia três meses que estávamos saindo e ainda eu não me acostumara com sua aparência. Isso porque Nick é um cara bem bonito, daqueles que vivem sendo perseguidos pelas garotas — e até por alguns caras também.
Ele é alto e moreno e meio musculoso, mas não em excesso como aqueles lutadores do Ultimate Fighting. Tem cabelos escuros e olhos profundos, que me deixaram sem ar quando os vi pela primeira vez, numa festa da universidade.
Desde esse dia a gente vinha se encontrando com frequência e não era segredo para ninguém que eu estava bastante interessada... Afinal, não é todo dia que a gente encontra um cara lindo, sexy, legal e disponível por aí.
Portanto, se essa minha ida súbita para a Krósvia não esfriasse nosso affair, teríamos um futuro.
— Não, Nick, isso é sério. Entra lá no Facebook que você vai ver a mensagem que o Andrej mandou para mim. Pode parecer assustador e sinistro, mas é a mais pura verdade.
Meu possível futuro namorado exalou o ar devagar.
— Isso significa que você é uma princesa?
Por que essa tem que ser a primeira constatação de todo mundo?
— Seja lá o que isso signifique na Krósvia — respondi, cansada.
— Bom, quem diria, hein? Quando essa notícia vazar, ninguém vai te deixar em paz.
— Eu sei. Vai ser terrível. Só espero já estar bem longe quando isso acontecer. Não quero ser bombardeada pelos fofoqueiros de plantão.
— Pois então se prepare. A imprensa da Krósvia vai ficar muito mais ouriçada do que a nossa. — Nick segurou minha mão, transmitindo um calor reconfortante. Se eu pudesse ter um pouco de meus dois mundos ao mesmo tempo, encararia tudo com mais facilidade.
— Por favor, não vamos mais falar sobre esse assunto, tá? — pedi. Cheguei bem perto dele e toquei seu rosto. — Será que podemos aproveitar o tempinho que nos resta? Vou embora no fim da semana.
Nick me deu um beijo leve e balançou a cabeça.
— Tão cedo?
— Sim — suspirei, voltando a me recostar na cadeira. — Quanto mais cedo eu for, mais rápido volto.
Fiz uma careta nada graciosa.
— Desse jeito, parece que você está indo para a forca. Se liga, Demi! Aproveita a viagem. Vai ser legal, você vai ver.
Sorri. Nick tinha razão. Eu estava sendo boba. Mas é difícil relaxar quando uma vozinha fica sussurrando na sua cabeça coisas do tipo:

Prepare-se. Nada será como antes.

Capítulo 1 – Simplesmente Demi.

*Obs: Não sei se vocês irão gostar dessa história, porque ela é completamente diferente de tudo o que eu já postei aqui no blog. Se não estiverem gostando me avisem, pelo o amor de Deus, ok? haha É sério!!! Me avisem!!


Capítulo 1


A Filha do Rei

Diga o que você faria se, ao abrir seu perfil no Facebook, desse de cara com esta mensagem, em inglês:

“Desculpe, mas acho que sou seu pai.”

Acho que fiquei uns cinco minutos em estado de choque, imóvel em frente do computador, lendo e relendo essa única frase que não revelava nada, mas, ao mesmo tempo, queria dizer tudo. Isso porque eu nunca soube quem era meu pai. A história que minha mãe me conta desde sempre é a seguinte:
Assim que fez 18 anos, ela foi para a Inglaterra, onde ficaria estudando inglês por um ano. Lá, conheceu meu pai, um estudante de Oxford, estrangeiro como ela, de um pequeno país da Europa chamado Krósvia. Minha mãe conta que meu pai era um cara bem bonito e simpático, de conversa agradável, e ficou a fim dela logo de cara. No princípio, foram só amigos e saíram juntos para ir ao cinema, almoçar, visitar pontos turísticos. Mas não demorou muito e começaram a namorar.
Segundo minha mãe, eles não se desgrudavam, e era tão bom ficar com ele que ela chegou a cogitar a possibilidade de estender sua estadia em Londres. Ele pareceu adorar a ideia. E tudo ia muito bem, até que meu pai passou a ficar distante e viajar constantemente, sem revelar o motivo.
Nesse meio-tempo, minha mãe descobriu que estava grávida e se apavorou. Com razão; afinal, ela só tinha 18 anos. E então, quando contou a novidade para meu pai, ele pulou fora. Simplesmente deu as costas para ela e se mandou de volta para o país dele.
Meus avós buscaram minha mãe na Inglaterra e a apoiaram, para o bem dela, que tinha ficado totalmente desnorteada com a situação. Ela nunca mais teve notícias de meu pai. Eu cresci imaginando as piores coisas sobre ele e sem a menor vontade de conhecê-lo.
Adulta, eu já nem pensava mais nessa história toda e provavelmente jamais voltaria a pensar se essa mensagem não tivesse aparecido na minha frente, assim, do nada, com direito a uma foto do homem que dizia ser meu pai ao lado da mensagem.
Sem raciocinar, resolvi responder. Eu sei, eu sei, não sou uma boba que cai na conversa de qualquer um que esteja conectado à Internet. É claro que aquele cara poderia ser um maluco qualquer. Mas não foi nem a foto nem o texto que me induziram a responder. Foi seu nome: Andrej Markov. Só alguém nascido lá pelos lados da Rússia ou do Leste Europeu mesmo poderia ter um nome desses! E bendito seja o Google, que esclarece todas as nossas dúvidas, porque só precisei copiar e colar aquele nome no espaço de busca para descobrir de quem se tratava.

*
— Por que só agora você resolveu me procurar?
Sentada no terraço da suíte presidencial do Hotel Ouro Minas, de frente para um homem que até poucos minutos antes não existia para mim, mas era absurdamente parecido comigo — o olhar, a cor dos cabelos —, só uma coisa passava por minha cabeça: Por que agora?. De acordo com a versão de minha mãe, ele não quisera saber de mim. Se ficara 20 anos sem dar notícias, devia ser porque continuava sem interesse nenhum na filha. E, do nada, ele resolvera aparecer...
Eu não deveria ter ido lá. Mas a curiosidade foi maior do que a indignação, principalmente por ser ele quem era. Portanto, enquanto Andrej Markov não explicasse o motivo de seu súbito aparecimento, eu não sairia dali.
— Eu não sabia sobre você. — A voz de meu suposto pai soou firme, mas deu para sentir o nervosismo transparecendo bem lá no fundo.
Por falta de palavras, dei um sorriso irônico. Dizer que não tivera conhecimento da gravidez de minha mãe era demais!
— É verdade — insistiu ele, em inglês. Óbvio que ele não entendia minha língua. Sorte minha que sou fluente em inglês, embora nunca tenha morado fora do país. — Sua mãe terminou comigo e desapareceu. Disse que não queria manter o namoro e voltaria para o Brasil.
— Humpf. — Esqueci como se diz “ah, que beleza”.
— Acredite, Demetria...
— Demi. Só Demi.
— Ok. Demi. Eu preciso que acredite em mim, porque jamais soube de você, jamais soube que seria pai e nunca mais procurei sua mãe porque ela desmanchou o namoro e nós éramos muito jovens. É claro que eu namorei outras garotas depois dela e, sim, ela ficou no passado. Não pensei mais na Dianna até esta semana, quando cheguei ao Brasil.
— Você quer que eu acredite que minha mãe mentiu para mim esse tempo todo? — Acho que o início de um sentimento de raiva acabou me fazendo reencontrar as palavras, que saíram de minha boca num tom mais elevado do que eu gostaria.
— E para mim também — suspirou ele, pegando em minhas mãos, e eu deixei que ele as segurasse. — Achar você foi a maior coincidência da minha vida.
Assenti sem falar nada.
Meu suposto pai me contou que, enquanto se arrumava para uma reunião com a presidente brasileira (Olha o nível do cara! Eu não consigo ser recebida nem pelo reitor da universidade em que estudo), deixou a televisão do quarto ligada como distração, mesmo não compreendendo o idioma. Estava passando um programa de culinária, desses matinais, com apresentadoras loiras e simpáticas, e ele não deu muita atenção. Até que surgiu no cenário uma mulher bonita, charmosa, na casa dos 40 anos, que por algum motivo o fez fixar o olhar na tela.
— Percebi que havia algo familiar nela — disse ele, com um olhar distante. — Então, a apresentadora chamou-a pelo nome e eu tive certeza.
Fiquei quieta, esperando que ele continuasse. Aquilo tudo era muito improvável, mas eu tinha que admitir: estava realmente acontecendo e, pior, fazia muito sentido.
O rei (sim, rei!) Andrej (pronuncia-se Andrei, com i) revelou que ficou assistindo ao programa, meio que enfeitiçado pela visão de minha mãe, até que a apresentadora começou a fazer algumas perguntas mais pessoais. Como não compreendia as falas, ele pediu ao intérprete que o acompanhava que traduzisse.
— Sua mãe se esquivou de algumas perguntas, mas, quando a mulher falou sobre família, Dianna não hesitou e contou muitas coisas sobre você.
Ele me encarou. Não dava para ignorar a emoção que transbordava dos olhos dele e eu fiquei sufocada. Cara, minha mãe mentiu para mim a vida inteira!
— Ela disse que você estudava Direito e que era muito inteligente, além de linda.
Senti minhas bochechas esquentarem. Não acredito que minha mãe disse essas coisas no ar, para milhões de telespectadores. E que meu suposto pai estava repetindo toda essa baboseira bem na minha cara. Que vergonha...
Andrej apertou minhas mãos nas suas e me encarou.
— O resto foi fácil. Achar você, quero dizer.
Assenti. Nem se eu vivesse mais mil anos imaginaria que um dia poderia ficar sentada diante de um rei de verdade e que a atenção dele estaria toda voltada para mim.
Eu tenho um pai, pensei. E ele é um rei.
— Então, eu sou uma princesa?
Ele riu.
— Sim, Demi. Você é uma princesa, herdeira de tudo o que eu tenho. Não tive outros filhos, embora tenha me casado, e vai ser a maior alegria da minha vida compartilhar tudo com você, minha filha.
Quando Andrej fez menção de me abraçar, desvencilhei-me rapidamente. Calma aí! Já pulamos para esse nível? Já estamos falando de vida em família?
— Olha só, Andrej — comecei, devagar, tentando demonstrar maturidade e controle, o contrário do que sentia. — Eu nem conheço você. Mesmo que eu seja sua filha de verdade, e isso ainda não foi confirmado, acho que é meio tarde para começarmos uma relação de pai e filha agora.
— Nada disso. Não concordo — retrucou ele, cheio de convicção. — E tenho certeza de que você é minha filha. Por acaso não percebeu como somos parecidos?
É. Eu tinha percebido, sim. Minha visão funciona muito bem.
— Preciso falar com minha mãe — disse, por fim.
— É claro. Eu também gostaria de falar com ela.
Concordei. Era hora de ouvir o outro lado da história.

*
Minha mãe é uma mulher branca, com um leve tom dourado na pele, adquirido nas horas trabalhando a céu aberto, quando está realizando eventos ao ar livre. Por isso é que fiquei tão chocada ao vê-la empalidecer, como se tivesse visto um fantasma. Tudo bem, foi como se ela tivesse realmente visto um fantasma, só que no sentido metafórico.
A cor de Andrej Markov também não estava das melhores. Os dois ficaram encarando um ao outro com tanta surpresa no olhar que chegava a ser palpável. Naquele momento, tive certeza: estava diante de meus pais e nenhuma palavra que minha mãe dissesse conseguiria negar isso.
Eu poderia até pirar por conta dessa reviravolta em minha vida! Não ter um pai já era ruim, mas descobrir que minha mãe e talvez até meus avós mentiram descaradamente sobre isso por anos era pior. Bem pior.
— O que você está fazendo aqui? — minha mãe perguntou num inglês perfeito, mas com a voz carregada de sentimentos não definidos.
Andrej sorriu de um jeito meio constrangido, meio emocionado, e disse:
— Acho que você ficou com uma coisa minha quando me deixou.
Uau! Que resposta!
Estávamos os três no escritório da empresa de minha mãe (ela é dona de um buffet), todos de pé, mas eu fiquei mais afastada, assistindo ao diálogo dos dois como se fosse só uma espectadora de um drama mexicano. Ninguém pareceu sentir falta de minha participação na discussão, que transcorreu mais ou menos assim:
MÃE: — Como foi que nos encontrou?
PAI: — Você acha que isso é o mais importante agora? Depois desse tempo todo, nem uma maldita palavra! Como você teve coragem de esconder nossa filha de mim?
Meu coração perdeu uns dois batimentos. Era estranho escutar um homem se referir a mim como filha.
MÃE: — Quem disse que a Demi é sua filha? Você está deduzindo isso baseado no fato de ela ter 20 anos?
PAI: — Não, estou simplesmente seguindo o princípio de que a Demi é a minha cara.
Ei, caso eles não tenham percebido, a Demi está aqui, bem na frente deles.
Minha mãe bufou de um jeito nem um pouco bonito.
MÃE: — Até parece! A Demi, a sua cara?
PAI: — Você sabe que sim. Mas não é só por isso. Dianna, você fugiu da Inglaterra de uma hora para outra e terminou comigo sem explicar direito o motivo. Eu não imaginei naquela época que fosse por causa de uma gravidez. Mas agora tudo faz sentido. Você ficou com medo.
Minha mãe abaixou a cabeça e pôs-se a encarar as pontas finas de seus sapatos de salto altíssimo. Ela ainda é muito bonita e se veste muito bem. Nós não somos parecidas. Enquanto ela tem os cabelos escuros e meio ondulados, olhos quase negros e uma elegância nata, eu nasci para ser comum. Meus cabelos são lisos e são castanho-claros, acobreados. Meus olhos são acinzentados e não sou nem um pouco elegante. Estou mais para básica. Resumindo: minha mãe gosta de saltos; eu, de sapatilhas.
MÃE: — Eu tive razão para ter medo, você não acha?
Embora a voz dela tenha saído bem baixinho, acho que minha mãe acabara de assumir que Andrej era mesmo meu pai...
MÃE: — Você é um rei. Eu deveria ter ficado longe de você desde que soube desse “detalhe”. Não temos nada a ver um com o outro. E uma filha ilegítima certamente não se encaixaria nos planos dos seus pais para você.
Andrej suspirou, enquanto eu prendi a respiração. Ele passou as mãos repetidas vezes pelos cabelos, acho que tentando articular o que pretendia dizer. E então falou:
PAI: — Dianna, que pena que você acredite demais em contos de fadas.
MÃE: — C-como a-assim?
PAI: — A família real de Krósvia leva outro tipo de vida. Somos tão humanos como qualquer pessoa. Sua gravidez teria sido recebida com um susto, sim, porque éramos muito jovens, mas jamais com desprezo. Já passou pela sua cabeça que nós poderíamos ter nos casado?
MÃE: — Rá! Você diz isso agora. Queria ver se fosse naquela época.
PAI: — Não, você não queria. Por isso fugiu.
Andrej estava certo. Minha mãe fora covarde. Por outro lado, até entendo o lado dela. Afinal, ele era um rei, e o que sabemos das famílias reais que existem por aí? Basta procurar Lady Di no Google.
O celular de meu pai tocou antes que ele recebesse uma nova réplica de minha mãe e ele se virou para atender.
Só então ela notou minha presença. Olhou para mim com olhos suplicantes, aguardando minha reação. É claro que não fugi, nem gritei com ela, nem disse que não queria vê-la nunca mais. Pelo amor de Deus, já sou bem grandinha, dá para pular a parte da revolta. Cheguei perto e segurei as mãos dela, que estavam frias e trêmulas. E disse:
— Você poderia ter me contado, mãe. Eu entenderia.

Então ela chorou, em silêncio mesmo. E eu soube naquele momento que não importava ter ficado sem um pai por 20 anos. Porque eu pude ter minha mãe comigo nesses anos todos. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Desculpas, mas boas notícias!

Eu estou super enrolada, não estou tendo muito tempo e ainda fiquei encarregada de revisar o livro que meu amigo está escrevendo. Eu estou ajudando ele com umas coisas, como descrever as coisas, porque ele não é muito bom nisso...
Estou tentando encaixar tudo para ter tempo pro blog, porque já era pra eu ter postado o primeiro capítulo :s
De qualquer maneira, a boa notícia, é que vou postar nessa semana ;D nem que eu mate um hahahah mas não sei quando. Farei o possível para ser o mais rápido, Ok?! Ok.

Espero que entendam.
Até breve ;)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Prólogo - Simplesmente Demi


Durante minha vida inteira, desde que era muito pequena, tive um sonho recorrente, daqueles que são sempre iguais e você nunca sabe quando virão. É um sonho tranquilo, mas misterioso, e nada nele muda. Nunca. É sempre a mesma cena: estou sozinha num campo muito verde, com flores de todas as cores plantadas numa espécie de canteiro nas laterais. Uso um vestido amarelo-ouro, longo, tomara que caia e bem rodado a partir da cintura. Ele é lindo. O tecido é tão fino e sedoso que consigo senti-lo enquanto sonho. Meus cabelos estão presos num coque perfeito. Nenhum fio ficou de fora. Atrás de mim, há uma escadaria cujo fim não consigo enxergar. Não sei para onde ela vai, nem imagino o que há depois dela. Só sei que fico olhando para o alto, primeiro com uma expressão confusa, mas depois acabo por sorrir. Então, de repente, começa a ventar, e venta tanto que meus cabelos se soltam e disparam a rodopiar em volta de minha cabeça. Olho para cima outra vez e fico transtornada. Não sei o que vejo, mas não deve ser coisa boa. Em seguida, algo chama minha atenção do outro lado do campo e eu me viro. Alegro-me com seja lá o que for que tenha surgido e estendo a mão. Sei que vou tocar alguma coisa, mas, quando estou prestes a saber o que é, acordo.
Por causa desse sonho, já fiz sessões de psicanálise e a psicanalista disse que, inconscientemente, eu estava em busca de algo para minha vida que só eu poderia descobrir o que era. Não diga! Fui a cartomantes, médiuns e videntes e todos afirmaram que me prendi a algum carma deixado por minhas vidas passadas. Pois é! Um padre disse que eu precisava frequentar mais a igreja. Sem tempo. E então minha melhor amiga, Selena, depois de anos de convivência comigo, concluiu que o sonho não tinha nenhum significado específico e que eu deveria deixá-lo para lá, uma vez que ele não revelava nada importante, tipo com quem eu me casaria — se é que eu faria isso —, nem nada bombástico, como a data de minha morte, por exemplo.
Mas o mais sinistro de tudo isso era a cara que minha mãe fazia sempre que eu anunciava que tinha sonhado com aquilo outra vez. Ela simplesmente arregalava os olhos e dizia:
— Esqueça isso!
Assim que entrei para a faculdade, parei mesmo de dar atenção a essa história. Não que o sonho tivesse desaparecido, mas resolvi assumir para mim mesma que todos nós temos uma pedra no caminho, e até que a minha não era tão grande assim. Afinal, não passava de um sonho.
Um sonho bobo, sem significado. Não era uma mensagem, um sinal ou coisa assim. Bom, era isso que eu achava.
Até hoje.