sábado, 5 de outubro de 2013

CAPÍTULO 1 - FIXAÇÃO

“Fecho os olhos
Pra te ver, você nem percebe
Penso em provas de amor
Ensaio um show passional...”

As primeiras lembranças de Joseph Bolivatto eram das duas mangueiras nos fundos de sua casa. Lembrava-se de muito pequeno deitando no gramado e tentando ver os frutos maduros no alto. Ali construíram seu primeiro balanço. Ali também colocaram a rede onde ele se deitava junto com o pai no final de tarde, quando este chegava do trabalho e contava como foi o seu dia.
Aquelas árvores também lhe garantiram o primeiro braço quebrado. E foi ali atrás que deu os seus primeiros beijos na prima da vizinha que morava ao lado.
Ele foi um garoto muito feliz. Seu melhor amigo na infância foi seu pai, teve sua cota de mimos e de chineladas, mas era feliz. Um garoto muito sensível, perspicaz, que percebia que nem tudo era um mar de rosas a sua volta. Aprendeu a reconhecer o olhar de tristeza que sua avó paterna às vezes adotava. Tomou para a si a obrigação de ser tão bom garoto, que tiraria a aflição do semblante da mulher que tanto amava. Nem sempre conseguia fazer tudo certo, mas acertava na maioria das vezes.
Aprendeu que quando confessava que a amava, o sorriso nascia em sua face, por isso, repetia sempre, em qualquer oportunidade, com beijos e abraços. Levou anos para ele saber que não era a causa do sofrimento da avó. E mesmo quando soube continuou inventando jeitos de fazê-la feliz. Talvez por isso se tornasse o adulto centrado, sensível e bom leitor de pessoas na maior parte do tempo. Assumia a responsabilidade de tornar as coisas mais fáceis e simples na vida das pessoas a sua volta. Quase sempre conseguia.
Com o tempo Joseph tornou-se um especialista em esconder a si mesmo. Fazia isso com tanta propriedade que às vezes ele mesmo tinha dificuldade de saber quem era o homem que via no espelho. Era capaz de fazer exatamente o que era esperado dele, sem se lamentar ou reclamar.
Tinha a rara capacidade de observar sempre as necessidades dos outros antes das suas... Talvez por isso quase nunca fazia algo que fosse apenas para si.
Órfão de mãe aos dois anos de idade cresceu sabendo que não se podia ter tudo. Tinha muitos amigos e a vida confortável de um garoto de classe média alta, ainda assim não cresceu acreditando que o mundo estava a seus pés.
Passou a infância numa casa grande com um pequeno pomar no quintal. Atazanava o juízo da avó com suas “invencionices”...
Quando o garoto tinha sete anos o pai mudou de cidade para assumir os negócios da família, até então, nas mãos do avô, que se encontrava doente. Carlos Bolivatto saiu de casa ainda quando o filho era adolescente. Reconstruiu sua vida em outro estado, com outras mulheres, mas não deixou de administrar os bens da esposa, até mesmo quando se divorciou dela anos mais tarde.
Quando tomou a difícil decisão de ir cuidar dos interesses da mãe, Carlos Bolivatto pediu ao filho que tomasse conta dela, pois precisaria de um homem que a protegesse. Ele nunca questionou isso, nem mesmo na adolescência, quando essa responsabilidade lhe custou caro.
Aos oito anos conheceu seu melhor amigo, Nicholas Jonas. O menino era um novo rico, filho de um sujeito que construiu sua fortuna de forma duvidosa. Os Bolivatto acolheram o garoto desde o primeiro momento, a ponto das duas crianças fazerem tudo juntos. O que era bom e ruim. Foi Nicholas que convenceu o amigo a dar a primeira tragada. Foi também Nicholas que decidiu que Joseph já tinha passado do tempo de dar o primeiro beijo. Também foi com o amigo que numa festa tomou o primeiro porre da sua vida.
Joseph não sabia, mas seria com Nicholas que compartilharia os segredos que nunca conseguiria dividir com mais ninguém. Que aquele sujeito presenciaria a maioria de suas bebedeiras, as de alegria e as de tristeza, sem julgamentos, que estaria ao seu lado nos bons e maus momentos. O único sujeito que teria liberdade eterna de abusar da sua paciência com o seu distorcido senso de humor.
A adolescência foi um período difícil, frustrante, passou parte dela dividido entre o desejo de ir viver com o pai e a necessidade de cuidar da avó. Nunca reclamou, mas de algum modo, criou-se uma enorme distância entre ele e Carlos. Silenciosa e inconscientemente, focou no pai sua revolta. Nunca lhe disse nada, mas simplesmente a amizade que compartilharam na infância foi morrendo até se transformar numa convivência fria e distante.
Apaixonou-se apenas três vezes na vida. Nas três vezes, pela mesma mulher.
A primeira vez foi aos treze anos. Ainda não sabia que era amor, mas desde a primeira vez que viu aquela criatura sentada atrás de uma mesa no escritório do pai, seu mundo mudou.
Nunca percebera a ninguém daquele jeito, mas depois daquele dia tornou-se comum pegar-se pensando nela em vários momentos do seu dia ou inventar circunstâncias para reencontrá-la, para estar perto dela.
Pela primeira vez fora passar as férias na casa do pai. Naquele verão conheceu as duas paixões de sua vida: “Ela” e a arquitetura. Desde então passou a sonhar com o dia em que entraria para o negócio da família: Construir. Desejou ardentemente ficar próximo daquele mundo que tanto o encantara, mas nunca teve a coragem de pedir.
Os sonhos com “ela” vieram depois. De certo modo, sua vida se decidiu naquelas férias. As escolhas que fez para si mesmo depois disso foram meras consequências. Quando voltou para casa, o tempo e a distância fez com que a lembrança daqueles dias quase se apagasse, mas sentia o coração perder o rumo quando se recordava do seu sorriso meio tímido, ou da maneira como ajeitava os cabelos atrás da orelha, ou simplesmente de seu cheiro. Sim, ele era do tipo de pessoa que tinha memória olfativa. Suas melhores lembranças sempre estavam vinculadas a um cheiro especial. Pão doce, manga florescendo, lavanda...
Foi apenas por causa da distância que ele seguiu sua vida como um adolescente normal. Deu seu primeiro beijo ainda naquele mesmo ano, não gostou tanto, foi estranho, desajeitado e “molhado demais”. Seu primeiro pensamento após o ato concretizado foi se, “com ela”, se sentiria do mesmo jeito. O segundo foi melhor exatamente porque fechou os olhos e deixou que a fantasia dominasse seus pensamentos.
A segunda vez que se apaixonou foi aos dezessete. Tinha uma namorada em sua cidade e pensara estar imune aquela velha paixonite, afinal seu corpo reagia muito bem à garota.
E Nicholas dizia que isso era perfeito.
Mais uma vez em visita de férias ao pai depois de três anos.
Durante toda a viagem pensou em como seria o reencontro dos dois. Foi mágico. Ela estava deitada na namoradeira da varanda que dava para a piscina, dormindo. O livro que estivera lendo momentos antes havia lhe escapado das mãos. Não se viam desde aquele verão quando a conhecera, mas ainda assim, seu coração a reconheceu no primeiro vislumbre. O sentimento foi tão forte que por algum tempo ficou ali apenas observando. Chegara a acreditar que tivera uma impressão errada ao conhecê-la, mas ela era mais interessante do que se recordava. Teria ficado ali o resto da tarde, se o pai não chegasse e o pegasse em flagrante.
Foram as férias mais dolorosas de sua vida. Ela estava apaixonada e não era por ele.
Teve que assistir beijos e abraços, sentindo-se corroer de ciúmes e incapaz de simplesmente ir embora, por que só o fato de estar perto dela, já fazia com que se sentisse bem, dolorosamente bem. Dessa vez, ele não teve dúvidas, era amor. E do pior tipo: o não correspondido.
Quando voltou para casa, terminou o namoro, a menina já não lhe era tão interessante.
Envolveu-se com outras garotas, perdeu a virgindade com uma empregada da casa, mesmo assim, a lembrança dela não saia de sua cabeça. Nos anos seguintes, retornou para casa do pai em cada oportunidade que teve, só para vê-la cada vez mais apaixonada e mais feliz.
Estava no segundo ano da faculdade quando decidiu pôr fim aquela tortura e não voltar mais à casa do pai. A resolução durou de seus vinte e dois até os vinte e sete anos. Afastou-se do pai em definitivo, já que para conviver com ele teria que conviver com ela. Tornou-se um famoso mulherengo, pois pegou cada oportunidade que surgiu de substituí-la em seu coração, por mais de uma vez pensou que fora bem sucedido, mas a ilusão nunca durou mais que o tempo suficiente para partir um coração.
Quando percebeu que fugir não resolveria seu drama, apenas tornava ele pior, aceitou fazer parte da empresa da família depois de inexplicavelmente trabalhar por seis anos em outros estados, às vezes para concorrentes diretos. Estava decidido a esquecer e seguir em frente, ou pelo menos aprender a conviver com aquilo e fazer parte da família como deveria ter sido desde sempre.
“Ela” ainda estava lá, no mesmo lugar que a deixou anteriormente: completamente fora de seu alcance. Perto o suficiente para vê-la todos os dias.
Foi à terceira vez que apaixonou pela mesma mulher, mas foi um amor diferente, mais carnal, mais sensual. Do tipo que o fazia fantasiar coisas impossíveis em vários momentos de seu dia. Era adulto e seu amor tinha uma expressão física: Desejo.
Dessa vez ele enfrentou o problema. Em pouco tempo assumiu seu posto na empresa, sossegou. No começo tentou acreditar que agora que estavam próximos, convivendo, perceberia que o que sentia por ela era uma paixonite mal resolvida. Que ela não era tudo o que ele fantasiou durante anos, que tinha defeitos e manias como qualquer outra mulher... E ela era cheia de manias... O problema era que até as manias dela o fascinavam.
Não precisou de muito para entender que nunca amaria outra mulher. E que também ela nunca seria sua. Vencido num campo de batalha sem luta. Foi assim que decidiu que era hora de se aquietar. Arranjou uma namorada e se entregou ao trabalho. Ainda a rondava e observava discretamente, pois era como se apenas por olhar para ela sua vida se tornasse mais fácil de seguir. Paradoxalmente, também dolorosa e mais difícil.
Com seu casamento se aproximando, Joseph tentava se apegar ao futuro, logo teria filhos, muitos filhos para ocupar cada espaço em seu coração. Para que lhe dessem trabalho, sonhava com crianças peraltas que lhe dariam muitos cabelos brancos... E o distrairia de sua obsessão. Enquanto isso a rotina o massacrava.
Naquela segunda-feira, sua última segunda-feira como solteiro, começou do jeito de sempre: o rapaz levantou depois de uma noite insone e foi para o banho. Poucos minutos depois a noiva lhe fez companhia. Sexo a três já que quando fechava os olhos era a outra mulher que estava com ele.
Naquele dia, Blanda saiu cedo, pois passaria em algum lugar para acertar alguma coisa do casamento. Joseph estava alheio a tudo, sabia que a noiva e sua madrasta escolheriam o melhor.
Seu papel era sorrir no altar dentro de alguma roupa elegante. Que elas escolheriam.
Isso não poderia ser muito difícil, certo?
Arrumou-se calmamente, tomou o café e meia hora depois foi para o trabalho, sem imaginar que naquele dia começaria a sequência de eventos que viraria sua vida aparentemente organizadinha de cabeça para baixo.

Era um dia particularmente triste na vida de Demetria Lovato. A saudade de seus pais, mortos há mais ou menos um ano, doía alucinantemente. Ela tinha que fingir que estava tudo bem. Trabalho e amigos, os poucos que possuía, todos contavam que fosse capaz de manter o mínimo de sanidade. Então ela afundava o desespero e a solidão num lugar bem escondido dentro de si e levantava todas as manhãs.
Vestiu seu olhar mais antipático antes de entrar no edifício que trabalhava. Era uma forma de defesa para afastar os outros funcionários. Seus dramas pessoais não deveriam ser motivo de fofocas pelos corredores. Melhor ser a “nojentinha” do escritório, que passar pelo constrangimento de perceber pena no olhar das pessoas.
Respondeu com uma careta como imitação de sorriso o cumprimento da risonha recepcionista. Entrou no elevador alisando a saia, de cabeça baixa para que ninguém visse seus olhos marejados. Estava sozinha, no entanto. Segurando a custo o choro, pressionou o botão do seu andar... Ia ser um dia daqueles...
As portas estavam quase fechadas quando alguém colocou a mão, impedindo seu fechamento completo.
— Bom dia Demetria.
Ela estremeceu. Sempre estremecia com aquela voz perfeita, grossa, rouca... Enfim, de homem. Adorava quando ele falava seu nome. Soava íntimo. Infelizmente o nível de intimidade entre eles era bem menor do que ela desejava.
Patética. Em resumo, nível de carência = 100%.
— Bom dia Sr. Joseph. — conseguiu responder baixinho.
Ela nunca falava alto na presença dele.
O elevador se moveu lentamente, a moça não entendia por que Carlos, seu chefe, insistia em manter aquele ferro velho funcionando, que apesar de estar restaurado era um respeitável senhor de 50 anos, quando poderia trocar tudo por algo novo e mais eficiente.
“A manutenção dele está em dia, Demetria, além disso, tenho boas recordações de alguns apagões dentro dele... Pergunte a Raquel...”
É claro que ela nunca faria esse tipo de pergunta a esposa do seu chefe, por mais que ela fosse como uma segunda mãe.
“Sem falar que os clientes que andam nele — continuou o homem — vivem alguns momentos emocionantes... “essa velharia é segura?”
Bem, nisso o chefe da moça tinha razão: o que deveria ser a vergonha de uma construtora de renome era o seu maior charme.
De qualquer jeito, a moça se concentrou no painel numérico modelo antigo para ignorar o constrangimento de estar tão próxima “dele”.
Olhou para cima durante uma prece silenciosa por autocontrole, mas sabendo intimamente que um homem tão perfeitamente sexy deveria ser criação do capeta.
— Preciso de sua ajuda no fechamento dos projetos do mês.
“Oh, Deus, lá vem ele!”
— Falarei com meu pai para que ele possa me emprestar você.
A primeira reação foi dizer que estava a sua inteira disposição para “qualquer coisa”, mas droga, ela não fazia parte do maquinário para ser “emprestada”. Será que faria algum mal a ele vê-la como algo mais que a mobília? Seu lado prático, profissional e ofendido prevaleceu:
— Joseph, o senhor tem uma secretária excelente... Ela pode muito bem cuidar disso.
Começou a argumentar muito irritada e gostou disso.
— Errado, Srta. Lovato, minha secretária é uma incompetente que não faz nada direito.
— Por que o senhor intimida a garota. Um pouco de educação de sua parte faria maravilhas ao relacionamento de vocês. Acredite. Eu mesma treinei a Ângela.
Edgar parecia surpreso com a língua solta da moça naquela manhã. Normalmente ela concordava com tudo sem pestanejar, só para se livrar dele.
Demi olhou de esguelha para o homem. O desgraçado não estava zangado com sua recusa, trazia aquele sorriso indulgente e sexy. Bem, ele quase nunca se zangava. Tinha a vida perfeita, a noiva perfeita...
“... Mas não tinha a secretária perfeita. Chupa essa, gostosão!”
Depois se deu conta que estava feliz por que o outro tinha um problema. Que tipo de pessoa estava se tornando? Ele não tinha culpa de ser bonito... Que o mundo se rendia as pessoas bonitas tornando suas vidas mais fáceis.
“Inferno!”
Tinha que parar com aquilo. A última coisa que ela queria era ficar babando em cima daquele convencido... No máximo ela iria conseguir um hematoma por escorregar na própria baba.
“Seja objetiva mulher.”
Repreendeu-se. Normalmente não era tão amarga, não a essa hora da manhã ou quando encontrava com ele. De fato, esse era o melhor momento de seu dia. Hoje de alguma forma tudo estava diferente. Como se seu desânimo com a vida finalmente estivesse dominado sua eterna timidez, aumentando potencialmente sua rabugice.
“Vamos, Demi. Um dia de cada vez, sobreviva um dia de cada vez”.
Rezou para que o elevador seguisse rápido, mas ainda havia muitos andares pela frente.
Pouco tempo, mas o suficiente para que sonhasse acordada com o que não poderia ter.

Joseph precisava de uma xícara de café. E uma dose extragrande de paciência.
Recusando-se a perder a fachada de bom humor, ele sorriu consigo mesmo. No fim das contas, por mais que a moça reclamasse, ela teria mesmo que ajudá-lo. Infantil, mas ele estava feliz por não ser o único que precisava se dobrar as circunstâncias...
Um gemido.
No começo Joseph pensou ter ouvido coisas, mas sim, fora um gemido.
— Demetria... Você está bem?
A moça estava recostada num canto do elevador, tinha os olhos fechados e agarrava-se a parede. A moça abriu os olhos lentamente, ao mirar os dele, sua palidez natural realçada.
— Demetria, você está bem?
Dessa vez perguntou com mais firmeza na voz. Possivelmente estava em jejum. Sabia que o pai a obrigava a comer sempre que podia. Seria próprio dela passar mal sem dizer nada.
— Estou... — falou num fio de voz.
Óbvio que Joseph não acreditou.
— Você está pálida demais. — segurou seu braço, ela estava gelada. Sob seu toque a mulher estremeceu.
— Eu estou bem! — falou endireitando o corpo e tentando se afastar, sem conseguir.
— Mas você...
— Já disse que estou bem! — dessa vez a moça foi grosseira.
Puxou a mão com força e quase bateu na mão dele quando ele tentou recuperar o contato.
Finalmente o elevador parou e abriu suas portas. Seria um alívio para Demetria, se Blanda, a noiva de Edgar, não esperasse do lado de fora e percebesse o noivo numa atitude que insinuava algum contato físico com outra mulher. A loira instantaneamente ficou com o semblante carregado.
Demetria prendeu a respiração.
Ótimo, era tudo o que precisava para seu dia ficar mais especial: Uma noiva ciumenta e psicopata em seu pé.
— Joseph?! — A sobrancelha arqueada numa muda cobrança de explicação.
Sim, o dia prometia.
Blanda não disse nada ao noivo. Foi até o seu escritório e se trancou lá. Sem querer criar uma situação, Joseph decidiu lhe dar um tempo para que se acalmasse. Embora detestasse seu ciúme doentio, nunca a repreendia em público.
Estava preocupado com Demetria. Seria algo muito próprio dela desmaiar silenciosamente sobre a sua mesa de trabalho.
A secretária do pai era do tipo que detestava incomodar, ou chamar a atenção para si.
Suas atitudes para passar despercebida às vezes soavam como grosserias, mas ele, como bom observador que era, conhecia a melhor amiga de sua irmã o suficiente para saber que no fim era apenas timidez.
Ela havia perdido muito peso nos últimos tempos. Andava abatida, talvez estivesse doente... Ele precisava falar com o pai. No mínimo o velho arrastaria a secretária para a emergência sem levar em conta seus protestos, ou a obrigaria a pôr algo no estômago.
Resoluto, foi ao escritório de Carlos. No caminho ficou cogitando que talvez a moça não recebesse bem sua intervenção.
“Ela já te detesta mesmo, qual seria a novidade?”
A ala da presidência era ampla e tomava um terço do andar. Era composta por três cômodos adjuntos: a antessala da secretária da presidência, uma espécie de recepção onde havia as entradas das outras dependências: uma sala de conferência e finalmente a sala do presidente.
O rapaz encontrou a mesa da secretária vazia. Uma oportunidade, talvez conseguisse falar com seu pai sem que a mulher soubesse. Era provável que estivesse no banheiro ou na cantina. Aproximou-se, a porta da sala do pai entreaberta e logo reconheceu seu engano, a secretária estava ali, nos abraços de Carlos Bolivatto, chorando desoladamente.
Deveria ir embora, mas não conseguiu. Ficou ali... Congelado, sem saber o que fazer...
Odiava ver mulher chorar. Seria capaz de fazer qualquer coisa para acabar com aquilo, mas ficou apenas parado. Dividido. Com a estranheza de invadir a intimidade de outros, mas o poderoso desejo de entender o que acontecia.
Quando a moça estava mais controlada e a ponto de se afastar, o chefe a impediu.
— Eu sei de tudo o que você está passando, sei que é difícil, mas... — Carlos sustentou o rosto feminino, buscando o seu olhar. Usou os polegares para enxugar a face delicada, num gesto íntimo e carinhoso — Vai passar. Tudo passa... Vamos dar um jeito... Deixa comigo que eu resolvo tudo... Você sabe...
Ia falar algo mais, porém de algum modo, o homem percebeu que não estavam sozinhos e ergueu os olhos encontrando os do filho. Depois de um breve momento de hesitação,
Joseph se pronunciou:
— Pai, eu...
Demetria deu-se conta da presença do rapaz com um gemido e afastou-se do chefe rapidamente. Não olhou para Joseph.
Tão rápida quanto foi capaz, ela rumou para a saída.
— Leve seu presente, Demi.
Carlos pediu lhe indicando a caixa mal embrulhada. A moça voltou com a mesma pressa que usara para sair e tentou a todo custo esconder o presente, infelizmente, Joseph conseguiu visualizar seu conteúdo.
Estupefato. Essa era a palavra para descrever como o rapaz ficou. Depois disso, foi impossível não encarar o pai com uma ruga na testa. Seu velho estava enlouquecendo de uma vez?
— Algum problema?
Um claro desafio. Joseph quis dizer que sim... Mas não era de sua conta. Nada daquilo era de sua conta. Sem qualquer comentário, voltou a sua sala e se trancou.
“Que inferno estava acontecendo naquele lugar? Que inferno ele ainda fazia ali?”
A promessa foi cumprida: o dia foi terrível, nada funcionou. Muitos funcionários voltando para casa com uma virose que resolveu dar uma circulada no prédio.
A noiva de Joseph estava descontando seu nervosismo nos subalternos. A cena do elevador contribuiu em muito para piorar seu humor, já tenso pelos preparativos do casamento.
Ele, preocupado demais com suas próprias demandas, nem mesmo tentou apaziguar as coisas.
No almoço Dulce mal falou com ele. Não que isso fosse de todo ruim. Ele não estava com disposição para conversas mesmo. Em momentos como aquele Joseph se perguntava como incentivara a contratação de sua futura esposa pela empresa da família, aquela mistura de pessoal com profissional era uma bomba relógio.
Quando o antigo tesoureiro se aposentou, Blanda tinha apresentado um currículo invejável ao sogro. Por ser noiva do Joseph a contratação foi mera formalidade. Bolivatto construtora era uma empresa familiar. Às vezes, para Joseph, familiar demais, até mesmo sua madrasta e sua irmã prestavam serviços ocasionalmente.
Com o final da tarde se aproximando, o rapaz contava os minutos para o fim do expediente, tentando não deixar o pensamento vagar por caminhos indesejáveis, quando a calmaria foi rompida por gritos femininos.
Reconheceu a voz da noiva e saiu preocupado da sala. Não foi longe. Sua noiva aproximava-se correndo com lágrimas nos olhos. Do outro lado do corredor, Demetria e Carlos passavam apressados entre os outros empregados. Não teve dúvidas, algo muito ruim havia acontecido. Algo passionalmente ruim...

Bem, dizer o quê? Era apenas mais um dia na vida perfeita de Joseph Bolivatto.

Confusos?

Ok, concordo com vocês. O começo é meio confuso mesmo, e, embora seja na terceira pessoa, alguns nomes não são ditos e fica meio vago... Acho que a autora queria causar mistério, mas acho que não deu certo como o planejado hahaha Postarei os 3 primeiros capítulos hoje para tentar ajudar, mas ainda sim está um pouco confuso. Vocês irão entender tudo com o passar da estória, tudo bem?

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Prólogo - 30 dias com Demi

“Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê...”

Uma mordida no pescoço suave e provocante. Joseph estremeceu. A mulher pressionava o corpo quente contra o seu. Olhos no mais profundo tom dourado o encaravam e esbanjavam desejo. Ele teve certeza: aquele seria seu fim.
Aquela não era a sua noiva. Pior, não sentia por sua companheira metade do que sentia por aquela criatura. A uma semana da cerimônia de seu casamento e estava louco por outra mulher. Estava tudo errado. Muito errado.
— Eu não posso fazer isso...
Tentou se esquivar do “ataque”, mas não enganou a nenhum dos dois. A mulher sorriu com indiferente malícia e escorregou a mão ao longo de seu peito... Abdômen... Sempre para baixo...
Essa era a vida de Joseph. Encontrava-se num terrível limiar emocional, onde a culpa, desejo reprimido e o remorso eram os protagonistas de seu drama pessoal. Qualquer empurrão mínimo do acaso deixaria sua vida e muitas outras em pedaços. Era um homem perdido nas escolhas que fez para a própria vida. Principalmente pelas escolhas que não fez, por sua omissão quanto aos seus sentimentos. Não era o tipo que lamentava, mas... Era difícil aceitar que fazia tudo errado. Com mais frequência que o recomendável.
Momentos antes, os pingos de chuva eram lançados ao corredor por uma janela esquecida aberta, correu para fechá-la. Ainda alcançava o trinco quando sentiu um corpo encostando-se ao seu. Sabia que era “ela”, reconhecia seu toque em qualquer lugar. Não entendia como isso era possível, mas reconhecia. Era um homem viciado no nada. Na promessa de um “e se...”.
Virou-se para ficaram frente a frente, disposto a enfrentar a situação. Precisava manda-la embora. Tentou ignorar a incomoda sensação de inadequação que o momento lhe trazia: a mulher estava parada a sua frente, usando apenas uma das cuecas dele, numa atitude de intimidade que eles não tinham.
— O que você faz aqui? — perguntou tentando ganhar tempo. A noiva de Joseph, Blanda, dormia no quarto no final do corredor, se pegasse aquela doida...
A pergunta foi ignorada. Ficando na ponta dos pés, a mulher encostou a pele nua contra a dele. Não precisou de muito. A mordida na nuca que desencadeou a onda de desejo em seu corpo foi mais que eficiente. Agora ele estava ali, sem saber se corria de volta a seu quarto ou atacava aquela criatura com toda a fome reprimida de anos. Sentia-se acariciado com suavidade e incapaz de se mover. Aquela sensação era tudo o que tinha e precisava no momento. Queria se perder nela. As mãos passeavam lentamente por seu corpo, tocando, lábios provando, explorando. Era o toque de uma amante experiente que sabia exatamente o que fazer para enlouquecer o parceiro. Involuntariamente seu corpo ficou tenso. Buscando apoio, “talvez sanidade”, recostou-se contra a janela enquanto aquela criatura o deixava indefeso.
— Eu sou uma boa menina. — sussurrou junto aos lábios do rapaz — Recompense-me...
Joseph queria dizer que sim, mas a razão ainda tentava comandá-lo, então se calou.
Mordendo o lábio.
— Seja um bom menino. — beijou-lhe levemente os lábios
— Dê-nos o que queremos...
Mais provocação do que poderia suportar. Num único impulso empurrou a mulher contra a parede mais próxima.
Ela não se importou com a violência, sorriu vitoriosa. Joseph não perdeu tempo examinando seus atos, a beijou como há muito desejava: lábios, língua e fome. A mulher se desfez da cueca que vestia sem interromper o beijo. Passou uma perna envolta dos quadris do rapaz e tratou de abaixar-lhe a calça do pijama. Tentando pôr algum freio na situação, o homem pegou as mãos atrevidas e tratou de prendê-las no topo da cabeça da moça.
— Eu sei que você quer tanto quanto eu... Vem, por favor...
Diante do choramingo desesperado, puro eco da necessidade dele, não teve outra opção: foi...
Um trovão fez Joseph erguer-se da cama. Passou as mãos pelos cabelos num gesto desesperado. Blanda dormia suavemente a seu lado, indiferente ao estado de excitação do noivo. Seus cabelos loiros espalhados sobre os travesseiros, encolhida numa posição fetal.
Indefesa, sozinha... Sua mulher.
Agoniado demais para permanecer ali, naquele quarto, ele simplesmente saiu.
Numa sensação de déjà vu, descobriu uma janela aberta no corredor. O coração disparou diante da mera insinuação que o sonho fosse profético, mas sabia que não, ela não estava em sua casa e nunca faria aquelas coisas. Os sonhos eram um mero eco de seus desejos severamente reprimidos.
Fechou a janela tentando controlar o desânimo. Seu casamento aconteceria em uma semana. Fizera a escolha certa, Blanda era sensata, bonita, sexy. O tipo de mulher que qualquer homem queria... Não tinha como dar errado. Ou tinha?
Estavam juntos havia três anos. Foram felizes de algum modo, mas sempre fora apaixonado pela outra. Outra que lhe era mais que proibida.
Na cozinha, preparou um café tentando organizar os pensamentos. Por fim voltou à sala. Ali, sentou-se diante das amplas janelas de seu apartamento e ficou observando a cidade adormecida sob a chuva fina daquela madrugada de inverno, enquanto saboreava o café.
Algum tempo depois voltou à atenção a mesinha que ficava ao lado da janela onde colocava os porta-retratos com sua família e amigos, o toque sutil, sensível e doce de sua madrasta na decoração de sua casa. Como foi mesmo que ela disse?
“Você pode tentar se afastar de nós, mas queremos você sempre conosco. E vamos invadir sua vida”.
Ah, se Raquel soubesse da verdade...
Voltando aos porta-retratos, começou a examinar um a um, momentos felizes de uma vida perfeita... Não conseguiu evitar que um sorriso irônico se desenhasse em seu rosto.
Examinando cena por cena até que parou diante de uma que mostrava a família. Uma família feliz e amorosa. Mergulhando nos olhos dourados de sua irmã adotiva, Beth, perdeu-se em pensamentos sombrios. Olhos doces e serenos. Com um aperto no peito pensou consigo mesmo que a vida poderia ser bem mais simples.

Carlos Bolivatto fechou a porta devagar. Naquele quarto, a moça finalmente havia dormido. Na sala calçou os sapatos que trazia nas mãos e terminou de abotoar a camisa.
Diante do espelho que ficava na entrada da casa, viu a marca de batom em seu pescoço. Uma marca exatamente como aquela o colocara em sérios apuros certa vez.
Limpou com cuidado e aproximou-se ainda mais do espelho para observar o trabalho.
Nenhum vestígio. Enquanto se afastava, visualizou o caderninho vermelho no patamar de uma janela.
Havia poucas oportunidades como aquela. A mulher nunca deixava seu caderninho de anotações à toa. Seria uma coisa horrível mexer em suas coisas sem permissão, mas ele precisava de respostas.
Pegou ainda um tanto resistente. Com grande sentimento de culpa foi folheando as páginas, sorrindo da forma desorganizada como ia se agregando lembretes de sua vida pessoal e profissional.
Na mesma pagina estava escrito:
“Enviar memorando de finalização do projeto Maresias.”
“Comprar absorventes”.
“Matar meu chefe.”
Ele riu. Seguiu com a análise quando uma lista surgiu.
Onze itens listados com cuidado e organização.

“Coisas para fazer antes de completar 30:
1. Começar a expressar os meus desejos sem medo.
2. Comprar um carro decente (e parar de me estressar com o mecânico).
3. Tirar férias de verdade.
4. Mudar a decoração da casa e talvez alugar vagas... Para rapazes? (TPM nesta casa basta a minha).
5. Parar de comprar sapatos.
6. Parar de comprar lingeries sensuais (Já que elas vão parar no fundo de alguma gaveta).
7. Mudar de emprego (?!)
8. Parar de passar mal quando certa pessoa entra no elevador.
9. Respeitar quem está ao meu lado e falar a verdade sobre meus sentimentos.
10. Realizar a minha fantasia de sequestrar o filho de meu chefe para fins absolutamente sexuais...
11. Parar de fantasiar...”

O caderno tremulou em suas mãos durante a leitura.
Bem, ele quisera saber... Agora sabia. Não estivera errado em suas desconfianças.
Poderia confrontá-la sobre seus desejos.
Ou simplesmente poderia fazer de conta que nada sabia e agir para resolver a situação a seu modo. Para não perdê-la, controlaria a situação.
Meia hora depois, já em sua própria casa, entrava em seu quarto e abraçava o corpo da esposa adormecida.
— Você demorou...
Ela queixou-se, ainda de olhos fechados.
— Desculpe... Estou para perder minha secretária, imagina a bagunça que vai ser...
— Você dá um jeito.
A confiança que a esposa nutria por ele era comovente.
— Sei disso, mas as coisas ficariam difíceis por um tempo...
Talvez precise trabalhar um pouco mais... Ela está sobrecarregada...
Sentiu a tensão enrijecer o corpo da mulher.
— Precisa de ajuda?
— Não, ainda não...
A mulher se calou, abrindo os olhos e o encarando com mil perguntas, mas sem coragem para verbalizar nenhuma.
Aliás, verbalizar qualquer coisa não era o forte deles.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Em breve.


Epílogo - MARATONA FINAL

— Eu vou sentir tanto sua falta. Eu não acredito que você está me deixando. — Selena se jogou ao meu lado no sofá dos Hellers. Era celebração da formatura de Joseph, um churrasco de quintal, e nós estávamos fugindo do calor e umidade por alguns preciosos minutos de ar-condicionado.
Encostei a cabeça em seu ombro bronzeado.
— Por que você não vai comigo?
Ela riu e encostou a cabeça em cima da minha.
— Esta ideia é tão tola como você ficar aqui. Você tem que ir fazer as suas grandes coisas, e eu tenho que ficar aqui e fazer a minha. Isso não significa que vai ser ruim, no entanto.
Eu me inscrevi em três conservatórios de música para transferência no outono. Nada disso parecia real até depois do teste que eu passei no Oberlin, minha primeira escolha e o e-mail que eu recebi algumas semanas atrás, informando que eu tinha sido aceita.
— Sim, eu acho que você precisa ficar aqui e manter um olho em Nick, também.
A oposição de Selena aos esforços de Nick para reverter o rompimento terminou no Dia dos Namorados, quando ele apareceu com reservas para o “seu Bed & Breakfast, depois ter flores entregues todos os dias, durante duas semanas, transformando nosso dormitório em uma estufa. Com a ajuda de Selena, Nick tinha resistido ao julgamento de tentativa e estupro iminente dos rumores associados e insinuações de seu ex melhor amigo. O iminente pré julgamento de Buck e seu apelo por uma acusação de agressão menor foi um alívio para todos, embora ele provavelmente não serviria a metade de sua pena de dois anos.
Através das abertas portas francesas, vimos os nossos namorados conversando no quintal. Eles poderiam nunca ser melhores amigos, mas eles se davam bem, como oposto, eles pareciam.
Joseph tinha tanta certeza, quando ele me incentivou a candidatar-me a transferência para programas de desempenho de música, que nós estaríamos bem. Ele ainda estava certo, e eu acreditei nele, mas isso não significava que eu queria dois anos de relacionamento de longa distância. Totalmente contra eu tomando uma decisão acadêmica com base em seus planos, ele não me aceitaria ficar, e ele não quis me dizer onde ele se inscreveu ou foi entrevistado para o emprego.
— Eu não vou pedir-lhe para desistir do que você quer por mim, Demetria.
— Mas eu quero você! — Eu murmurei, sabendo que ele estava certo, eu não tinha nenhuma defesa lógica. Em alguns aspectos, ele era filho de seu pai.
Ray Maxfield havia se tornado uma das minhas pessoas favoritas. Joseph tinha me levado para sua casa durante as férias de primavera, e eu nunca tinha visto ele mais nervoso.
Por alguma razão, porém, seu pai e eu nos demos bem. Pude ver a personalidade de tutor de Joseph nele, seu senso de humor e inteligência. Na noite antes de sairmos, Ray vasculhou o sótão da casa de praia e derrubou um trio de aquarelas emolduradas de um menino jogando na praia.
Rosemary tinha assinado as pinturas de seu único filho nos cantos de cada uma “Rosemary J. Maxfield. Nós as penduramos no quarto de Joseph, sobre a escrivaninha.
Ainda mais estranho, Ray estava sentado do lado de fora com Charles e Cindy. Ele havia tirado uma pausa do barco de pesca para a formatura de seu filho a primeira desde que ele deixou Alexandria.

***

— Eu aceitei um trabalho na sexta-feira.
Era isso. Após de se inscrever em dezenas de empregos durante seu último semestre, Joseph teve várias entrevistas, e algumas segundas entrevistas. Uma semana atrás, eu tinha ouvido Charles dizendo a Cindy que ele tinha recebido uma oferta sólida de uma empresa de engenharia na cidade. Eu estava esperando ele me dizer.
Quando partir para Oberlin, em agosto, serão 1.200 milhas de distância.
— Oh! — Eu evitei olhar para ele, com medo que eu fosse explodir em lágrimas.
Colocando as sobras enviadas por Cindy para a gente em sua geladeira, eu não fiz nenhum comentário adicional, e ele se inclinou contra o balcão da cozinha, me olhando.
Finalmente, tudo estava guardado, e eu não poderia adiar o inevitável ainda mais.
Ao olhar na minha cara, ele pegou minha mão.
— Vem cá.
Enquanto ele levou-me para o sofá, eu pisquei as lágrimas e me dei um sermão que consistia principalmente pare de chorar, pare de chorar, pare de chorar.
Inclinando-se para o canto, ele me puxou para seus braços. Eu meio que ouvi quando ele transmitiu os aspectos técnicos do trabalho, o tamanho da empresa, o pagamento impressionante, e a data de início da segunda semana de julho. Principalmente eu queria saber quantas vezes eu teria tempo para voar para casa. Livres fins de semana eram praticamente insólitos, como uma estudante de música. Recitais e apresentações obrigatórias para executar ou participar eram contínuos.
— Então, minha única pergunta é esta: eu quero viver em Oberlin e viajar diariamente para Cleveland, ou viver perto de Cleveland e viajar para você? — Sua cabeça apoiada em um braço dobrado, ele olhou para mim, esperando.
Eu pisquei.
— O que?
Ele sorriu inocentemente.
— Oh, eu não te disse essa parte? A empresa está localizada em Cleveland.
— Cleveland, Ohio? Você aceitou um emprego em Cleveland, Ohio?
Cleveland era um pouco mais de meia hora de distância da faculdade.
— Eu aceitei.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
— Mas, por quê?
Arqueando uma sobrancelha, ele trouxe o braço livre para baixo e colocou meu cabelo atrás da minha orelha.
— Você ouviu o pagamento, certo? E, também, para estar perto de você.
Passando o polegar em uma lágrima do meu rosto, ele acrescentou: — Principalmente, para estar perto de você.
Eu considerei tudo o que eu tinha aprendido seguindo Kennedy, tudo que Joseph havia jurado que nunca iria me pedir.
— Mas todas as coisas que você disse sobre eu não desistir do que eu quero ser ou o que eu quero fazer para estar com você, não se aplicam a você, também?
Ele segurou meu rosto na palma da sua mão e olhou em meus olhos, suspirando.
— Em primeiro lugar, este é um grande trabalho, e eu estou animado com isso. — Quando ele me puxou mais perto e me beijou, me inclinei sobre seu peito, uma mão deslizando sob a sua camiseta. Esqueci-me que ele não tinha terminado a explicação até que ele sussurrou em minha boca: — Segundo, eu sou ambicioso, mas posso ter sucesso em quase qualquer lugar. — De pé, ele continuou me beijando enquanto me levou para seu quarto. Quando ele me deixou deslizar de seus braços para o chão, eu puxei minha blusa fora, correndo para o centro da cama e olhei ele puxar sua camiseta sobre sua cabeça. Eu poderia colocá-lo em “repetição fazendo isso e ver todos os dias... Se eu não soubesse o que estava por vir.
Rastejando para cima do pé da cama, ele se deitou em cima de mim lentamente, arrastando meus dois braços acima da minha cabeça, suavemente, como ele fez na primeira vez que me esboçou. Com uma mão, ele cruzou e prendeu meus pulsos. Ele me ensinou todas as formas possíveis para escapar desse agarre, mas não havia nenhuma maneira que eu quisesse fugir. Ele estava em um modo câmera lenta, um dos meus favoritos, embora isso significava que eu ficaria enlouquecida antes de nós terminármos. Eu mordi a ponta do meu lábio em antecipação.
Ele olhou para mim, e eu examinei seus lindos olhos de perto, algo que eu nunca canso de fazer.
— O que eu não posso fazer é estar em qualquer lugar sem você. — Inclinando-se mais perto, ele passou a língua pelos meus lábios e as pontas dos dedos sobre a minha pele até que se arqueou e capturou com sua boca a minha. Ele soltou meus pulsos, e eu passei meus braços ao redor de seu pescoço, sentindo nossos corações batendo em sincronia enquanto os lábios seguiam um caminho sinuoso da minha orelha para baixo. — A escolha de estar com você não é uma decisão difícil, Demetria. — Ele sussurrou, puxando-se para trás uma última vez para olhar nos meus olhos. — É fácil! Incrivelmente fácil!

Fim.

Easy – Capítulo 27 - MARATONA FINAL

O auditório do ginásio estava lotado com os pais, irmãos entediados segurando filmadoras, e um punhado de avós. Contornando ao redor dos aglomerados de pessoas em pé no corredor, Joseph e eu sentamos nos nossos assentos do corredor a meio caminho entre o palco e as portas de saída traseira. Olhei para o programa verde xerocado de férias. Harrison estava na maior orquestra, o que significava demorar um pouco até ele estar no palco. Eu dava aulas para dois dos outros meninos das orquestras mais baixas, embora eu nunca tive a chance de ver algum deles realmente tocar. Eu estava nervosa em todas as suas contas. Inclinei-me para perto de Joseph, pra que nenhum dos pais pudesse ouvir:
— Eu provavelmente deveria avisá-lo que muitas destas crianças só começaram a tocar há alguns meses, principalmente na primeira orquestra, então eles são um pouco... Inexperientes.
O canto da sua boca virou-se e eu queria me inclinar para beija-lo, mas não fiz isso.
— Essa é sua maneira educada de dizer para eu me preparar para sons como unhas-em-um-quadro-negro? — Ele perguntou.
Eu ouvi a voz de Harrison vinda de uma seção com cordas de isolamento, do lado direito do auditório.
— Srta. Lovato! — Eu procurei por ele em um mar de meninos de smoking de poliéster preto e garotas com vestidos roxos até o tornozelo. Encontrei seus cabelos loiros ao mesmo tempo em que ele percebeu Joseph sentado ao meu lado. Seu sorriso congelou e seus olhos se arregalaram. Quando eu sorri e depois levantei minha mão, ele acenou de volta uma vez, tristemente.
— Eu acho que esse é apenas um dos que estão apaixonados por você. — Joseph olhou para a bota equilibrada sobre seu joelho, arranhando uma costura gasta e tentando não rir.
— O que? Todos eles estão apaixonados por mim. Eu sou uma garota quente da faculdade, lembra? — Eu ri e seus olhos queimavam nos meus.
Ele se aproximou e sussurrou no meu ouvido.
— Tão quente. Agora você me pegou pensando em como você parecia esta manhã, quando eu acordei com você nos meus braços, na minha cama. Seria pedir demais para você ficar essa noite também?
Meu rosto ficou corado pelo seu elogio quando eu encontrei seu olhar.
— Eu estava com medo de que você não fosse perguntar.
Ele pegou minha mão e segurou-a na minha coxa, quando o diretor da orquestra subiu no palco. Uma hora e meia depois, Harrison me encontrou na parte de trás do auditório. Ele estava segurando um ramalhete de rosas vermelhas, cor idêntica à do seu rosto, marcando o embaraço em sua face.
— Eu queria te dar isto. — Ele disse, empurrando as flores para os meus braços. Seus pais ficaram cerca de quinze metros de distância, permitindo-lhe entregar o presente sozinho.
Eu cheirei as rosas e ele trocou um olhar superficial com Joseph.
— Obrigada Harrison, elas são lindas! Fiquei muito orgulhosa esta noite, você foi incrível!
Ele sorriu, mas tentou não fazê-lo, o que lhe deu uma aparência de maníaco.
— É tudo por sua causa, no entanto.
Eu balancei minha cabeça.
— Você fez o trabalho e o colocou em prática.
Ele mudou de um pé para o outro.
— Você parecia fantástico, cara. Eu gostaria de poder tocar algum instrumento. — Joseph disse.
Harrison olhou para ele.
— Obrigado! — Ele murmurou, franzindo a testa. Mesmo que meu aluno era mais alto do que eu, ele era magro ao lado da estrutura sarada de Joseph. — Isso doeu? Nos seus lábios?
Lucas deu os ombros
— Não muito. Embora eu tenha dito alguns palavrões.
Harrison sorriu.
— Legal!

***

Conforme deitamos horas mais tarde parcialmente desprovidos de luz, encaramos um ao outro, compartilhando seu travesseiro. Eu respirei fundo e rezei, eu não estava prestes a repelir Joseph de novo. Eu nunca me senti mais ligada a alguém.
— O que você acha do Harrison?
Ele me estudou de perto.
— Ele parece ser um bom garoto.
Eu confirmei com a cabeça.
— Ele é. — Eu pousei meus dedos no seu rosto e ele me puxou para mais perto. — Sobre o que é isso? — Ele sorriu. — Você está me deixando para ficar com Harrison, Demetria?
Olhando em seus olhos, eu perguntei:
— Se Harrison estivesse no estacionamento àquela noite, ao invés de você, você acha que ele me ajudaria? — Seus olhos se encontraram com os meus e ele não respondeu. — Se alguém tivesse dito para você cuidar de mim, você acha que eles iriam te culpar por você não ter sido capaz de parar o que teria acontecido naquela noite?
Ele exalou duramente.
— Eu sei o que você está tentando dizer...
— Não Joseph. Você está ouvindo isso, mas você não sabe. O seu pai não podia realmente esperar isso de você. Não tem jeito de ele se lembrar de ter dito isso para você. Ele e você se culpam, mas a culpa não é de nenhum de vocês!
Seus olhos se encheram de lágrimas e ele engoliu fortemente.
— Eu nunca vou me esquecer de como ele parecia naquela noite. — Sua voz estava tomada pelas lágrimas. — Como eu não posso me culpar por aquela noite?
Minhas lágrimas molharam o travesseiro entre nós.
— Joseph, pense sobre Harrison. Veja o menino que você era, e pare de se culpar por não poder parar algo que nem um homem poderia. O que você me disse, repetidas vezes? Não foi sua culpa! Você precisa falar com alguém, e descobrir como se perdoar por uma responsabilidade que sua mãe nunca queria que você aceitasse. Você vai tentar? Por favor?
Ele secou uma lágrima do meu rosto.
— Como foi que encontrei você?
Eu balancei a cabeça.
— Talvez eu só esteja onde deveria estar, afinal.

Easy – Capítulo 26 – MARATONA FINAL

Nas minhas costas, com a cabeça em um ângulo estranho contra a porta do passageiro, eu puxei meu braço e lutei sem sucesso para mover minhas pernas.
— Sai fora! — Eu gritei as palavras, sabendo que não teria sentido para ele. Eu estava estacionada na rua, longe demais para alguém me ouvir. — Saia da minha caminhonete! — Eu tinha deixado cair às chaves no chão da caminhonete quando ele me empurrou para dentro do caminhão, e eu a procurei no chão com a mão direita, com a intenção de usá-las como uma arma.
— Eu não penso assim. — Ele agarrou meu pulso direito e balançou a cabeça como se ele pudesse ler minha mente. — Você não vai a lugar nenhum até terminarmos de conversar. Você e sua amiga puta mentirosa arruinaram a porra da minha vida!
E então, eu ouvi a voz de Ralph na minha cabeça. “Seu corpo já é uma arma. Você só precisa saber como usá-lo. De repente, eu parei de lutar e fiz um balanço: eu não poderia chutar. Eu poderia deixar meus pulsos livres girando e puxando-os para baixo, mas e depois? Ele iria apenas me pegar de novo, me imobilizar ainda mais.
Eu precisava dele mais perto, a última coisa que eu naturalmente procuraria. Eu virei meus olhos.
— Me escute quando eu estou falando com você, porra! — Ele pegou meu queixo praticamente cavando com seus dedos enquanto ele se inclinou sobre mim e me forçou a encará-lo.
Mão direita livre.
Enquanto empurrava minha mão entre nós, agarrando e torcendo suas bolas e puxando-as tão duro quanto eu podia, eu bati minha testa em seu nariz com força, tanto quanto eu poderia controlar em uma trajetória em linha reta para cima.
Na noite do estacionamento da fraternidade, tudo aconteceu tão rapidamente que conseguir me orientar era impossível até que tudo estava acabado. Desta vez, tudo estava em movimento lento para um espaço impossivelmente esticado de tempo, eu tinha certeza de que nada do que eu tinha acabado de fazer tinha funcionado.
E então ele gritou, e seu nariz começou a jorrar. Eu nunca tinha visto tanto sangue assim tão perto. Ele derramou sobre ele como se eu tivesse abrido uma torneira-explosão total.
Mão esquerda livre.
Ele foi inclinando para o lado. Ainda puxando suas bolas, eu levantei meu joelho esquerdo e virei para ele, empurrando seu ombro com a mão esquerda. Ele caiu de lado na fenda apertada na frente do banco da minha caminhonete. A sensação correu de volta para as minhas pernas, tremores correram através de mim, e eu fui para a porta, empurrando-a aberta com tanta violência que quase saltou todo o caminho de volta.
Pouco antes de eu me afastar da porta, a sua mão direita disparou e agarrou meu pulso, como o psicopata não-completamente-morto em um filme de terror. Girei e bati o punho para baixo sobre o ponto sensível em seu antebraço superior, polegadas para baixo da curva de seu braço, e ele me soltou, berrando com raiva e tentando ficar em posição vertical.
Eu não esperei para ver se ele conseguiu. Eu saltei da minha caminhonete e fugi.
Este teria sido o momento ideal para gritar, mas eu mal podia soltar um suspiro. Ouvi seus passos batendo desiguais atrás de mim e eu me concentrei na porta de Joseph no topo dos degraus. Eu estava no meio da garagem quando Buck pulou por trás e agarrou meu cabelo, puxando-me a uma parada dolorosa. Eu gritei conforme descemos, virando imediatamente para o meu lado, como Joseph tinha me ensinado, deslocando-o.
De repente, Joseph estava lá. Como um anjo negro vingador, ele puxou Buck longe de mim e jogou-o, em seguida, instalando-se entre nós. Subi para trás, como caranguejo. Ele não me poupou de um olhar, com os olhos incolores queimando na penumbra fundindo com as luzes de inundação ao lado do casa, antes que ele se voltasse para Buck, que tinha rolado para seus pés. Sangue cobria o espaço entre o nariz e a boca e estava manchado no queixo, mas havia pouco sobre ele fora isso.
Um segundo refletor no canto da casa estalou, iluminando a cena.
Ofegante, olhei de lance para meu peito. Minha camisa de malha pink e branca estava com uma mancha escura desde o decote para o topo da minha barriga.
Por causa de nossas posições quando eu bati no nariz de Buck, o meu peito tinha pegado a maioria do sangue que jorrava de seu rosto.
Eu lutei com o desejo de rasgar a minha camisa no quintal da frente de Heller.
Agachado, ele tentou circular Joseph. Ao invés de virar com ele, Joseph moveu-se para os lados, mantendo-se de costas para mim, bloqueando Buck de ficar mais perto de mim.
A voz de Buck foi um grunhido brusco.
— Eu vou te arrebentar até que sua boca se abra, garoto emo. Eu não estou fodido neste momento. Estou sóbrio e sério, e eu vou chutar o seu traseiro antes de eu foder sua putinha de nove maneiras no domingo, de novo.
Mentiroso bastardo.
Joseph não o apressou, e não respondeu a princípio, e então ouvi sua voz muito controlada.
— Você está enganado, Buck. — Nunca mudando seus olhos dele, Joseph abriu o zíper da jaqueta de couro, encolheu os ombros e jogou-a de lado. Quando ele empurrou as mangas compridas de sua camiseta escuras acima de seus cotovelos, notei o jeans desgastado que ele colocou mais cedo e as botas de cowboy que agarrou quando ele estava com pressa, porque não exigem muito tempo para amarrar como suas complexas botas pretas de combate.
Buck deu um amplo soco e Joseph bloqueou. Tentou novamente com o mesmo resultado, e em seguida, correu para imobilizar Joseph. Um soco no rim e depois um soco na orelha esquerda, e Buck cambaleou para o lado, apontando para mim.
— Puta! Pensa que você é boa demais para mim, mas você não é nada, além de uma puta!
Joseph seguiu-o, mantendo-se entre nós. Quando Buck apontou, Joseph agarrou seu braço e virou, deslocando o braço de Buck em uma direção que os braços não são destinados a percorrer antes de dar um golpe rápido no queixo. A cabeça de Buck girou até ele ficar quase olhando para trás por cima do ombro. Ele virou-se para trás e Joseph disparou outro golpe em linha reta em seu lábio. Segurando sua postura defensiva e inclinando a cabeça uma vez a cada lado, o sorriso fantasma de Joseph assumiu uma ameaça que não estava incluída, quando ele se virou para mim.
Buck rugiu e pulou para frente, e eles caíram. Na vertical, eles estavam equilibrados. De peso, Buck tinha uma clara vantagem de 40 ou 50 quilos, e ele usou para prender Joseph, socando-o no lado da cabeça duas vezes antes de Joseph se torcer, jogando Buck por cima de sua cabeça. Caindo de costas, Buck balançou a cabeça duas vezes, como se estivesse tentando limpá-la.
Joseph atacou-o, segurando-o para baixo, e esmurrado ele quatro vezes em rápida sucessão. O som me fez pensar na textura dos bifes de papai, e meu estômago virou. O rosto de Buck estava rapidamente se tornando irreconhecível, e embora eu não pudesse sentir pena dele, eu estava com medo de que Joseph estivesse cruzando no que poderia ser interpretado como força letal.
— Jace! Pare! — Dr. Heller estava rompendo pela calçada. Ele puxou Joseph longe de Buck, que não estava se movendo. Por uma fração de segundos, Joseph lutou, e eu estava com medo que Dr. Heller ficasse em apuros, mas eu tinha subestimado meu professor e sua experiência nas Forças Especiais. Seus braços prenderam como correntes ao redor do peito e braços de Joseph, ele vociferou: — Pare! Ela está segura! Filho, ela está segura! — Quando Joseph cedeu, Dr. Heller afrouxou os braços.
Os olhos de Joseph me encontraram instantaneamente e ele deu uma guinada na minha direção. Sirenes soaram à distância, aproximando-se rapidamente. Ouvi-os virar na extremidade da rua, ao mesmo tempo Joseph caiu na grama ao meu lado. Ele estava tremendo violentamente, a adrenalina ainda bombeando através dele sem ter para onde ir. Respirando pesadamente, ele olhou para mim, levantando a mão com cautela, como se ele tivesse medo que eu recuasse.
Meu queixo latejava, e eu deduzi pela sua expressão que ele devia estar parecendo ruim. Seus dedos roçaram sobre ele e eu vacilei. Ele tirou sua mão e eu vim de joelhos.
— Por favor, me toque! Eu preciso que você me toque!
Eu não tive que pedir duas vezes. Seus braços vieram em torno de mim, me puxando para o seu colo e embalando-me contra seu peito.
— Seu sangue? De seu nariz? — Ele puxou a camisa longe do meu peito, e que colou com o sangue seco, por debaixo do meu sutiã, e minha pele.
Eu balancei a cabeça, enojada.
— Boa garota! — Seus braços deslizaram em torno de mim de novo. — Deus, você é tão incrível!
Pensei no sangue de Buck na minha pele e eu puxei a camisa, o meu estômago soltou novamente.
— Eu quero-a. Eu quero-a fora.
Ele engoliu em seco.
— Sim. Em breve. — Seus dedos se moviam suavemente sobre meu rosto. — Eu sinto muito, Demetria! Jesus Cristo, eu não posso acreditar que te mandei embora assim. — Ele engasgou-se, seu peito subindo e descendo. — Por favor, me perdoe!
Como ele me acariciou, eu virei minha cabeça sob o queixo, curvando para ele tão pequena quanto eu poderia conseguir.
— Sinto muito por pesquisá-la. Eu não sabia...
— Shh, baby... Não agora. Apenas deixe-me segurar você. — Ele me puxou mais apertado ainda depois de pegar a jaqueta da grama ao seus pés e colocando-a em cima de mim, e parou de falar.
Uma ambulância chegou, e os paramédicos despertaram Buck, que pelo menos não estava morto. Com os braços cruzados desapaixonadamente, um dos oficiais monitorava cuidadosamente enquanto ele foi transferido para uma maca enquanto seu parceiro conferia com o Dr. Heller sobre a briga.
— Ja-Joseph. — Ele chamou. — Você e Demetria precisam dar suas declarações, filho. — Joseph levantou com cuidado, puxando-me com ele, me apoiando plenamente. Dr. Heller colocou à mão em seu ombro. — Este jovem é filho do meu melhor amigo. Ele aluga o apartamento em cima da minha garagem. — Ele olhou para nós uma expressão estranha, antes de continuar. — Como eu disse, esse cara... — Ele apontou para Buck, que estava sendo carregado para a ambulância. — Tem uma ordem de restrição contra ele arquivada em nome desta jovem, que ele violou vindo à casa de seu namorado. — Ah, lá estava a razão para o olhar.
Olhos dos oficiais alargaram quando olharam em minha camisa sangrenta.
— É o seu sangue. — Eu disse, apontando para a ambulância.
Um deles sorriu e Joseph repetiu.
— Boa garota!
Inclinei-me em Joseph, e ele apertou os braços em volta de mim. Os oficiais, já suavizados pelo Dr. Heller, não poderiam ter sido mais simpáticos. Vinte minutos e todas as nossas declarações depois, eles, e Buck, tinham desaparecido, e Joseph e eu estávamos recolhendo minhas coisas da minha caminhonete e da rua depois de garantir ao Dr. Heller e sua família que cuidaríamos dos ferimentos um do outro.
Sem falar, Joseph me levou até as escadas, em seu apartamento e direto para o banheiro. Ele ligou o chuveiro e me levantou sobre o balcão para tirar minhas botas e meias. Sem parar, ele tirou minha camisa e sutiã e jogou-os no lixo. Sua camisa, salpicada com gotas de sangue, tanto dele e de Buck, em seguida.
Em pé entre os meus joelhos, ele virou meu rosto em direção à luz e inspecionou minha mandíbula.
— Você vai ficar com uma contusão. Vamos colocar um pouco de gelo sobre ele para o inchaço, após o banho. — Sua mandíbula apertou. — Ele... Te bateu?
Eu balancei a cabeça, o que fez palpitar um pouco.
— Só agarrou realmente forte. Está dolorido, mas, na verdade, o local onde eu bati nele com a cabeça dói mais!
— Está doendo? — Ele tirou meu cabelo do meu rosto e beijou minha testa tão suavemente que eu quase não podia sentir. — Estou tão orgulhoso de você! Eu quero que você me conte sobre isso, quando você puder... E quando eu puder suportar ouvir isso. Eu ainda estou com muita raiva neste momento!
Eu balancei a cabeça.
— Ok.
Ele correu os dedos sobre a volta do meu pescoço.
— Eu sabia que eu tinha fodido tudo. Eu estava indo para a minha moto, para ir atrás de você e então você estava correndo até a entrada da garagem. — Sua mandíbula comprimiu e flexionou. — Quando ele abordou você... Eu queria matá-lo! Eu acho que se Charles não tivesse me parado, eu teria matado ele! — Eu não me movi do balcão até que ele se despiu. Ele me puxou para baixo, deslizou meu jeans e calcinhas fora, e me levou para o chuveiro, onde ele me lavou e inspecionou cada parte de mim. Nós dois estávamos machucados e desgastados em lugares inesperados, e eu mal conseguia levantar os braços. — Isso é normal. — Ele disse, enrolando uma toalha em volta da cintura e outra em torno de mim. — Durante uma luta, você não percebe todos os lugares que você levou um soco, pousou errado, ou bateu em alguma coisa. A adrenalina amortece temporariamente.
Seu cabelo escuro roçou seus ombros, linhas de água escorrendo pelas costas e no peito. Ele me sentou para secar meu cabelo, e eu assisti conforme os finos filetes serpenteavam sobre sua pele com tinta, fluindo sobre a rosa, cortando as palavras do poema, e movendo-se para a linha de cabelo em seu abdômen antes de finalmente empapar a toalha.
Fechei os olhos.
— A última vez que alguém secou o meu cabelo eu estava na sexta série, quando eu quebrei meu braço.
Ele levantou cada mecha suavemente, pressionando a toalha em torno dela para absorver a água sem embaraçá-la.
— Como você quebrou-o?
Eu sorri.
— Eu caí de uma árvore.
Ele riu, e o som reduziu a dor de cada lugar ferido no meu corpo para uma dor maçante.
— Você caiu de uma árvore?
Eu olhava para ele.
— Eu acho que havia um menino e um desafio envolvido.
Seus olhos queimavam.
— Ah! — Ele se agachou na minha frente. — Fique aqui esta noite, Demetria. Eu preciso que você fique aqui, pelo menos esta noite. Por favor! — Ele pegou uma das minhas mãos na sua, e eu trouxe a outra para o seu rosto, perguntando como seus olhos podiam olhar como gelo lascado e ainda aquecer-me ao meu núcleo. Uma contusão estava se formando perto de um de seus olhos e a pele estava arranhada e dividida no alto da maçã do seu rosto, mas seu rosto estava de outro modo sem ferimentos. Suas palavras seguintes foram um sussurro. — A última coisa que meu pai me disse, antes de sair, foi: “Você é o homem da casa enquanto eu estiver fora. Tome conta de sua mãe. — Meus olhos se encheram de lágrimas e assim fez o seu. Ele engoliu pesadamente. — Eu não a protegi. Eu não pude salvá-la!
Eu puxei sua cabeça para o meu coração e cruzei meus braços sobre ele. De joelhos, com os braços em volta de mim deslizando enquanto ele chorava. Enquanto eu acariciava seus cabelos e o abracei apertado, eu sabia que esta noite tinha atingido um acorde no coração de sua dor. Os tormentos de Joseph iam mais longe do que o horror daquela noite de oito anos atrás. O que o assombrava era a culpa, no entanto insanamente equivocada.
Quando ele ficou em silêncio, eu disse:
— Eu vou ficar esta noite. Você vai fazer algo para mim também?
Ele lutou contra a sua desconfiança instintiva, eu o vi fazer isso antes, mas nunca de perto como estava. Ele inalou uma respiração instável, escorando em sua coragem.
— Sim. Tudo o que você precisa. — Sua voz era rouca e abafada. Quando sua língua rolou seu piercing no lábio, eu o queria tanto que era difícil de perder tempo falando.
— Vai comigo amanhã à noite para o concerto de Harrison? Ele é meu aluno favorito da oitava série, e eu prometi a ele que iria.
Ele arqueou uma sobrancelha e piscou.
— Hum. Okay. É só isso? — Eu balancei a cabeça novamente. Ele balançou a cabeça e levantou, direcionando seu sorriso fantasma em mim. — Eu vou pegar algumas compressas de gelo do congelador. Por que você não vai ficar na cama?
Eu estava de pé, colocando minha mão em seu peito e olhando para ele.
— Isso é um desafio?
Ele colocou uma mão sobre a minha e me puxou para mais perto com a outra. Inclinando-se, beijou-me suavemente.
— Absolutamente. Sem cair fora do permitido, no entanto.